É hora do Brasil parar de ignorar a xenofobia

HAITI-2Nesta sexta-feira (7/8) começou a rolar no final da tarde a informação sobre ataque contra haitianos em frente a igreja do Glicério na capital paulistana. A violência aconteceu no sábado (1/8), um homem teria afirmado que haitianos “estão roubando empregos de brasileiros” e aberto fogo contra 6 haitianos, entre eles uma mulher. Em matéria d’O Globo uma testemunha informa que as vítimas foram à duas unidades de saúde e foram recusados, tendo voltado pra casa ainda com balas alojadas no corpo. Vale registrar que, da grande mídia, apenas O Globo e Extra publicaram matérias sobre o atentado.

Pois bem, o acontecido na baixada do Glicério no dia 1º de agosto é algo para muito preocupar não apenas o movimento negro e de direitos humanos, mas também o movimento social brasileiro de conjunto. Há pelo menos dois problemas que precisamos encarar: o ataque xenófobo que culminou com 6 vítimas e o racismo e xenofobia institucional que as 6 vítimas sofreram ao procurar assistência médica em duas unidades de saúde diferentes.

Pontuo isso, por que a perseguição contra imigrantes tende a aumentar em momentos de crise econômica, um bom exemplo disso são as milícias organizadas na Grécia por simpatizantes do “Aurora Dourada” para perseguir, espancar e matar imigrantes. Apesar da crise ajudar a recrudescer a xenofobia pelo mundo não podemos tratar da questão de forma naturalizada, até por que estamos falando de pessoas em profunda vulnerabilidade social.

Porque há demanda por empregos preenchida por esses migrantes, ao contrário dos discursos vazios de “roubo” de postos de trabalho usados pela extrema direita de muitos países.

Mas lá como aqui. Enquanto não aprovarmos uma nova lei de migrações, substituindo o Estatuto do Estrangeiro produzido na ditadura militar (que vê a imigração não como um direito humano mas como uma questão de segurança nacional), abrindo espaço para o amparo legal a esse grupos, continuaremos a criminalizar e a escravizar trabalhadores estrangeiros que vêm ajudar a construir o Brasil. (Imigrantes querem direitos? Calem a boca, sejam invisíveis e trabalhem!)

Segundo a organização não governamental Repórter Brasil pelo menos 22 mil haitianos chegaram ao Brasil entre 2010 e 2014, enfrentando situações precárias desde a demora de emissão de carteira de trabalho por parte do Ministério do Trabalho e Emprego, até a falta de estrutura nas cidades para acolhimento dessa população. A ocupação de postos de trabalho mais precarizados por parte dessa população mais fragilizada em momentos de aumento da taxa de desemprego e um arraigado racismo em nosso país, camuflado pelo mito da democracia racial, são elementos importantes para estourar processos xenofóbicos mais intensos.

migrationNo mundo existem mais de 200 milhões de imigrantes e esse debate no Brasil sempre foi muito marginal, a invisibilização do trabalho escravo realizado por bolivianos há bastante tempo em confecções brasileiras, agora a dramática situação dos haitianos demandam que os movimentos sociais brasileiros tomarem pra si a defesa destas pessoas. Ou seja, não podemos nem naturalizar o fato de que por conta do racismo e da xenofobia a perseguição de imigrantes em situação de vulnerabilidade é algo que vai acontecer e aí secundarizamos por completo o debate.

É necessária que a reação dos movimentos sociais e da esquerda brasileira frente o ajuste fiscal e o avanço conservador seja também uma alternativa para o combate a xenofobia, não podemos permitir que haja mais episódios como o que aconteceu na baixada do Glicério em São Paulo e não devemos cair no erro da naturalização da violência racista e xenofóbica ou da secundarização deste debate que é profundamente ligado ao debate das estruturas que solidificaram a sociedade brasileira de forma racista.

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