A pureza de quem e para quem?

Em plena véspera de natal antes de ir para a confraternização dos migrantes fui assistir 17 again e neste filme tem uma cena que me intriga bastante, quando o Zac Efron pega e começa a pregar a abstinência sexual na aula de educação sexual e se recusa a pegar uma camisinha que a professora distribuí na aula. Sexo é tabu na sociedade e isto é mais do que notório, sentar em uma mesa de bar e falar sobre o que fez na cama, se usou dildo, o que tem receio de fazer é sempre algo muito estarrecedor.

Em pleno século XXI ainda temos este tabu enorme que é discutir sobre sexo com adolescentes, crianças e o que for. Escolhendo assim o caminho mais fácil de não conversar sobre o assunto e deixar propagar alguns mitos sobre sexo como o de que a primeira vez para a mulher é sempre dolorosa, lavar a vagina com coca-cola ou vinagre evita ter filho na primeira vez e que sexo só deve ser feito para procriar.

Nos EUA há um movimento pela pureza que tem como seus principais expoentes os popstars da Dysney: Jonas Brothers, Miley Cyrus, Selena Gomes e quando a Britney Spears. Eles chamam de O movimento da nova virgindade, tanto que a VH1 news exibiu um documentário sobre isso que eles chamam de “uma nova revolução sexual” e nesta nova onda de não falar sobre sexo surgem Purity Rings, Purity Balls e uma outra série de ferramentas que ajudam a um retorno do papel da mulher para o que era antes da 1ª Guerra Mundial, não só isso, ou alguém dúvida que tal movimento não ajuda a consolidar o conservadorismo nos EUA? Só ver a votação altamente preocupante que o Tea Party teve este ano para o congresso americano.

Sim a decisão de fazer ou não sexo pela primeira vez deve ser da pessoa, sem pressão externa e quando é sem pressão externa inclue-se a não pressão externa dos namorados também. A decisão de só fazer sexo depois de casada e para ter filhos é deveras ideológica, mesmo que não transpareça desse jeito, quando ídolos adolescentes são extremamente sensualizados e ao mesmo tempo pregam o sexo apenas só depois do casamento é algo deveras hipócrita, fora que perigoso pois dá lastro a coisas como a interrupção da disciplina sobre educação sexual nas escolas públicas do Rio de Janeiro, pois mesmo que seja deficitárias é quando as adolescentes tem contato do que é um método de anti-concepção, preservativo, DSTs e diversos mitos falados anteriormente são desmentidos. Na verdade coisas como Purity Rings e Purity Balls só ajudam a perpetuar ignorância e dar lastro para coisas como o fato de hoje a maioria dos soropositivos serem mulheres casadas, fica onde o não conhecimento de preservativos e métodos anti-concepcionais?

O conhecimento de prevenção e do próprio corpo já demonstrou sim ser efetivo, é óbvio que a extrema sexualização nos meios de comunicação também tem efeito nas crianças e adolescentes, mas se privar de conversar sobre o assunto e criar um mundo cor-de-rosa onde não existem DSTs, gravidez precoce e métodos anti-concepcionais é deveras medieval, o problema não é querer achar alguém bacana para ter a sua primeira vez, mas compreender que é preciso se proteger, saber que não é preciso sentir dor pois o prazer é das duas partes e não só dele.

Essas coisas só se sabem conversando, informando e quebrando o tabu e não fingindo que não existe como pregam movimentos que começam a pipocar também no Brasil.

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5 responses to A pureza de quem e para quem?

  1. bacana, luka!

    ainda com todo o conservadorismo que há por aqui, e que é interessante ao capitalismo que assim o seja, penso que um outro fator que colabora para que o sexo continue sendo um tabu mesmo em espaços em que não deveriam ser, é o modo de falar sobre ele. o teu texto mostra bem que sexo e vulgaridade, erotização precoce, mercantilização do corpo ou qualquer outra forma de opressão a ele relacionada, são coisas bastante diferentes. já havia percebido essa tendência por aqui, mas não fazia ideia de que já era um movimento com nome e tudo o mais.

    agradecida pela reflexão.
    um abraço feminista,

    • Então, tenho descoberto muitas coisas conservadoras nesta minha fase pop adolescente, o movimento de Purity Ring é do começo dos anos 90, já a nossa geração!
      É incrível que por um lado tu tens a industria pornográfica coisificando as mulheres e ensinando isso aos adolescentes espinhentos e do outro a indústria pop falando para não trepar antes de casar, sendo que elas são super sexys e sensualizam horrores!
      Essa política de abstinência é a porta para DSTs e gravidez indesejadas pois re-ergue um tabu que nos anos 60 e 70 custamos para derrubar pelo menos um pouco.

  2. […] Achei a entrevista bem interessante e resolvi compartilhar essa reflexão com vocês. O original é da editora do bitchmedia, Sarah Mirk, e pode ser acessado aqui. É importante lembrar que o processo do racismo nos EUA abarca não apenas a população negra, mas também latina. Por isso em vários momento traduzi a entrevista para não-brancos, pois se trata de uma abordagem feita pelos filmes da Disney de negres e latines. Acredito que é importante pontuar que a lógica construída Walidah Imarisha se apresenta também em como a Disney constrói também os grandes astros infantis, tem algo sobre isso aqui. […]

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