Mulheres negras com HIV morrem 2 vezes mais que brancas

Em julho de 2014 a Unaids – braço da ONU que lida com a questão HIV/AIDS no mundo – lançou o The Gap Report, neste relatório é apontado um aumento de 11% de novos casos de infecção no Brasil entre 2005 e 2013, algo em torno de 42 mil pessoas. Quando falamos de mortes decorridas da infecção o dado apresentado pela Unaids chegava a quase 15 mil óbitos.

Aclamado internacionalmente por ter criado um programa de prevenção e tratamento considerado progressista e inclusivo, o Brasil vive um momento delicado no que se refere à prevenção de novos casos. Segundo o Boletim Epidemiológico em HIV/Aids de 2013 divulgado pelo Ministério da Saúde, entre 2003 e 2012 a incidência de casos de Aids no Norte brasileiro apresentou um aumento de 92,7%; no Nordeste, foi de 62,6%. Por outro lado, as regiões Sul e Sudeste, que concentram a maior parte dos casos diagnosticados, apresentaram um recuo de 0,3% e 18,6%, respectivamente. (HIV/Aids no Brasil: especialistas pedem políticas de prevenção mais específicas)

É importante lembrar que nos anos 80 se localizou a população mais exposta ao HIV, era o dito 5 h (Homossexuais, Hemofílicos, Haitianos, Heroinômanos (usuários de heroína injetável), Hookers – profissionais do sexo em inglês), o desconhecimento do que era o HIV e a AIDS gerou um processo de segregação e aprofundamento do racismo e homofobia perigoso no mundo.

logo_mulheresPois bem, o programa de DST/AIDS da Prefeitura de São Paulo tem apresentado dados alarmantes do aumento de detecção de HIV na cidade e nesta quinta-feira (6/8) apresentou em conjunto com a SMPIR (Secretaria Municipal da  Promoção da Igualdade Racial) dados referentes a detecção de HIV nas mulheres negras. Segundo o apresentado pelo programa de DST/AIDS, o grosso das novas detecções são de jovens  a partir dos 15 anos, porém o dado apresentado sobre as mulheres negras é muito preocupante.

O programa DST/AIDS constatou que o número de mulheres negras recentemente

Fonte: Programa DTS/AIDS de São Paulo

Fonte: Programa DTS/AIDS de São Paulo

detectadas com HIV é três vezes maior do que o das mulheres brancas. Ou seja, diferente das mulheres brancas que tem a sua maioria de detecções entre idosas, as mulheres negras estão contraindo o HIV em idade reprodutiva e isso revela profundamente a relação entre o racismo e o machismo não apenas em São Paulo, mas também no Brasil. Além de hoje serem mais atingidas pelo vírus HIV do que as mulheres brancas é importante apontar que estamos morrendo duas vezes mais que as brancas por conta da contaminação.

A situação de maior vulnerabilidade das mulheres negras, extensamente desenvolvida no “Dossiê Mulheres Negras retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil“, o fato de sermos a carne mais barata do mercado e termos uma ausência de garantias civis profundas respalda o dado apresentado neste mês pela DST/AIDS de São Paulo. Essa situação de maior vulnerabilidade social reflete também na manutenção de esteriótipos, o que vem diretamente às nossas cabeças quando pensamos em HIV/AIDS e mulheres negras?  Não seria estranho que a maioria das respostas falassem: profissionais do sexo. Não há como não refletir que a relação direta entre as duas coisas tem como base o machismo e o racismo.

Quando se fala em imagem da mulher negra, nunca se pensa em alguém que se pareça conosco e isso não ocorre só na televisão. Está no imaginário coletivo a associação de mulher com uma pessoa nórdica. Esse quadro exemplifica a vulnerabilidade da mulher negra na epidemia HIV/Aids. Outra consideração da cooperação entre racismo e sexismo é quadro inverso de privilégio produzido: os homens estão numa posição privilegiada. Esse privilégio também se dá em relação ao homem negro. Essa condição significa que desde o início do século XX cabem a eles certos níveis de voz ativa nas relações interpessoais com poder decisório que se aplica também no uso ou não da camisinha. (O racismo como fator de vulnerabilidade da população negra)

Fonte: Programa DST/AIDS de São Paulo

Fonte: Programa DST/AIDS de São Paulo

É fato que as mulheres negras são hiperssexualizadas, exotizadas e objetificadas. Ou seja, o lugar social no qual somos colocadas socialmente por causa do machismo e do racismo ajuda a consolidar um processo real de vulnerabilidade. A construção moral em torno do HIV dificulta, inclusive, a diagnosticação e o início do tratamento entre este setor social. O mais grave ainda é constatação do programa de DST/AIDS da prefeitura de São Paulo de que a faixa etária mais atingida entre as mulheres negras em idade reprodutiva, ou seja, entre 20 e 40 anos. E desta informação é preocupante, pois são mulheres jovens que muitas vezes descobrem ser soropositivas tardiamente e isso dificulta o tratamento e resulta em óbitos.

Infelizmente a AIDS tem voltado para a nossa agenda e é importante que o movimento negro compreenda que esse processo onde a detecção de HIV é maior entre nossas mulheres e jovens faz  parte do processo mais global de genocídio do povo negro. Encarar essa pauta de maneira séria quer dizer encarar de forma séria que o genocídio da população negra integra profundamente a questão da saúde sexual e reprodutiva e da orientação sexual entre os negros e não podemos fingir que este é um problema apenas do movimento LGBT, mas também do movimento negro, feminista e de juventude.

{+} Mulheres negras e não negras vivendo com HIV/AIDS no estado de São Paulo – um estudo sobre suas vulnerabilidades

{+} HIV e Ebola: Capítulos do racismo institucional no mundo

Atualizações:

10/08 – Inclusão de imagens, mais alguns dados e alteração de título.

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