Cabral e a legalização do aborto, ou para ele: Como coibir a violência no Rio

Enquanto lá pelo Congresso Nacional é tentado correr com projetos de Lei como o Estatuto do Nascituro ou o de obrigatoriedade de cadastramento de gestantes, projetos que visam claramente cercear os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres somos surpreendidas pelo pronunciamento do governador Sérgio Cabral (PMDB/RJ) defendendo a legalização do aborto em encontro com empresários em São Paulo com uma frase que entrou para o hall do machismo: Quem não teve ‘namoradinha’ que já fez aborto?

Tanto chamou a atenção que quando fui dar minha passada diária pelo Blog do João Villaverde me deparei com a frase lá e a sugestão de leitura de um post no Substantivu Commune. Já havia pensado escrever sobre tema, visto que não é a primeira vez que o Cabral diz que é favorável a legalização do aborto e fiquei mais incentivada ainda quando um blog que pouco fala sobre direito das mulheres pega e posta a frase do governador.

À priori ficaria pulando de alegria por saber que um governante finalmente se posicionou sobre assunto tão caro às feministas, porém é só resgatar entrevista dada pelo mesmo Sérgio Cabral para perceber que estamos em caminhos diametralmente opostos, pois o governador encara a política de legalização do aborto como uma forma de controlar a natalidade da população pobre como já disse em entrevista ao G1:

Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal.

Para Cabral a legalização do aborto não prevê também a necessidade de garantia da maternidade plena como tanto é debatido nos espaços que se propõem a encarar tão espinhoso debate, assim como para ele a decisão também não cabe a mulher, mas ao homem, estado ou a qualquer outra instância ou pessoa que não seja a mulher e isso vai de encontro com a bandeira de direito ao nosso corpo.

Tanto que a Jéssika Martins do Catarse bem lembrou – pelo twitter aqui, aqui e aqui – que Cabral é governador reeleito do Rio de Janeiro e lá não há assistência alguma a mulher em situação de abortamento, na verdade complicações advindas de abortos inseguros  e ilegais são a 4ª causa de morte materna no estado segundo estudo lançado pela IPAS Brasil no começo do ano.

Eu fico realmente receosa em ver o debate recolocado junto à opinião pública justamente por um homem que encara a legalização do aborto como maneira de coibir a violência e a procriação da população pobre, pois para mim a legalização do aborto se pauta no assegurar a autonomia da mulher em decidir se será mãe ou não e qual seja a sua decisão o estado é obrigado a respaldá-la seja garantindo aborto pelo SUS como defende a plataforma da Frente Nacional Contra a Criminalização de Mulheres e pela Legalização do Aborto, seja garantindo educação e saúde públicas e de qualidade para aquelas que decidiram ser mães.

Ainda mais um cara que coloca a responsabilidade pela decisão de se interromper ou não uma gravidez nas mãos dos homens e não das mulheres, quando boa parte das vezes estes mesmos homens já abortaram há muito tempo e não querem saber que fim levaram as mulheres que engravidaram.

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5 responses to Cabral e a legalização do aborto, ou para ele: Como coibir a violência no Rio

  1. […] ser vista como método contraceptivo ou como controle de natalidade da classe trabalhadora como faz o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, quem se vale disso é a direita e não as feministas, para nós obrigar uma mulher […]

  2. […] Porém não é apenas através do recrudescimento da violência policial que vemos a população negra ser exterminada nestas últimas décadas. Importante lembrar da política de esterilização promovida nas periferias, impondo as mulheres uma condição que não foi escolhida por elas e baseada no modelo americano de combate a pobreza que inclui encarceramento em massa, esterilização das mulheres negras e criminalização da pobreza. Aqui talvez o maior arauto deste modelo de extermínio da população pobre e negra seja o governador do Rio de Janeiro: Sérgio Cabral. […]

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