Um tardio post sobre o Oscar 2015

O BiDê mudou de casa, além deste ser o primeiro post na casa nova (seja a virtual, seja a real) é também meu primeiro post em 2015. Estou bem feliz com estas duas mudanças. Mas agora vamos ao que interessa.

Desde o Oscar 2015 tenho pensado sobre liberalismo e feminismo. De como a apropriação dos movimentos, ideologias e afins por parte da sociedade capitalista é algo cotidiano, tornando fundamental a reafirmação de premissas ideológicas básicas.

O novo feminismo, para mim nada mais passa do que um feminismo liberal, onde o importante é ter mulheres em espaços de poder e pouco importa se elas oprimem e exploram outras mulheres para manter seu staff de glamour. O novo feminismo cheio de purpurina e que ocupa espaços da mídia burguesa com a máxima: cada uma pode ser o que quiser; não bebe mais e nada a mais no velho calvinismo ou do próprio luteranismo, nos quais cada um, se trabalhar e seguir seu destino, terá o sucesso devido. (O novo feminismo ou a boa e velha cooptação nossa de cada dia)

Algumas reflexões sobre a premiação do dia 22 de fevereiro poderiam nos ajudar a entender o que é palatável ou não para o status quo. A primeira delas é o fato de que “Selma” de todos os filmes ganhadores do Oscar foi um dos que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas menos ajudou a divulgar. Tanto que o filme foi indicado há apenas uma categoria do Oscar 2015, acredito ser sintomático.

Os EUA enfrentaram em 2014 uma série de mobilizações questionando a violência policial e o genocídio da juventude não-branca daquele país. E o discurso proferido por John Legend e Common aponta justamente isso: O fato de haver hoje mais negro encarcerados nos EUA do que na época da escravidão. O discurso ganhou força por conta da conjuntura que vivemos no mundo, não é apenas nos EUA que avança o processo de criminalização e genocídio da juventude negra. O racismo e a xenofobia tem avançado e recrudescido de forma internacional.

No dia 22 de fevereiro de 2015, durante a premiação do Oscar no Teatro Dolby, dois discursos importantes foram feitos. Um foi recebido com entusiasmo pela platéia ali presente, o outro recebido com um silêncio ensurdecedor. Patricia Arquette acertou ao reivindicar a equidade salarial entre os gêneros, porém o peso social e político do discurso de John Legend & Common em nada era palatável para uma platéia liberal-progressista como a do Oscar 2015. Quantas mulheres negras pelo mundo conseguem ter o privilégio de pisar no tapete vermelho do Oscar ou de qualquer outra premiação?

A localização social dos discursos, a construção da disputa de consciência junto a sociedade passa também por compreendermos a limitação de alguns discursos e essa limitação não significa que o debate seja inócuo ou desnecessário, apenas que se limita a um determinado setor da sociedade.

Temos um desafio muito grande, inclusive por que a direita tem ganhado espaço pelo mundo e espalha como rastro de pólvora o racismo, machismo, LGBTfobia, xenofobia e exploração de classe. O desafio é conseguir compreender qual setores sociais são os mais afetados pelas políticas de austeridade, segurança pública, etc. O desafio é conseguir disputar corações e mentes para que se compreenda quais privilégios as pessoas tem sobre as outras, mas também de apontar como o Estado burguês se beneficia profundamente com as nossas opressões e mazelas.

Não há como existir feminismo sem anti-racismo, sem LGBTfobia e sem socialismo. E nenhuma dessas coisas tem como existir sem o feminismo.

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Carta dos setoriais de negros e negras e de mulheres do PSOL sobre a manifestação de Jean Wyllys sobre o seriado “Sexo e as Negas”

A veiculação do programa “O sexo e as nega” tem alimentado diversos debates junto ao movimento de mulheres negras brasileiro desde o início de sua produção. O debate sobre a representação da mulher negra na grande mídia não é um debate novo para nós. A imagem historicamente construída e midiaticamente naturalizada, é baseada no papel social atribuído às mulheres negras, em que a subalternidade e precariedade de trabalho caminha ao lado da sensualidade erótica, sempre reforçando e naturalizando o papel de todas essas formas de exploração – de raça, gênero e classe.

E é durante o novembro negro, justamente na semana da Consciência Negra, que nos deparamos com a campanha #EuAmoSexoEAsNegaorganizada por alguns atores da TV Globo para defender o programa de autoria de Miguel Falabella. Uma das justificativas apresentadas para a defesa do programa seria o fato dxs negrxs terem muito pouco espaço de trabalho na teledramaturgia brasileira, que incorpora e reproduz um preceito liberal para o qual as mudanças podem ser fruto de paulatinas inserções e incorporações nos ambientes de poder, o que mudaria, por si só, um lugar socialmente e historicamente construído.

Ora, o que o próprio debate acerca do programa indica é que não.
Se de fato há essa inserção, ela tem se caracterizado por um reforço do estereotipo e do racismo institucional, erotizando e realimentando a subalternidade mascarada por uma “conquista”. A defesa do diretor do programa desvirtua o debate e reforça ainda mais essa visão individualista e meritocrática, visto que oculta a discussão de fundo e a coloca em seu lugar um falso reino de “oportunidades”.

É por compreender que a luta pela libertação das negras no Brasil passa também pela luta de libertação da mulher e contra a exploração do trabalho, que a Setorial de Negrxs e a Setorial de Mulheres do PSOL vem a público reafirmar a posição de que o programa #SexoEAsNega não é uma forma de “empoderar” e emancipar a imagem construída da mulher negra na teledramaturgia brasileira, na verdade apenas reproduz o imaginário coletivo de que nós somos o supra-sumo de um produto sexual a ser consumido, e trabalhadoras para as quais oportunidades são “concedidas”.

O povo negro e especialmente as mulheres negras nunca receberam concessões, mas conquistas. Conquistas de uma resistência histórica e brava, na qual raça, gênero e classe nunca estiveram dissociadas, pois todo o tipo de exploração sempre recaiu sobre nós.

Assim, aproveitamos para colocar que a defesa do programa feita pelo deputado Jean Wyllys não representa o debate desenvolvido por nossas companheiras feministas negras junto ao espaço do movimento negro e feminista. O parlamentar tem sido um aliado importante em diversas lutas de direitos humanos no árido cenário da Câmara de Deputados, porém neste episódio acabou contrariando a construção de um debate coletivo realizado não apenas por nossas companheiras feministas negras, mas também por todo um movimento social que desde o início vem travando uma disputa de consciência ferrenha sobre o que significa “O sexo e as nega” na construção da figura da mulher negra no imaginário coletivo do brasileiro.

Aproveitamos para deixar registrado que o debate entre todas as formas de opressão e identidade não devem ser compreendidos sem um recorte comum, o que fará deles um debate exclusivista e corporativo. É preciso avançar nessa interlocução de maneira urgente.

Sabemos o quão difícil é negrxs terem espaço na teledramaturgia brasileira, mas acreditamos que uma luta para ampliação e diversificação das personagens negras na produção brasileira seria muito mais frutífera do que a defesa de um formato que em sua origem já apresenta diversos vícios. É preciso lembrar que essa transformação da mulher negra no arauto da exotização brasileira é o que tem trazido o movimento de mulheres negras até hoje a questionar a nossa representação midática junto a sociedade brasileira, não somos um objeto que deva ser disponibilizado para o deleite dos homens, mas sim mulheres que exercem diversas funções desvalorizadas socialmente.

Por fim, nós da setorial de negros e negras do PSOL temos ciência de que a TV Globo utiliza uma concessão pública para veicular seus programas que reforçam o machismo, racismo, homolesbobitransfobia e tantas outras formas de opressão e exclusão social. Sabemos que não nascerá da benevolência de Miguel Falabella a modificação de como as mulheres negras são retratadas na teledramaturgia brasileira, mas sim de uma real democratização da comunicação em nosso país que é urgente!

É por conta dessas questões que o PSOL não ama “Sexo e as Negas”, o PSOL ama e defende toda forma de luta por emancipação das mulheres negras no país e não a manutenção de um programa que aprofunda a nossa objetificação.

O PSOL sabe que essa conquista passa pela luta das negras e de toda a sociedade contra o racismo, além da necessária e urgente democratização da comunicação no Brasil!

Setorial de negros e negras do PSOL.
Setorial de Mulheres do PSOL.

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novembro de 2014 em Belém, maio de 2006 em São Paulo

5 de novembro de 2014, entro no computador para ler as notícias da manhã. O coração fica apertado como há tempos não ficava. Durante aquela madrugada diversos bairros de Belém haviam ficado sitiados após a morte do Cabo Antônio Marcos da Silva Figueiredo, também conhecido como Pet. Pet estava afastado da ROTAM (Ronda Ostensiva Tática Metropolitana) por ser alvo de inquérito na Polícia Civil investigando o envolvimento dele e de outros policiais em um assassinato. Além deste inquérito, há outras denuncias recebidas pela ouvidoria do Sistema de Segurança Pública do Pará e pelo Comitê Estadual de Combate e Prevenção à Tortura sobre envolvimento de Pet com milícia organizada na cidade, porém, assim como o inquérito da Polícia Civil, as denúncias e os encaminhamentos relativos a elas seguem sigilosos.

ConvocatóriadarotamUma página da Rotam no Facebook, mas que não é um instrumento oficial de comunicação mantido pelo governo paraense, assim que a notícia de que o cabo Pet estava morto publicou uma mensagem dizendo que a “caça havia começado”. Não apenas esta página da Rotam afirmou que a caça havia começado pelas periferias paraenses como em alguns perfis de PMs afirmavam coisas semelhantes.

Na quarta mesmo a Segup (Secretaria Estadual de Segurança Pública) confirmou que 9 pessoas teriam morrido na Mangueirosa durante a madrugada, este número até a última sexta-feira subiu para 11. Porém, moradores afirmam que o número é maior, ainda há pessoas desaparecidas na cidade e não se tem notícia sobre entrada de feridos nos Prontos Socorros da cidade, mesmo que os óbitos informados depois de quarta tenham sido de pessoas que estavam internadas em PS da cidade. Na mesma página da Rotam quecontagemrotam informou o início da “caça” em retalhação por conta da execução do cabo Pet era possível ver uma postagem com a contabilização de quantas pessoas poderiam ter morrido durante a ação.

A narrativa contada pelas redes sociais, nas conversas ao telefone era algo muito comparável ao que ouvíamos em 2006 em São Paulo. Comércio fechando, escolas avisando que não dariam aula naquele dia, uma falta de informações oficiais grande e quando estas saiam o desencontro com informações coletadas na rua era brutal. Segundo H.L., morador da Terra Firme, havia uma diferença grande entre o pânico nos bairros periféricos e nos bairros centrais “Na TF o nosso pânico é de quem viveu e constantemente vive situações como essa, enquanto em bairros mais nobres o medo é que a violencia que nos assola chegue até eles”.

Acompanhando de longe, parecia que o dia não teria fim, olhando hoje parece que a semana ainda não terminou. “Os suspeitos [dos assassinatos ocorridos naquela madrugada eram sempre descritos como] dirigindo uma moto, encapuzados [seguidos] por um carro preto”, afirma Francisco Batista da Comissão de Justiça e Paz do Pará.

Fato é que a resposta no dia seguinte foi real. Durante a madrugada, nove pessoas foram assassinadas em bairros pobres paraenses. Testemunhas apontaram a presença de motoqueiros com capacetes e capuz como autores. Na página da Rotam no Facebook, não é de hoje que são feitas referências ao “motoqueiro fantasma” que entra em ação para executar criminosos. Um jovem de 17 anos e um cobrador de ônibus estavam entre os mortos na quarta. A busca do caçadores, ao que aparenta, foi aleatória e matou pessoas que estavam no lugar errado na hora errada.(MANSO, Bruno Paes. Esquadrão da Morte 2.0. e a epidemia de violência no Pará)

RossicleyDurante uma coletiva de imprensa realizada por na própria quarta-feira o presidente da Associação de Cabos e Praças da PM do Pará, sargento Rossicley Silva, apareceu dizendo que os fatos ocorridos eram por conta de uma guerra de facções em Belém e que não envolvia a PM. Porém, o sargento no mesmo espaço foi confrontado, pois havia sido um dos PMs que postaram mensagem afirmando que a PM daria resposta à morte do Cabo Figueiredo. Dois dias após o acontecido o sargento apagou a publicação, postandoRepórter70 outra dizendo que a posição dele havia sido mal-interpretada. Ao que parece desenha-se um processo de encontrar um bode expiatório para a #ChacinaEmBelém, digo isso pelo fato de que no Repórter70 – coluna tradicional de um dos jornais de maior circulação do estado – foi publicado uma nota apontando que Rossicley foi o grande incitador de pânico pelas redes sociais.

“Os policiais mesmos fazem questão de explicitar [que] “isso ainda não acabou”. Esses milicianos estão dizendo que após o enterro do policial haverá toque de recolher e que eles vão atrás de quem estiver devendo”, diz H.L.

Durante a tarde Eder Mauro, deputado federal eleito pelo PSD e delegado de polícia, publicou um vídeo dizendo que estava voltando para Belém para colocar ordem na casa e não deixaria “bandidos fazerem em Belém o que fazem no Rio de Janeiro”.

Ao final do dia a cidade ficou deserta. Relatos de moradores do Marco diziam que havia pelo menos 3 helicópteros sobrevoando a região com holofotes ligados apontados para as ruas do bairro, o mesmo relato foi feito por moradores da Terra Firme na sexta. Porém, a partir desse momento a comoção nacional sobre o que vinha acontecendo em Belém abaixou, a invisibilização que acompanha o norte cotidianamente voltou.

De sexta para cá mais não se divulgou mais nenhuma morte em decorrência do massacre da madrugada de terça para quarta. Mas ao ouvir moradores e gente próxima a moradores é possível constatar que ainda há pessoas desaparecidas desde aquele dia.

A desconfiança de se falar sobre o que ocorre em Belém publicamente é um fato, o medo que toma qualquer quebrada sudestina quando se depara com violência desse calibre é se fechar com medo dos algozes. Houve famílias que saíram da zona mais afetada para outros bairros para fugir de uma possível “Operação Pente Fino” na região.

Infelizmente este não será o primeiro ou último episódio da violência contra a periferia que veremos em Belém, ou em qualquer outra capital brasileira. A Mangueirosa é uma as capitais mais violentas do país, tendo aumentado o número de homicídios na região nos últimos 10 anos.

Dados da Ouvidoria de Segurança Pública do Pará mostram que, em 2013, foram identificados 135 homicídios cometidos por agentes de segurança pública, sendo 122 realizados por PMs, 12 por policiais civis e um por Bombeiro Militar. No mesmo período, os casos de lesão corporal chegaram a 118, e outras 13 pessoas denunciaram tortura. No entanto, a própria Ouvidoria acredita que este quantitativo é bem maior, haja vista que muitas denúncias nem chegam às delegacias.

[+] Trecho de texto anônimo falando sobre a Chacina em Belém

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Sobre aquelas que não são Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga

Suzane von Richthofen voltou para as manchetes dos sites de notícia mais uma vez. Agora pelo fato de ter casado com uma outra detenta da Penitenciária de Tremembé. O enredo todo da história poderia muito bem ser um episódio de Orange Is The New Black. Há algumas questões na forma como isso virou assunto nas redes sociais que me fazem refletir.

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A primeira delas é pelo fato de envolver pelo menos duas detentas envolvidas em crimes com repercussão nacional na grande mídia: Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga, a última era a antiga parceira da atual mulher de Suzane. Este primeiro fato para mim explica bastante o interesse da mídia em noticiar o casamento de Suzane com outra mulher, Suzane foi condenada por um crime que é lembrado até hoje e isso gera cliques, audiência, ajuda a movimentar o negócio comunicação.

Entre as mulheres com até um ano de cadeia, 80% declaram que, se pudessem escolher, só fariam amor com homens. O índice cai para 48% entre aquelas que estão há mais de quatro anos atrás das grades. A média fica em 58%. (O comportamento sexual das presidiárias)

Ora, em nenhuma matéria se levantou o fato das mulheres terem dificuldades de manter relacionamentos quando são encarceradas, diferente dos homens quando são encarcerados que recebem visitas de suas mulheres, amantes e namoradas. Esse é um primeiro dado importante, não me importa se Suzane vai casar com a ex- de Elize, mas me importa o por que normalmente quando mulheres são presas suas famílias desmoronam e quando são os homens não. Uma resposta possível seria o fato de que na sociedade a tarefa de organizar o lar e cuidar dos filhos é da mulher e não do homem, sendo assim ao serem presas o pilar familiar acaba não tendo substituição.

Reprodução originalmente publicada no G1 Pará

Reprodução originalmente publicada no G1 Pará

Acho que o fato poderia abrir a porteira para se debater diversas questões que rondam o sistema carcerário brasileiro, principalmente no que tange as mulheres, a primeira delas é a questão sobre homossexualidade e bissexualidade entre as detentas.

Na opinião de todos os sujeitos desta pesquisa, relações homossexuais na cadeia têm como base principal à carência, que algumas denominam “carência de cadeia”. Em situações de reclusão, uma mulher ao encontrar atenção amizade e carinho de uma colega na cadeia, entrega-se facilmente a uma situação de cumplicidade que acaba levando ao desejo sexual e a intimidade física. Uma situação normalmente não fica somente nas carícias preliminares ao ato. Esta entrega de mulheres é explicada por alguns sujeitos, pela falta de atenção que vivenciam na cadeia, por se sentirem desprezadas e, em muitos casos, sofrerem espancamentos nas ruas e em casa. (GIORDANI, Annecy e BUENO, Sônia. A prática da homossexualidade entre mulheres detentas e a vulnerabilidade as DST/AIDS)*

Posso estar enganada, mas talvez o fato da impossibilidade por algum tempo de ter relacionamentos heterossexuais reabra o viver uma sexualidade nas carceragens de forma diferente, mas nem tão diferente assim, até por que muitas vezes os relacionamentos reproduzem os relacionamentos heteronormativos e se mergulham em possessividade. Porém é um dado importante, por que a relação amorosa entre detentas é deixada no limbo, como se as mulheres presas fossem privadas também de seus desejos, carências e afetividades. Acredito que essa invisibilização seja o conjunto de gênero e a construção que a sociedade faz do que é estar de trás das grades.

Os cortes e hematomas são, em geral, justificados por quedas fictícias da cama ou de alguma escada. Condenada há cinco anos e quatro meses por assalto, T.R.M., 27 anos, já lançou mão do recurso para justificar um olho roxo. “O amor entre mulheres é mais possessivo”, explica. “O que lá fora seria uma simples cena de ciúme, aqui vira um show de violência.” (O comportamento sexual das presidiárias)

Infelizmente a notícia sobre o casamento de Suzane na Penitenciária de Tremembé não suscitou um debate mais geral sobre o que significa ser mulher e presidiaria no Brasil, lembrando que boa parte das encarceradas são condenadas por tráfico de drogas e não crimes contra a vida. Se perdeu um bom gancho para lembrar que boa parte das detentas brasileiras não tem acesso as mesmas coisas que as mulheres presas no Tremembé. Se a população carcerária em geral é esquecida pelos governos e sociedade, as presas mulheres são ainda mais invisibilizadas.

Apesar da notícia ser curiosa, e só é curiosa por envolver duas condenadas por crimes que tiveram acompanhamento cotidiano da grande mídia e “abalaram o Brasil”. As outras sem nome que servem apenas para estatística, que não tem direito a visita íntima, que sofrem com violência machista das namoradas dentro das penitenciárias, que acabam parindo algemadas e não sabem quanto tempo ficarão com os filhos. Ah! Estas não tem glamour, estas não são notícias, mesmo que a situação em que vivam seja degradante. Estas mulheres invisíveis são mais pária do que as outras e, por conta disso, não merecem nossa atenção.

Ledo engano nosso.

*Alterei o título da publicação por que não é utilizado mais o termo homossexualismo.

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A militarização da vida nas eleições presidenciais

Durante o debate político entre as candidaturas a presidência da república que aconteceu no SBT, exatamente no 2º bloco, deu para perceber bem o quanto a questão de segurança pública – que é fundamental para garantir a estruturação de qualquer projeto de sociedade seja ele qual for – de Dilma e Aécio compartilham profundamente da perspectiva de guerra às drogas e de militarização da vida para assegurar segurança pública. Jogam novamente com a lógica de que segurança é apenas polícia e não apresentam propostas de mudanças estruturais profundas na forma que nossa segurança pública se apresenta hoje.

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O primeiro ponto que impressiona é o fato de nenhum dos dois apontar que o alto índice de mortes junto a juventude no Brasil tem um recorte claro. Segundo o Mapa da Violência 2014 os homicídios de jovens no Brasil ultrapassam de 50% do número total de assassinatos ocorridos no país. Em pesquisa feita pelo IPEA em 2013 o instituto apontava que 70% dos assassinatos no Brasil eram de negros, ou seja, quando o debate sobre segurança pública apareceu ontem na peleja entre Aécio e Dilma também se escondeu que o Estado em que vivemos organiza sua segurança pública para manter os negros e indígenas no cabresto.

Se corrida presidencial trouxe para a ordem do dia o debate sobre a redução da maioridade penal, pouco se tem falado sobre a exposição dos jovens à violência e sobre as execuções praticadas contra adolescentes em São Paulo e no Brasil. O “mito do adolescente violento” transforma o jovem, negro e morador de periferia em uma espécie de bode expiatório da sociedade. Poucos estigmas no mundo são tão mortais. (MANSO, Bruno Paes. Pelo fim da pena de morte aos adolescentes. O caso São Remo)

A continuidade de uma política de segurança pública baseada no tolerância zero em nosso país ficou explicita durante o 2º bloco do debate presidencial no SBT. A omissão de Aécio e Dilma de que há um processo de genocídio da juventude negra e indígena, promovido prioritariamente por braços ligados aos governos federal e estaduais foi gritante.

E só pegar os documentos de programa de governo dos dois candidatos para ver como a estrutura de segurança pública que temos visto se recrudescer com UPPs, Forças Armadas prendendo gente em favelas, guerra às drogas e militarização da vida. No programa de governo da Dilma (não sei onde Aécio procurou, por que eu achei o  dito, mesmo levando algum tempo) ela aponta que a Força Nacional continuará a dar suporte a operações nos estados. Bom lembrar que tanto na Copa das Confederações e do Mundo a Força Nacional foi responsável em diversos estados por reprimir manifestações diversas, além de ser usada nas áreas de conflitos indígenas.

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No programa de Aécio sobre o tema ele é enfático ao ressaltar a necessidade de se continuar ocupações militares em áreas periféricas. Além do apoio claro a Proposta de Emenda Constitucional proposta pelo seu candidato a vice, Aloysio Nunes, que reduz a maioridade penal no país. Afrontando claramente o direito de crianças e adolescentes e não dando uma saída civil para a marginalização sofrida nas periferias pelas crianças e jovens negros e indígenas.

Ambos apontam para necessidade de guerra às drogas. Sem levar em conta em nenhum momento que esta política no mundo foi organizada para garantir uma guerra aos pobres.

A “guerra às drogas” tem servido de pretexto para criminalizar a pobreza e militarizar a vida, especialmente nas periferias e favelas, proporcionando lucros astronômicos para o mercado financeiro (que “lava” o dinheiro do tráfico) e para a indústria de armas. Hoje, existem mais de 140 mil presos por tráfico nas cadeias brasileiras. A maioria jovens, negros e pobres, réus primários presos sozinhos com pequenas quantidades de maconha. A “guerra às drogas” é na verdade uma guerra aos pobres! (CINCO, Renato. Basta de guerra aos pobres! Por outra política de drogas. Legalização da maconha, já!)

O processo já em curso no Brasil de privatização dos presídios também é contemplado nos programas de governo e já há anos vem sendo criticado pela Pastoral Carcerária. Lembrando que em todas as recomendações colocadas sempre se aponta que o fortalecimento de uma gestão pública dos presídios, com garantia dos direitos dos presos e de direitos humanos ajudaria na recuperação e reinserção na sociedade.

A manutenção de políticas militarizantes e punitivas em conjunto com a existência de um Congresso Nacional mais conservador e militarizado deveria acender uma luz vermelha a todos que defendem direitos humanos em geral para a dureza que viveremos após o dia 26 de outubro, independente de quem venha ganhar.

Iniciaremos mais uma etapa no Brasil onde resistência pouca será bobagem, o militarismo e o punitivismo vem ganhando espaço na política brasileira há anos e não poderemos titubear pra enfrentar o cenário recrudescido que se coloca para nós.

Estas questões não são minoritárias, a forma como se organiza a segurança pública de um país é o método para garantir a implementação de qualquer projeto de sociedade e uma segurança pública que no último período só vem crescendo em arsenal militar e em perspectiva punitiva não deve ser encarado por quem defende liberdade democráticas e direitos humanos como uma vitória.

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