Relato sobre a votação em 1º turno do PME de São Paulo

Precisava escrever um relato sobre o que eu vi ontem durante a votação em 1º turno do Plano Municipal de Educação, acabei chegando só na hora que já os oradores estavam falando no plenário, não consegui chegar antes por que precisava cuidar de umas questões pessoais. Para quem não sabe, além de militante feminista, do movimento negro e do PSOL também sou mãe de uma menina que está no 1º ano de uma Escola Municipal de Ensino Fundamental.

Ao chegar na Câmara de Vereadores era visível quem realmente investe dinheiro nesta disputa: os conservadores, todos pagos para lá estarem fazendo um coro pró violência. Além disso, enquanto o carro dos movimentos LGBT, juventude, feminista, negro e de educação nós víamos a diversidade, a pluralidade política, de identidade de gênero, orientação sexual e raça era algo que podíamos ver por toda parte. Do lado conservador apenas falavam pastores, padres, só no final uma vereadora falou, todas as outras intervenções foram de homens.

A primeira questão é que não apenas o debate sobre orientação sexual, identidade de gênero e gênero que foi limado do projeto. Ontem aprovaram junto uma série de coisas que entrega a educação infantil, principalmente as CEIs, nas mãos das igrejas ao ampliar o número de creches conveniadas além da retirada da parte que falava sobre repassar 30% do orçamento municipal para a educação. Destaco isso por que precisamos compreender que a retirada da questão de gênero e orientação sexual do PME vem em conjunto com um processo de desmonte cada vez mais profundo da educação pública em nossa cidade.

A segunda questão é que dos 55 vereadores, 44 votaram a matéria. 42 votaram de forma favorável ao PME com vistas a construir um substitutivo e 2 votaram contrários ao PME (Ricardo Young e Toninho Vespoli). Destaque para as falas hipócritas dos vereadores petistas que destacavam a importância do debate, mas votaram em conjunto com a direita machista, LGBTfóbica e racista o PME que não apenas rifa a questão de gênero, mas aprofunda o sucateamento da educação pública do nosso município.

Destaque para a postura arrogante de Paulo Fiorilo que ao votar com a direita começou a falar para nós que lá estávamos defendo todos os tipos de família, uma educação pública de qualidade e laica e o direito das crianças a viverem em ambientes que não perpetuem ciclos de violência (machista, LGBTfóbica e racistas) não tínhamos lido o PME como um todo. Tanto foi lido, quanto sabemos que ataca o direito de nossas crianças como um todo, entendeu chuchu?

Os argumentos da bancada conservadora eram de um naipe horroroso, como de costume, dentro de todas as bobagens que falavam ajudavam a ignorar que, por exemplo, a maioria das famílias brasileiras não são compostas por um homem, uma mulher e filhos. Na verdade, a maioria das famílias brasileiras são de mães pretas e solteiras, fora isso temos uma diversidade tão grande de composições familiares que a defesa feita pelos conservadores chega a ser uma piada.

Uma outra questão fundamental apontarmos é: a votação feita ontem ajuda a manter um ciclo de violência nas escolas que precisa ser rompido. Só lembrar de diversos casos de imagens privadas de meninas que vazam e elas são vítimas de chacotas, perseguição e afins na escola. Não vamos debater isso? Vamos efetivamente deixar nossas crianças e adolescentes sofrerem com violência psicológica até não aguentarem mais e se matarem? Belo cristianismo esse de vocês, viu? Que preferem ver as crianças sofrendo a realmente abrir um debate necessário para formar professores, equipe técnica e afins de CEIs, EMEIs e EMEFs.

Gostaria de dizer que a decisão ontem da bancada do PT e da bancada conservadora atua perversamente no boicote que deve ser o debate da sexualidade em um momento de retomada da epidemia de AIDS entre a juventude, limar este debate é fechar os olhos e lavar as mãos na questão de combate e conscientização dos adolescentes no que significa o HIV e a AIDS. Além disso essa é uma luta de todos nós, não apenas do movimento LGBT, pois assim como não debatemos a LGBTfobia nas escolas, também não debatemos a questão racial (e olha que isso é previsto na LDB e não é cumprido) e também não debatemos violência machista. Faz parte da formação das nossas crianças e da educação pública e onde se encontram a maioria da juventude negra de nossa cidade.

A defesa é a defesa de que as igrejas não lucrem mais com o processo de privatização terceirizada da educação pública, é a defesa de que nossos filhos, sobrinhos e primos não continuem expostos a um ciclo de violência cotidiana e de não sermos coniventes com violências que levam as crianças e adolescentes ao suicídio. É a defesa de direitos de todas as famílias brasileiras e da vida em sua plena diversidade.

Ontem 42 vereadores votaram contra as crianças, contra a educação pública e pela intolerância, foi isso que eles fizeram. Mas não deixaremos passar em brancas nuvens, até o dia 25 de agosto continuaremos a nos movimentar, apresentar o debate que envolve o PME em sua completude em todos os espaços da sociedade para demonstrar o quão hipócritas a maioria dos vereadores de SP são, pois para justificar dinheiro para as igrejas jogaram no lixo os direitos civis e a educação pública!

É POR TODAS AS FAMÍLIAS! CONTINUARÁ A SER POR TODAS AS FAMÍLIAS!

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Mulheres negras com HIV morrem 2 vezes mais que brancas

Em julho de 2014 a Unaids – braço da ONU que lida com a questão HIV/AIDS no mundo – lançou o The Gap Report, neste relatório é apontado um aumento de 11% de novos casos de infecção no Brasil entre 2005 e 2013, algo em torno de 42 mil pessoas. Quando falamos de mortes decorridas da infecção o dado apresentado pela Unaids chegava a quase 15 mil óbitos.

Aclamado internacionalmente por ter criado um programa de prevenção e tratamento considerado progressista e inclusivo, o Brasil vive um momento delicado no que se refere à prevenção de novos casos. Segundo o Boletim Epidemiológico em HIV/Aids de 2013 divulgado pelo Ministério da Saúde, entre 2003 e 2012 a incidência de casos de Aids no Norte brasileiro apresentou um aumento de 92,7%; no Nordeste, foi de 62,6%. Por outro lado, as regiões Sul e Sudeste, que concentram a maior parte dos casos diagnosticados, apresentaram um recuo de 0,3% e 18,6%, respectivamente. (HIV/Aids no Brasil: especialistas pedem políticas de prevenção mais específicas)

É importante lembrar que nos anos 80 se localizou a população mais exposta ao HIV, era o dito 5 h (Homossexuais, Hemofílicos, Haitianos, Heroinômanos (usuários de heroína injetável), Hookers – profissionais do sexo em inglês), o desconhecimento do que era o HIV e a AIDS gerou um processo de segregação e aprofundamento do racismo e homofobia perigoso no mundo.

logo_mulheresPois bem, o programa de DST/AIDS da Prefeitura de São Paulo tem apresentado dados alarmantes do aumento de detecção de HIV na cidade e nesta quinta-feira (6/8) apresentou em conjunto com a SMPIR (Secretaria Municipal da  Promoção da Igualdade Racial) dados referentes a detecção de HIV nas mulheres negras. Segundo o apresentado pelo programa de DST/AIDS, o grosso das novas detecções são de jovens  a partir dos 15 anos, porém o dado apresentado sobre as mulheres negras é muito preocupante.

O programa DST/AIDS constatou que o número de mulheres negras recentemente

Fonte: Programa DTS/AIDS de São Paulo

Fonte: Programa DTS/AIDS de São Paulo

detectadas com HIV é três vezes maior do que o das mulheres brancas. Ou seja, diferente das mulheres brancas que tem a sua maioria de detecções entre idosas, as mulheres negras estão contraindo o HIV em idade reprodutiva e isso revela profundamente a relação entre o racismo e o machismo não apenas em São Paulo, mas também no Brasil. Além de hoje serem mais atingidas pelo vírus HIV do que as mulheres brancas é importante apontar que estamos morrendo duas vezes mais que as brancas por conta da contaminação.

A situação de maior vulnerabilidade das mulheres negras, extensamente desenvolvida no “Dossiê Mulheres Negras retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil“, o fato de sermos a carne mais barata do mercado e termos uma ausência de garantias civis profundas respalda o dado apresentado neste mês pela DST/AIDS de São Paulo. Essa situação de maior vulnerabilidade social reflete também na manutenção de esteriótipos, o que vem diretamente às nossas cabeças quando pensamos em HIV/AIDS e mulheres negras?  Não seria estranho que a maioria das respostas falassem: profissionais do sexo. Não há como não refletir que a relação direta entre as duas coisas tem como base o machismo e o racismo.

Quando se fala em imagem da mulher negra, nunca se pensa em alguém que se pareça conosco e isso não ocorre só na televisão. Está no imaginário coletivo a associação de mulher com uma pessoa nórdica. Esse quadro exemplifica a vulnerabilidade da mulher negra na epidemia HIV/Aids. Outra consideração da cooperação entre racismo e sexismo é quadro inverso de privilégio produzido: os homens estão numa posição privilegiada. Esse privilégio também se dá em relação ao homem negro. Essa condição significa que desde o início do século XX cabem a eles certos níveis de voz ativa nas relações interpessoais com poder decisório que se aplica também no uso ou não da camisinha. (O racismo como fator de vulnerabilidade da população negra)

Fonte: Programa DST/AIDS de São Paulo

Fonte: Programa DST/AIDS de São Paulo

É fato que as mulheres negras são hiperssexualizadas, exotizadas e objetificadas. Ou seja, o lugar social no qual somos colocadas socialmente por causa do machismo e do racismo ajuda a consolidar um processo real de vulnerabilidade. A construção moral em torno do HIV dificulta, inclusive, a diagnosticação e o início do tratamento entre este setor social. O mais grave ainda é constatação do programa de DST/AIDS da prefeitura de São Paulo de que a faixa etária mais atingida entre as mulheres negras em idade reprodutiva, ou seja, entre 20 e 40 anos. E desta informação é preocupante, pois são mulheres jovens que muitas vezes descobrem ser soropositivas tardiamente e isso dificulta o tratamento e resulta em óbitos.

Infelizmente a AIDS tem voltado para a nossa agenda e é importante que o movimento negro compreenda que esse processo onde a detecção de HIV é maior entre nossas mulheres e jovens faz  parte do processo mais global de genocídio do povo negro. Encarar essa pauta de maneira séria quer dizer encarar de forma séria que o genocídio da população negra integra profundamente a questão da saúde sexual e reprodutiva e da orientação sexual entre os negros e não podemos fingir que este é um problema apenas do movimento LGBT, mas também do movimento negro, feminista e de juventude.

{+} Mulheres negras e não negras vivendo com HIV/AIDS no estado de São Paulo – um estudo sobre suas vulnerabilidades

{+} HIV e Ebola: Capítulos do racismo institucional no mundo

Atualizações:

10/08 – Inclusão de imagens, mais alguns dados e alteração de título.

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Técnicas de desempoderamento: um guia de resistência

O texto a seguir é da Christina Celeste Nielsen, militante do SAP, e foi traduzido pelo Rodrigo Cruz. Contribuições importantes para refletir as relações em movimentos sociais e organizações mistas.

 

MachismoTécnicas de desemponderamento podem florescer em todos os locais onde existem relações desiguais de poder, sejam elas baseadas em sexo, idade, gênero, raça, experiência ou qualquer outra variável que possa definir até que ponto você é considerado ok em relação às normas dominantes.

Técnicas de desemponderamento podem ser uma ferramenta muito eficiente para marginalizar pessoas ou grupos. Mas o uso de técnicas de desemponderamento nem sempre acontece de forma consciente. É sobre pessoas, comportamento, sinais, linguagem corporal e humor, questões altamente complexas e com diferentes possibilidades de interpretação.

Definir as técnicas de desemponderamento em sua totalidade pode ser uma tarefa árdua, mas a nível individual, podemos nos tornar mais conscientes sobre o que fazemos de nós mesmos. E, finalmente, começar a estabelecer nossos limites em relação ao comportamento dos outros.

Enquanto organização, também podemos fazer muito para reduzir a utilização de técnicas de desemponderamento em nossas fileiras e promover a igualdade em nossas atividades políticas. Isso significa somar experiências e obter um melhor aproveitamento de ideias e recursos entre os nossos quadros. Todos saem ganhando.

Técnicas de desemponderamento 

A seguir estão descritas algumas das técnicas de desemponderamento mais amplamente difundidas. Talvez você mulhernapoliticareconheça algumas dessas técnicas, seja porque você tem sido vítima, seja porque tem se utilizado de algumas delas.

1. Invisibilização

Quando ninguém se relaciona com você ou ignora as suas contribuições em um debate. Qual a vantagem de ter o direito de estar numa assembleia se ninguém te escuta e reage às suas intervenções?

2. Ridicularização e estereótipos

Marginalização através do “humor”. Um bom exemplo é o uso por (alguns) homens de piadas e estereótipos sobre mulheres. Também ocorre quando uma pessoa, em vez de se relacionar concretamente com você e com o que você diz, trata de relacionar a sua fala com a de outra pessoa, que a maioria na assembleia discorda ou acha ridícula.

3. Culpa: “Que merda que você fez isso / Que merda que você não fez isso”

Quando cada escolha que você faz é sistematicamente criticada. Por exemplo, quando os problemas estruturais são reduzidos a uma questão individual. Ou quando mães e pais são criticados por não comparecer às reuniões da organização, mas também enfrentam críticas por trazer seus filhos às reuniões.

4. Paternalismo

Quando alguém fala com você como se você fosse uma criança ou um ignorante. Por exemplo, quando as pessoas insistem que você não entendeu a pergunta, quando na verdade discordam da resposta e se negam a aceitar que você entendeu perfeitamente a questão.

5. Retenção de informações

Quando a produção e circulação de informações, bem como as decisões reais estão sendo tomadas fora das estruturas formais da organização.

Isso pode acontecer durante uma cerveja no bar à noite, após o término da reunião de instância. Isso também acontece quando você recebe repetidamente artigos e mensagens importantes no último minuto, apenas para que você não tenha a chance de se apropriar dos conteúdos antes do debate.

6. Resistência passiva

Quando as pessoas da direção dizem sim e amém a todas as críticas e demandas por mudança, mas simplesmente não colocam em prática nada daquilo que foi demandado.

7. Comportamento ameaçador / Ameaça de violência

Quando alguém levanta a voz ou fica muito perto de você ao falar. Mesmo que não haja necessariamente um contato físico, essa atitude pode significar que as consequências podem ser nada agradáveis se você “não se colocar no seu devido lugar”.

Técnicas de democratização

Aqui estão algumas ideias para lutar contra o uso de técnicas de desemponderamento, tanto em termos pessoais quanto no âmbito da organização.

Em termos pessoais:

1. Faça acordos com você mesmo

Se você nunca fala nas reuniões, você pode começar a fazer um acordo com você mesmo de que precisa dizer alguma coisa, pelo menos uma vez a cada reunião. Mais tarde, você pode aumentar o número de intervenções, de modo que você venha a intervir pelo menos uma vez a cada ponto de pauta. No final, fazer uma fala pode se tornar um hábito bastante animador. Em breve será necessário fazer um acordo com você mesmo para estabelecer o máximo de falas que devem ser feitas a cada ponto de pauta. Afinal, ninguém deve monopolizar o direito de fala.

2. Comente as contribuições das suas/seus camaradas

Contribua para que as reuniões sejam um espaço agradável. Relacione-se com o que os outros dizem, inclusive com o que é dito por companheiras e companheiros que não falam com tanta frequência. Você não necessariamente precisa concordar com tal contribuição, mas pode mostrar o seu respeito, respondendo às questões ou fazendo referência ao que foi dito.

3. Permita-se uma “cota de estupidez”

Todos nós temos medo de fazer papel de boba/bobo – e todos nós o fazemos, de vez em quando! Mas em vez de fazer sempre o que é seguro, permita-se uma “cota de estupidez”. Faça um acordo com você mesmo que admita a possibilidade de ser boba/bobo pelo menos três vezes durante uma reunião. Dessa forma, há espaço para 1) fazer uma pergunta que alguém já perguntou; 2) fazer uma intervenção na qual você simplesmente esquece o que pretendia dizer e 3) fazer uma piada daquelas que ninguém entende.

4. Faça discussões em fóruns abertos

Abuso de poder e manipulação não deve ser reduzido a uma questão pessoal. Se você sentir que você está sendo exposto a técnicas de desempoenderamento por parte de alguém, não hesite em revelar a identidade dessa pessoa. Faça as discussões de forma aberta e em fóruns públicos.

No âmbito da organização:

1. Direito à auto-organização

O direito à auto-organização dos grupos oprimidos é uma ferramenta importante na luta por mais igualdade dentro das organizações. Quando as mulheres, os jovens, as LGBT e outros grupos se reúnem e trocam experiências, fica claro que a opressão não é uma questão individual. Técnicas de desemponderamento (também) são problemas coletivos. E precisam de respostas coletivas.

2. Lista de inscrição

Estruturas democráticas devem promover a igualdade de regras e espaço para que todos possam se manifestar. O caos promove os indivíduos mais fortes. Nas reuniões, escolha um mediador e defina previamente as regras para o funcionamento do espaço. Algumas regras são básicas. Os inscritos de primeira viagem (aqueles que ainda não falaram) e os recém-chegados devem constar no topo da lista. As pessoas que estão falando pela primeira vez têm o direito de falar 5 minutos, enquanto os reinscritos se limitam a falar por 2 minutos.

3. Diferentes tipos de reuniões

As reuniões tradicionais começam com uma longa intervenção de um “expert”. Em geral, somente depois dessa exposição inicial as participantes podem perguntar e tecer comentários. Este tipo de reunião funciona bem para alguns propósitos, mas pode acabar beneficiando aqueles que estão acostumados a falar muito em espaços onde há muitas pessoas. Experimente outros formatos, como grupos de discussão menores e oficinas mais práticas.

4. Coletivização das tarefas

É importante que todas as pessoas tenham a chance de pegar tarefas que lhes desafiem e talvez até mesmo as deixem nervosas ou inseguras. Por exemplo, fazer apresentações orais em reuniões ou cursos, dar palestras em manifestações ou escrever artigos para publicações do partido. A organização deve assumir a responsabilidade coletiva para isso, estimulando processos de cooperação entre camaradas. Companheiras e companheiros mais experientes devem trabalhar em conjunto com as/os menos experientes para preparar a intervenção, discurso, artigo etc. Ambas as partes podem lucrar e aprender muito com este tipo de experiência!

5. Invista em atividades sociais

A área social é importante! Jogos podem ser um excelente entretenimento. Contudo, é importante encontrar diferentes atividades para evitar que uma mesma pessoa seja sempre posicionada como a mais inteligente, a mais engraçada e assim por diante.

6. Cumprir as regras quando se está sob pressão!

Quando a organização está em um período particularmente estressante, durante uma campanha eleitoral, por exemplo, é comum que se deixe para trás as rotinas e formas tradicionais de funcionamento. Consequentemente, há um grande risco de os militantes assumirem um tom retórico mais duro. Também pode acontecer de as decisões serem tomadas de forma mais rápida, sem maiores debates. Nessas situações, é particularmente importante estar ciente dos sinais de perigo. As regras presentes neste guia devem ser consideradas também nas situações de pressão. E quanto a você, estabeleça os seus limites. Avalie aberta e criticamente até que ponto a situação é saudável para você.

{+} Reflexões sobre a divisão sexual do trabalhos na militância cotidiana

{+} Violência contra mulher é também não garantir sua inclusão nos espaços políticos

{+} O feminismo como parte de um projeto político de totalidade

{+} Movimentos de esquerda: não devia ter um feminismo aqui?

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Laerte Bessa: racismo e machismo sustentam a redução da maioridade penal

Aborto X pena de morteNão demorou para que o racismo e o penalismo presente na defesa da redução da maioridade penal se encontrasse com o machismo nosso de cada dia. O deputado federal e relator da PL 171/93, Laerte Bessa (PR-DF), afirmou para o jornal londrino The Guardian que “um dia, chegaremos a um estágio em que será possível determinar se um bebê, ainda no útero, tem tendências à criminalidade, e se sim, a mãe não terá permissão para dar à luz”.

Recentemente, o parlamentar afirmou que o jornalista do Guardian haveria entendido o que ele falou de forma equivocada, inclusive afirmou sua posição contra a legalização do aborto. O jornalista Bruce Douglas publicou o áudio da entrevista para confirmar desmentindo a negação feita por Laerte Bessa.

A afirmação de Bessa feita em junho deste ano revela uma relação perversa e estrutural do racismo, punitivismo, higienismo social e machismo em nossa sociedade. Este processo acaba se tornando concreto quando percebemos seu resultado: o genocídio da população negra brasileira em geral.

A primeira coisa que é preciso localizar é que a afirmação feita por Laerte Bessa vai no cerne da questão do genocídio da população negra, higienismo social e da misoginia. Revela-se o quanto a mulher cis, principalmente as cis negras, é compreendida apenas como um objeto, um recipiente com o um fim muito bem designado: engravidar.

A posição de Laerte Bessa não é contraditória com a posição dele contra a legalização do aborto, simplesmente por que a perspectiva dele continua a ser a de negar a autonomia e decisão das mulheres. A afirmação do parlamentar revela o quanto a visão sobre as mulheres negras continua a de objetificação, pessoas que devem ter suas decisões monitoradas e chanceladas pelos homens. Nada muito diferente dos sinhozinhos que decidiam sobre a vida das escravas durante o Brasil império, ou até mesmo o processo de esterilização em massa de mulheres negras em nosso país nas décadas de 70 e 80.

Apresentação1Defender aborto compulsório em casos que se “identificar predisposição genética” para a criminalidade, só demonstra o quão profundo o pensamento genocida contra a população negra está organizado. O aborto compulsório e a defesa da redução da maioridade penal são duas faces do genocídio de nossa população no Brasil, negando a a situação social que há décadas é desfavorável aos negros, negando autonomia e direito de decisão às mulheres e legando a nossa juventude e mulheres um futuro de encarceramento em massa e revistas vexatórias.

A defesa da redução da maioridade penal, ou até mesmo a proposta de ampliação de internação prevista no ECA, apenas ajuda a reforçar esta visão caricatural representada hoje por Laerte Bessa. Uma visão profundamente racista e machista a qual localiza o nosso povo como aqueles que devem ser alvo de todo o tipo de controle compulsório e quem deve definir este controle são homens e brancos, pois são os que detém o controle do estado burguês.

A redução da maioridade, o impacto que isso tem em ampliação a revista vexatória caso for aprovada e a profunda relação com o genocídio da população negra – compreendendo que este genocídio é composto pela violência policial contra os nossos jovens, a defesa do aborto compulsório visando um “controle da criminalidade” e a defesa da criminalização do direito da mulher decidir sobre sua vida – demonstra muito bem o quanto a manutenção de privilégios raciais, orientação, gênero e identidade de gênero estão diretamente articuladas com a manutenção do status quo capitalista.

Sim, lutar contra a redução da maioridade penal não é apenas uma luta pelo direitos das crianças e adolescentes, ou uma luta antirracista. Esta luta é também uma luta feminista, pois atinge um conjunto de questões ligadas aos diretos das mulheres negras.

[+] Cabral e a legalização do aborto, ou para ele: Como coibibir a violência no Rio

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Seria a #partidA uma alternativa política viável?

A discussão política no Brasil ganhou novas dimensões, o mesmo podemos falar do debate feminista que aos poucos ganha fôlego no último período em nosso país. A demanda por espaços para debater a política, a situação das mulheres, negres, LGBTs e juventude em nosso país existe e não é algo que deva ser ignorado. Pontuo a existência desta necessidade para entrar em um debate importante para o movimento feminista, mas que é espinhoso e delicado: a criação da #partidA feminista.
composicao-camaraPara não dar uma de impressionista fui ler as premissas e o que defende a principal porta-voz da iniciativa e algumas luzes vermelhas de questionamento me surgiram e não aqueles questionamentos mais cereja do bolo, mas sim questionamentos estratégicos seja pra dissolução do patriarcado e mudança estrutural profunda da sociedade. Por este motivo resolvi sentar e escrever em cima daquilo que li no último período, saliento que respeito diversas companheiras que estão no esforço de construção da #partidA e por isso abro esse debate fraterno para refletirmos sobre quais as tarefas colocadas para o movimento feminista brasileiro neste momento.

As mulheres brasileiras, principalmente as mulheres negras e indígenas, ainda precisam avançar muito na ocupação dos espaços políticos, seja em espaços do movimento social ou na política institucional. Porém não podemos apresentar o debate político dos desafios do movimento feminista brasileiro esquecendo do que nos trouxe até aqui, seja os árduos debates realizados nos dois congressos de mulheres que aconteceram em São Paulo ainda durante o período militar e que ajudaram a organizar a intervenção do movimento no processo de luta pela reabertura política do Brasil. Tão pouco podemos deixar de lado a campanha “Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher” e a organização da bancada do batom – a época constituída pelas poucas deputadas constituintes eleitas e muitas delas feministas e organizadas em partidos da esquerda.

Cito principalmente estes dois marcos por acreditar que também reverberam um processo de organização e discussão do feminismo em direta relação a mudança estrutural da sociedade que devemos reivindicar. Tarefa esta que se mantém atual, a construção de posições contundentes a cerca de temas da conjuntura política que afetam a vida das mulheres brasileiras é fundamental. Sem isso não há como ampliar o processo de desconstrução do patriarcado no Brasil e ajudar a avançar a luta também do ponto de vista internacional.

Angela: feminista, antivista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

Angela: feminista, ativista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

É um mérito da #partidA apresentar o debate do método do fazer político, porém apenas o debate do método de fazer política, sem que haja a construção de uma formulação programática que pense as estruturas entrelaçadas do patriarcado, racismo e capitalismo em nosso país e como isso se imbrica em diversas esferas da sociedade: da política institucional a organização dos movimentos sociais.

Se faz necessária cada vez mais a criação de espaços para estimular o debate político, não apenas o debate de método. Pois é na política que avança o recrudescimento conservador em cima de nossas vidas, ou seja, é preciso para além de falar de uma ferramenta ético-política feminista é necessário localizar ela em nossa conjuntura de modo que ajude a intensificar e aprofundar o processo de disputa ideológica e de poder que está colocado. Ora, do que nos adianta debater o método da política se não se debate a terceirização e seu significado para as mulheres? Ou o fato do financiamento privado de campanha beneficiar principalmente os homens brancos cis e heteros? A redução da maioridade penal que tem direta relação com a questão de revista vexatória de milhares de mulheres negras e indígenas? Os ataques pelo país contra os planos municipais e estaduais de educação por conta da questão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual? O silêncio nestes temas apenas ajuda a uma coisa: a perpetuação de um status quo que necessita manter o patriarcado, o racismo e o capitalismo para se perpetuar e continuar o processo de exclusão social e opressão.

Para além da questão de um certo apagamento histórico que acabo vendo nos textos e entrevistas da Márcia Tiburi sobre a #partidA – isso me remete as piores tradições da história política mundial, pois ignorar a história não é base para qualquer projeto de radicalidade democrática – e a ausência de posicionamentos políticos sobre questões fundamentais para a vida das mulheres brasileiras que hoje estão em debate na sociedade, há também uma questão de estratégia e concepção partidária que é preciso se debater de forma fraterna, até por que normalmente a discussão estratégica e de concepção na política é um lugar de formulação masculina.

233_Constituinte_6070A que serve a ferramenta partidária (legalizada ou não)? Esse não é um debate novo de estratégia ou concepção, na verdade é bem antigo e nele me agarro na formulação apresentada pela Rosa Luxemburgo – uma das poucas mulheres dirigentes políticas do que viria a ser o Partido Comunista alemão no começo do século XX – de que a ferramenta partidária não pode ter um fim em si mesmo e também não olhar para reformas sociais como se apenas elas e o estar no governo pudessem resolver as contradições e conseguir modificar radicalmente a sociedade. Não podemos ser positivistas quando se trata da emancipação das mulheres, negres, LGBTs e trabalhadores em geral, o positivismo apenas ajuda na manutenção da estrutura social que aí está como se não houvesse disputa política e construção de forças sociais que fazem essa disputa.

O governar e a potência como estratégia não tem como nos servir nas tarefas gigantes impostas pela sociedade patriarcal, racista e capitalista que vivemos. Até por que o momento político atual de implementação do começo da austeridade em nosso país nos demonstram que o apenas governar sem romper com paradigmas que estruturam o patriarcado, racismo e capitalismo é equivocado.

Precisamos voltar a construir espaços de movimento que reúnam das feministas partidárias até as independentes, para formularmos um programa de intervenção mínima na política brasileira de um feminismo que olhe e dialogue profundamente com a luta antirracista e dos trabalhadores. Espaços que nos possibilitem conquistar mais espaços na sociedade e não nos releguem aos guetos onde falamos de nós pra nós mesmas e que, sobretudo, enfrentem de forma contundente o processo de fragmentação política que hoje enfrentamos no Brasil que só fortalece a burguesia e o conservadorismo. É na reconstrução contundente de um movimento feminista plural de organizações e posicionamentos políticos que precisamos investir, e não sair pelo caminho mais fácil negando o que foi construído historicamente até esse momento em um projeto que apenas tem uma capa bonita, mas com pouca sustância política e ideológica.

Outras posições no debate:

[+] A #partidA: uma aventura feminista na política nada tradicional

[+] partidA

 

 

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