A volta dos que não foram, Baby Doc retorna ao Haiti após 25 anos de exílio na França

O Haiti tem dado o que falar neste começo do ano, seja por conta do 1 ano do terremoto que ajudou a devastar ainda mais o país, ou por conta da presidenta Dilma já ter indicado que o Brasil permanece liderando a Minustah, o pronunciamento do ministro Patriota sobre a pressão sofrida pelo Brasil nas negociações com os EUA acerca o nome que chefiaria a missão de paz em 2005, o relatório da Anistia Internacional sobre o aumento de violência sexual no Haiti, o surto de cólera no final de 2010 que já matou mais de 3 mil pessoas, o impasse eleitoral  e agora a cereja do bolo é a volta de Jean-Claude Duvalier, vulgo Baby Doc, esta semana depois de 25 anos exilado na França.

Baby Doc continuou o regime de terror instaurado por seu pai François Duvalier, Papa Doc, em 1957. Os Duvalier foram protagonistas de um dos períodos mais duros da história recente haitiana, ficaram no poder até 1986 quando uma revolta popular o tirou do poder e deu início a um conturbado processo político que dura até hoje, para se manterem no poder foi criado em 1959 pelo Papa Doc a milícia paramilitar dos Tonton Macoute que perseguiu e exterminou a oposição durante os 29 anos de ditadura dos Duvalier.

Com a repentina volta de Baby Doc ao Haiti a tensão política do país aumenta e é muito estranho que o governo brasileiro ainda não tenha se pronunciado sobre o fato, apenas o Human Rights Watch e a Anistia Internacional se manifestou sobre a volta de Baby Doc ao país caribenho dizendo que ele deveria ser julgado pelos crimes que cometeu quando esteve no poder, visto que crimes contra a humanidade não prescrevem. Porém a alta delegacia de Direitos Humanos da ONU já se pronunciou dizendo não achar claro haver bases legais para prender o ex-ditador, na mesma ocasião o prota-voz da alta delegacia não respondeu por que Baby Doc não foi acusado por nenhum de seus crimes nestes 25 anos em que se exilou na França e muito menos sobre a surpreendente volta dele ao Haiti esta semana.j3mu

O país já esta em embulição política, seja pelos casos de cólera ou por conta das denúncias que levaram o secretário-geral da OEA ir ao Haiti para discutir os impasses eleitorais oriundos do 1º turnos das eleições realizadas há 3 semanas, visto que o 2º turno foi adiado e o atual presidente haitiano René Préval por conta deste impasse político pode prolongar o mandato até maio deste ano, após isso não havendo resolução para o impasse o futuro da política haitiana é incerta e este é o cenário encontrado por Baby Doc ao voltar ao país que aterrorizou durante 15 anos e a Minustah não modificou em nada o plano de segurança nacional, mesmo sabendo antecipadamente da volta do ex-ditador ao país.

Isso mesmo a Minustah e a ONU já sabiam que Baby Doc voltaria para o Haiti e não emitiram opinião alguma, outra coisa é que o ex-ditador voltou ao Haiti com um passaporte diplomático do próprio país e a França não informou ao Haiti da saída de Baby Doc do exílio. Obviamente a volta deste importante ator político para o mais pobre país das américas coloca mais pólvora no barril, agora a tarde a polícia haitiana prendeu o ex-ditador, mas ainda assim preocupa a postura da alta delegacia de Direitos Humanos da ONU e da própria Minustah, visto o barril de pólvora que é o Haiti nenhuma reviravolta deveria ser descartada e tratar a volta de Baby Doc ao país do nada surpreendendo à todos como um fato político menor é subjulgar as diversas reviravoltas políticas existentes no Haiti de 1986 para cá, além de fazer uma análise de conjuntura de 5ª categoria.

Por enquanto o ex-ditador vai apenas ser interrogado sobre as acusações de corrupção que permearam seu governo, nada relacionado aos crimes contra direitos humanos realizados pelos Tonton Macoutes sob sua tutela. Sim a volta de Baby Doc reabre possibilidades duras para a política haitiana daqui pra frente, capítulos e mais capítulos de uma história de resistência e duros combates por liberdade desde a independência haitiana.

Atender ao que a Anistia e o Human Rights Watch reivindicam de julgamento e punição dos crimes cometidos por Baby Doc deveria ser pauta primeira a ser defendida pelo governo brasileiro, mas que nestas últimas semanas nada comenta sobre o que acontece em referência aos acontecimentos nas terras haitianas recentes, o ministério de relações exteriores ainda nada falou sobre a volta de Baby Doc, assim como quando sairam os telegramas vazados pelo WikiLeaks sobre a pressão dos EUA para que o Brasil recrudescesse no combate contra a violência no país.

A sintonia fina do que acontece na política haitiana é apenas ignorada pelas autoridades brasileiras, como se a nossa presença lá não acirrasse também o barril de pólvora político já histórico no país, agora é esperar cenas dos próximos capítulos desta tão longa história de dança das cadeiras políticas e no final das contas que tem pagado o pato disso tudo é o povo, com a indefinição política existente lá recheada pelo devastador efeito do terremoto e do surto de cólera do ano passado tudo é possível por ali.

Agora é torcer que Baby Doc não seja liberado pela polícia tão cedo e seja indiciado pelos crimes que cometeu.

Atualização às 20h16 de 18 de janeiro:

Segundo matéria da TeleSUR Baby Doc tinha sua segurança feita no hotel pelos capacetes azuis da ONU, fora que o governo haitiano ainda não soltou pronunciamento, segundo outra matéria também não se sabe a qual o resultado do informe da OEA sobre o impasse eleitoral que o país vive. Silêncio do governo haitiano sobre a chegada de Baby Doc e sobre o impasse eleitoral é no mínimo aflitivo.

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