Técnicas de desempoderamento: um guia de resistência

O texto a seguir é da Christina Celeste Nielsen, militante do SAP, e foi traduzido pelo Rodrigo Cruz. Contribuições importantes para refletir as relações em movimentos sociais e organizações mistas.

 

MachismoTécnicas de desemponderamento podem florescer em todos os locais onde existem relações desiguais de poder, sejam elas baseadas em sexo, idade, gênero, raça, experiência ou qualquer outra variável que possa definir até que ponto você é considerado ok em relação às normas dominantes.

Técnicas de desemponderamento podem ser uma ferramenta muito eficiente para marginalizar pessoas ou grupos. Mas o uso de técnicas de desemponderamento nem sempre acontece de forma consciente. É sobre pessoas, comportamento, sinais, linguagem corporal e humor, questões altamente complexas e com diferentes possibilidades de interpretação.

Definir as técnicas de desemponderamento em sua totalidade pode ser uma tarefa árdua, mas a nível individual, podemos nos tornar mais conscientes sobre o que fazemos de nós mesmos. E, finalmente, começar a estabelecer nossos limites em relação ao comportamento dos outros.

Enquanto organização, também podemos fazer muito para reduzir a utilização de técnicas de desemponderamento em nossas fileiras e promover a igualdade em nossas atividades políticas. Isso significa somar experiências e obter um melhor aproveitamento de ideias e recursos entre os nossos quadros. Todos saem ganhando.

Técnicas de desemponderamento 

A seguir estão descritas algumas das técnicas de desemponderamento mais amplamente difundidas. Talvez você mulhernapoliticareconheça algumas dessas técnicas, seja porque você tem sido vítima, seja porque tem se utilizado de algumas delas.

1. Invisibilização

Quando ninguém se relaciona com você ou ignora as suas contribuições em um debate. Qual a vantagem de ter o direito de estar numa assembleia se ninguém te escuta e reage às suas intervenções?

2. Ridicularização e estereótipos

Marginalização através do “humor”. Um bom exemplo é o uso por (alguns) homens de piadas e estereótipos sobre mulheres. Também ocorre quando uma pessoa, em vez de se relacionar concretamente com você e com o que você diz, trata de relacionar a sua fala com a de outra pessoa, que a maioria na assembleia discorda ou acha ridícula.

3. Culpa: “Que merda que você fez isso / Que merda que você não fez isso”

Quando cada escolha que você faz é sistematicamente criticada. Por exemplo, quando os problemas estruturais são reduzidos a uma questão individual. Ou quando mães e pais são criticados por não comparecer às reuniões da organização, mas também enfrentam críticas por trazer seus filhos às reuniões.

4. Paternalismo

Quando alguém fala com você como se você fosse uma criança ou um ignorante. Por exemplo, quando as pessoas insistem que você não entendeu a pergunta, quando na verdade discordam da resposta e se negam a aceitar que você entendeu perfeitamente a questão.

5. Retenção de informações

Quando a produção e circulação de informações, bem como as decisões reais estão sendo tomadas fora das estruturas formais da organização.

Isso pode acontecer durante uma cerveja no bar à noite, após o término da reunião de instância. Isso também acontece quando você recebe repetidamente artigos e mensagens importantes no último minuto, apenas para que você não tenha a chance de se apropriar dos conteúdos antes do debate.

6. Resistência passiva

Quando as pessoas da direção dizem sim e amém a todas as críticas e demandas por mudança, mas simplesmente não colocam em prática nada daquilo que foi demandado.

7. Comportamento ameaçador / Ameaça de violência

Quando alguém levanta a voz ou fica muito perto de você ao falar. Mesmo que não haja necessariamente um contato físico, essa atitude pode significar que as consequências podem ser nada agradáveis se você “não se colocar no seu devido lugar”.

Técnicas de democratização

Aqui estão algumas ideias para lutar contra o uso de técnicas de desemponderamento, tanto em termos pessoais quanto no âmbito da organização.

Em termos pessoais:

1. Faça acordos com você mesmo

Se você nunca fala nas reuniões, você pode começar a fazer um acordo com você mesmo de que precisa dizer alguma coisa, pelo menos uma vez a cada reunião. Mais tarde, você pode aumentar o número de intervenções, de modo que você venha a intervir pelo menos uma vez a cada ponto de pauta. No final, fazer uma fala pode se tornar um hábito bastante animador. Em breve será necessário fazer um acordo com você mesmo para estabelecer o máximo de falas que devem ser feitas a cada ponto de pauta. Afinal, ninguém deve monopolizar o direito de fala.

2. Comente as contribuições das suas/seus camaradas

Contribua para que as reuniões sejam um espaço agradável. Relacione-se com o que os outros dizem, inclusive com o que é dito por companheiras e companheiros que não falam com tanta frequência. Você não necessariamente precisa concordar com tal contribuição, mas pode mostrar o seu respeito, respondendo às questões ou fazendo referência ao que foi dito.

3. Permita-se uma “cota de estupidez”

Todos nós temos medo de fazer papel de boba/bobo – e todos nós o fazemos, de vez em quando! Mas em vez de fazer sempre o que é seguro, permita-se uma “cota de estupidez”. Faça um acordo com você mesmo que admita a possibilidade de ser boba/bobo pelo menos três vezes durante uma reunião. Dessa forma, há espaço para 1) fazer uma pergunta que alguém já perguntou; 2) fazer uma intervenção na qual você simplesmente esquece o que pretendia dizer e 3) fazer uma piada daquelas que ninguém entende.

4. Faça discussões em fóruns abertos

Abuso de poder e manipulação não deve ser reduzido a uma questão pessoal. Se você sentir que você está sendo exposto a técnicas de desempoenderamento por parte de alguém, não hesite em revelar a identidade dessa pessoa. Faça as discussões de forma aberta e em fóruns públicos.

No âmbito da organização:

1. Direito à auto-organização

O direito à auto-organização dos grupos oprimidos é uma ferramenta importante na luta por mais igualdade dentro das organizações. Quando as mulheres, os jovens, as LGBT e outros grupos se reúnem e trocam experiências, fica claro que a opressão não é uma questão individual. Técnicas de desemponderamento (também) são problemas coletivos. E precisam de respostas coletivas.

2. Lista de inscrição

Estruturas democráticas devem promover a igualdade de regras e espaço para que todos possam se manifestar. O caos promove os indivíduos mais fortes. Nas reuniões, escolha um mediador e defina previamente as regras para o funcionamento do espaço. Algumas regras são básicas. Os inscritos de primeira viagem (aqueles que ainda não falaram) e os recém-chegados devem constar no topo da lista. As pessoas que estão falando pela primeira vez têm o direito de falar 5 minutos, enquanto os reinscritos se limitam a falar por 2 minutos.

3. Diferentes tipos de reuniões

As reuniões tradicionais começam com uma longa intervenção de um “expert”. Em geral, somente depois dessa exposição inicial as participantes podem perguntar e tecer comentários. Este tipo de reunião funciona bem para alguns propósitos, mas pode acabar beneficiando aqueles que estão acostumados a falar muito em espaços onde há muitas pessoas. Experimente outros formatos, como grupos de discussão menores e oficinas mais práticas.

4. Coletivização das tarefas

É importante que todas as pessoas tenham a chance de pegar tarefas que lhes desafiem e talvez até mesmo as deixem nervosas ou inseguras. Por exemplo, fazer apresentações orais em reuniões ou cursos, dar palestras em manifestações ou escrever artigos para publicações do partido. A organização deve assumir a responsabilidade coletiva para isso, estimulando processos de cooperação entre camaradas. Companheiras e companheiros mais experientes devem trabalhar em conjunto com as/os menos experientes para preparar a intervenção, discurso, artigo etc. Ambas as partes podem lucrar e aprender muito com este tipo de experiência!

5. Invista em atividades sociais

A área social é importante! Jogos podem ser um excelente entretenimento. Contudo, é importante encontrar diferentes atividades para evitar que uma mesma pessoa seja sempre posicionada como a mais inteligente, a mais engraçada e assim por diante.

6. Cumprir as regras quando se está sob pressão!

Quando a organização está em um período particularmente estressante, durante uma campanha eleitoral, por exemplo, é comum que se deixe para trás as rotinas e formas tradicionais de funcionamento. Consequentemente, há um grande risco de os militantes assumirem um tom retórico mais duro. Também pode acontecer de as decisões serem tomadas de forma mais rápida, sem maiores debates. Nessas situações, é particularmente importante estar ciente dos sinais de perigo. As regras presentes neste guia devem ser consideradas também nas situações de pressão. E quanto a você, estabeleça os seus limites. Avalie aberta e criticamente até que ponto a situação é saudável para você.

{+} Reflexões sobre a divisão sexual do trabalhos na militância cotidiana

{+} Violência contra mulher é também não garantir sua inclusão nos espaços políticos

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{+} Movimentos de esquerda: não devia ter um feminismo aqui?

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Laerte Bessa: racismo e machismo sustentam a redução da maioridade penal

Aborto X pena de morteNão demorou para que o racismo e o penalismo presente na defesa da redução da maioridade penal se encontrasse com o machismo nosso de cada dia. O deputado federal e relator da PL 171/93, Laerte Bessa (PR-DF), afirmou para o jornal londrino The Guardian que “um dia, chegaremos a um estágio em que será possível determinar se um bebê, ainda no útero, tem tendências à criminalidade, e se sim, a mãe não terá permissão para dar à luz”.

Recentemente, o parlamentar afirmou que o jornalista do Guardian haveria entendido o que ele falou de forma equivocada, inclusive afirmou sua posição contra a legalização do aborto. O jornalista Bruce Douglas publicou o áudio da entrevista para confirmar desmentindo a negação feita por Laerte Bessa.

A afirmação de Bessa feita em junho deste ano revela uma relação perversa e estrutural do racismo, punitivismo, higienismo social e machismo em nossa sociedade. Este processo acaba se tornando concreto quando percebemos seu resultado: o genocídio da população negra brasileira em geral.

A primeira coisa que é preciso localizar é que a afirmação feita por Laerte Bessa vai no cerne da questão do genocídio da população negra, higienismo social e da misoginia. Revela-se o quanto a mulher cis, principalmente as cis negras, é compreendida apenas como um objeto, um recipiente com o um fim muito bem designado: engravidar.

A posição de Laerte Bessa não é contraditória com a posição dele contra a legalização do aborto, simplesmente por que a perspectiva dele continua a ser a de negar a autonomia e decisão das mulheres. A afirmação do parlamentar revela o quanto a visão sobre as mulheres negras continua a de objetificação, pessoas que devem ter suas decisões monitoradas e chanceladas pelos homens. Nada muito diferente dos sinhozinhos que decidiam sobre a vida das escravas durante o Brasil império, ou até mesmo o processo de esterilização em massa de mulheres negras em nosso país nas décadas de 70 e 80.

Apresentação1Defender aborto compulsório em casos que se “identificar predisposição genética” para a criminalidade, só demonstra o quão profundo o pensamento genocida contra a população negra está organizado. O aborto compulsório e a defesa da redução da maioridade penal são duas faces do genocídio de nossa população no Brasil, negando a a situação social que há décadas é desfavorável aos negros, negando autonomia e direito de decisão às mulheres e legando a nossa juventude e mulheres um futuro de encarceramento em massa e revistas vexatórias.

A defesa da redução da maioridade penal, ou até mesmo a proposta de ampliação de internação prevista no ECA, apenas ajuda a reforçar esta visão caricatural representada hoje por Laerte Bessa. Uma visão profundamente racista e machista a qual localiza o nosso povo como aqueles que devem ser alvo de todo o tipo de controle compulsório e quem deve definir este controle são homens e brancos, pois são os que detém o controle do estado burguês.

A redução da maioridade, o impacto que isso tem em ampliação a revista vexatória caso for aprovada e a profunda relação com o genocídio da população negra – compreendendo que este genocídio é composto pela violência policial contra os nossos jovens, a defesa do aborto compulsório visando um “controle da criminalidade” e a defesa da criminalização do direito da mulher decidir sobre sua vida – demonstra muito bem o quanto a manutenção de privilégios raciais, orientação, gênero e identidade de gênero estão diretamente articuladas com a manutenção do status quo capitalista.

Sim, lutar contra a redução da maioridade penal não é apenas uma luta pelo direitos das crianças e adolescentes, ou uma luta antirracista. Esta luta é também uma luta feminista, pois atinge um conjunto de questões ligadas aos diretos das mulheres negras.

[+] Cabral e a legalização do aborto, ou para ele: Como coibibir a violência no Rio

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Seria a #partidA uma alternativa política viável?

A discussão política no Brasil ganhou novas dimensões, o mesmo podemos falar do debate feminista que aos poucos ganha fôlego no último período em nosso país. A demanda por espaços para debater a política, a situação das mulheres, negres, LGBTs e juventude em nosso país existe e não é algo que deva ser ignorado. Pontuo a existência desta necessidade para entrar em um debate importante para o movimento feminista, mas que é espinhoso e delicado: a criação da #partidA feminista.
composicao-camaraPara não dar uma de impressionista fui ler as premissas e o que defende a principal porta-voz da iniciativa e algumas luzes vermelhas de questionamento me surgiram e não aqueles questionamentos mais cereja do bolo, mas sim questionamentos estratégicos seja pra dissolução do patriarcado e mudança estrutural profunda da sociedade. Por este motivo resolvi sentar e escrever em cima daquilo que li no último período, saliento que respeito diversas companheiras que estão no esforço de construção da #partidA e por isso abro esse debate fraterno para refletirmos sobre quais as tarefas colocadas para o movimento feminista brasileiro neste momento.

As mulheres brasileiras, principalmente as mulheres negras e indígenas, ainda precisam avançar muito na ocupação dos espaços políticos, seja em espaços do movimento social ou na política institucional. Porém não podemos apresentar o debate político dos desafios do movimento feminista brasileiro esquecendo do que nos trouxe até aqui, seja os árduos debates realizados nos dois congressos de mulheres que aconteceram em São Paulo ainda durante o período militar e que ajudaram a organizar a intervenção do movimento no processo de luta pela reabertura política do Brasil. Tão pouco podemos deixar de lado a campanha “Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher” e a organização da bancada do batom – a época constituída pelas poucas deputadas constituintes eleitas e muitas delas feministas e organizadas em partidos da esquerda.

Cito principalmente estes dois marcos por acreditar que também reverberam um processo de organização e discussão do feminismo em direta relação a mudança estrutural da sociedade que devemos reivindicar. Tarefa esta que se mantém atual, a construção de posições contundentes a cerca de temas da conjuntura política que afetam a vida das mulheres brasileiras é fundamental. Sem isso não há como ampliar o processo de desconstrução do patriarcado no Brasil e ajudar a avançar a luta também do ponto de vista internacional.

Angela: feminista, antivista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

Angela: feminista, ativista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

É um mérito da #partidA apresentar o debate do método do fazer político, porém apenas o debate do método de fazer política, sem que haja a construção de uma formulação programática que pense as estruturas entrelaçadas do patriarcado, racismo e capitalismo em nosso país e como isso se imbrica em diversas esferas da sociedade: da política institucional a organização dos movimentos sociais.

Se faz necessária cada vez mais a criação de espaços para estimular o debate político, não apenas o debate de método. Pois é na política que avança o recrudescimento conservador em cima de nossas vidas, ou seja, é preciso para além de falar de uma ferramenta ético-política feminista é necessário localizar ela em nossa conjuntura de modo que ajude a intensificar e aprofundar o processo de disputa ideológica e de poder que está colocado. Ora, do que nos adianta debater o método da política se não se debate a terceirização e seu significado para as mulheres? Ou o fato do financiamento privado de campanha beneficiar principalmente os homens brancos cis e heteros? A redução da maioridade penal que tem direta relação com a questão de revista vexatória de milhares de mulheres negras e indígenas? Os ataques pelo país contra os planos municipais e estaduais de educação por conta da questão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual? O silêncio nestes temas apenas ajuda a uma coisa: a perpetuação de um status quo que necessita manter o patriarcado, o racismo e o capitalismo para se perpetuar e continuar o processo de exclusão social e opressão.

Para além da questão de um certo apagamento histórico que acabo vendo nos textos e entrevistas da Márcia Tiburi sobre a #partidA – isso me remete as piores tradições da história política mundial, pois ignorar a história não é base para qualquer projeto de radicalidade democrática – e a ausência de posicionamentos políticos sobre questões fundamentais para a vida das mulheres brasileiras que hoje estão em debate na sociedade, há também uma questão de estratégia e concepção partidária que é preciso se debater de forma fraterna, até por que normalmente a discussão estratégica e de concepção na política é um lugar de formulação masculina.

233_Constituinte_6070A que serve a ferramenta partidária (legalizada ou não)? Esse não é um debate novo de estratégia ou concepção, na verdade é bem antigo e nele me agarro na formulação apresentada pela Rosa Luxemburgo – uma das poucas mulheres dirigentes políticas do que viria a ser o Partido Comunista alemão no começo do século XX – de que a ferramenta partidária não pode ter um fim em si mesmo e também não olhar para reformas sociais como se apenas elas e o estar no governo pudessem resolver as contradições e conseguir modificar radicalmente a sociedade. Não podemos ser positivistas quando se trata da emancipação das mulheres, negres, LGBTs e trabalhadores em geral, o positivismo apenas ajuda na manutenção da estrutura social que aí está como se não houvesse disputa política e construção de forças sociais que fazem essa disputa.

O governar e a potência como estratégia não tem como nos servir nas tarefas gigantes impostas pela sociedade patriarcal, racista e capitalista que vivemos. Até por que o momento político atual de implementação do começo da austeridade em nosso país nos demonstram que o apenas governar sem romper com paradigmas que estruturam o patriarcado, racismo e capitalismo é equivocado.

Precisamos voltar a construir espaços de movimento que reúnam das feministas partidárias até as independentes, para formularmos um programa de intervenção mínima na política brasileira de um feminismo que olhe e dialogue profundamente com a luta antirracista e dos trabalhadores. Espaços que nos possibilitem conquistar mais espaços na sociedade e não nos releguem aos guetos onde falamos de nós pra nós mesmas e que, sobretudo, enfrentem de forma contundente o processo de fragmentação política que hoje enfrentamos no Brasil que só fortalece a burguesia e o conservadorismo. É na reconstrução contundente de um movimento feminista plural de organizações e posicionamentos políticos que precisamos investir, e não sair pelo caminho mais fácil negando o que foi construído historicamente até esse momento em um projeto que apenas tem uma capa bonita, mas com pouca sustância política e ideológica.

Outras posições no debate:

[+] A #partidA: uma aventura feminista na política nada tradicional

[+] partidA

 

 

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Reserva de vagas na Câmara dos Deputados é vitória, mas 10% é escárnio

Machismo

Atualização 18/6: A emenda acabou por não ser aprovada, porém isso não retira o fato de que Eduardo Cunha operou para que a luta das mulheres por mais espaço na política fosse dinamitada e a Bancada Feminina abaixou a cabeça quando apresentou a proposta de 10%.

A luta para ampliar o espaço político das mulheres não é recente, ao longo da história a dificuldade das mulheres em ocupar espaços políticos é notória. Tal dificuldade se reflete em diversas formas de ação política que o movimento de mulheres adotou para garantir o seu espaço na esfera pública de debate. Fosse com a criação de sindicatos femininos durante a revolução industrial para que nossas demandas trabalhistas fossem apresentadas ao invés de descartadas pelas direções dos sindicatos masculinos, fosse a garantia do direito ao voto e participação política de forma mais universal possível.

A conquista e a garantia de nossos direitos políticos ao longo dos anos é fatiada de acordo com o interesse patriarcal, racista e capitalista. A aprovação ontem de uma proposta recuada da necessária reserva de vagas na Câmara dos Deputados é uma boa expressão do quanto nossos direitos são garantidos nas migalhas, com uma dificuldade de construção de articulação com a complexidade do que é ser 52% da população brasileira.

A extensão do direito a todas as mulheres se deu dois anos depois, em 1934, porém seu exercício manteve-se facultativo até 1946. Aliás, quando dizemos “todas”, queremos dizer todas dentre a reduzida parcela letrada da população. Analfabetas e analfabetos somente conquistaram o direito ao voto em 1985 através de emenda constitucional, posteriormente assegurado pela constituição de 1988. (Entre o direito ao voto e a conquista do espaço público)

A votação realizada ontem que institui a reserva de vagas para parlamentares femininas na Câmara dos Deputados é uma demanda antiga do movimento feminista para o aumento da participação política das mulheres. A questão é que mais uma vez nossa vitória vem por migalhas. Em 2014 conquistamos na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal a vitória de ter 50% das vagas de parlamentares da Câmara dos Deputados para mulheres. A condição de disputa eleitoral entre mulheres e homens, negres e branques, heteros e homos, cis e trans são substancialmente diferentes, principalmente por conta da construção social que marginaliza todos aqueles que não se adequa ao padrão do macho branco hetero e cis que é necessário para ocupar os espaços de decisão política na sociedade.

mulheres-politicaA diferença de condições de disputa entre os setores marginalizados e setores que permanecem nos espaços de decisão política por décadas são abissais. Mulheres e negros tem menor acesso a financiamento na forma em que foi mantida pela Câmara dos Deputados na última semana, e esse fato é apontado por dados da Justiça Eleitoral com base no último pleito enfrentado em nosso país.

Apesar de termos aprovado um mecanismo que avança reconhecendo as diferenças entre mulheres e homens na disputa política, ao mesmo tempo ajuda a permanecer tudo como está. A aprovação de que a reserva de vagas para parlamentares femininos na próxima eleição seja de apenas 10%, ou seja, nenhum aumento real do que existe hoje. A realidade é que a Bancada Feminina recuou da posição que havia apresentado a Eduardo Cunha Underwood.

Somos mais de 52% da população, atualmente 10% da Câmara Federal e 17% do Senado Federal e consideramos que não haverá uma verdadeira reforma política sem a reserva de 30% das vagas nos Parlamentos para as mulheres. (Documento da Bancada Feminina do Congresso Nacional apresentado a Eduardo Cunha)

A imposição de Eduardo Cunha sobre a matéria e o imenso recuo da Bancada Feminina escarnece toda nossa trajetória de luta para ocupar os espaços da política, seja a articulação da Bancada do Batom e da campanha Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher até a conquista da cota de 30% nas legendas partidárias e a garantia da paridade de gênero em diversas organizações políticas e todo o debate que acumulamos sobre participação política das mulheres em Seminário realizado em 2011 no Senado Federal.

composicao-camara

A votação de um percentual que apenas mantém as coisas como elas estão na Câmara dos Deputados, sem ao menos debater também a representação feminina em outras casas legislativas, referenda o quanto a contra-reforma política apresentada por Eduardo Cunha não pretende modificar nada na política brasileira, é apenas uma maneira simpática de dizer que as coisas continuarão como devem ser: Com homens, ricos, brancos, heterossexuais e cisgêneros loteando e negociando nossos direitos como bem entendem.

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Haitianos e dominicanos: A nefasta face da xenofobia e racismo na América Latina

Infográfico do NYT

Infográfico do NYT

Impasse entre a República Dominicana e o Haiti não é algo novo na história da América Latina. Em 1937, o ditador dominicano Rafael Leonidas Trujillo Molina deu ordem para suas tropas matarem todos os haitianos que viviam na República Dominicana, o massacre matou no mínimo 12 mil haitianos radicados na República Dominicana. Porém, a xenofobia e o racismo contra os haitianos na República Dominicana tem voltado com força no último período.

Entre 02 de outubro e 08 de outubro, centenas de soldados dominicanos fizeram varredura de uma vasta região, e, com a ajuda de alcaides pedáneos (autoridades políticas submunicipais) e alguns reservas civis, arredondado para cima 15 mil haitianos foram abatidos com facão. Os mortos nesta operação – ainda frequentemente chamada de El Corte (o corte) pelos dominicanos e de kout kouto-a (o esfaqueamento) pelos haitianos – eram em sua maioria pequenos agricultores, muitos dos quais tinham nascido na República Dominicana (e, portanto, eram cidadãos dominicanos de acordo com a constituição do país) e alguns cujas famílias viviam na República Dominicana por gerações. Os haitianos foram mortos mesmo quando tentavam fugir para o Haiti atravessando o rio que divide os dois país, por conta disso o rio é conhecido como Massacre River. Depois dos primeiros dias do abate, o posto de controle oficial e ponte entre o Haiti ea República Dominicana foram fechados, impedindo a fuga dos haitianos. Nas semanas seguintes, os sacerdotes locais e funcionários no Haiti registraram testemunhos de refugiados e compilaram uma lista que, finalmente, enumerou 12.168 vítimas. Posteriormente, durante o primeiro semestre de 1938, mais milhares de haitianos foram deportados à força e centenas mortos na região de fronteira do sul. (A World Destroyed, A Nation Imposed: The 1937 Haitian Massacre in the Dominican Republic)

Essa semana foi divulgado vídeo em que uma mulher haitiana é atirada no chão e um outro rapaz haitiano tem seus dreads cortados. As cenas são violentas e demonstram o quanto a lembrança do “Massacre de 1937” é muito presente no imaginário de dominicanos e descentes de haitianos na República Dominicana, um dado que salta os olhos para quem está acostumado a pensar a ação de grupos nazifascistas (majoritariamente caucasianos) no Brasil e na Europa que oprimem, violentam e matam negres, nordestines, nortistas, árabes e afins é o fato dos dos agressores que aparecem no vídeo nem de longe serem brancos. Inclusive, 11% da população dominicana é considerada negra e a maioria destas pessoas é considerada de origem haitiana.

Para além do vídeo divulgado esta semana, em fevereiro deste ano um haitiano foi linchado na República Dominicana e na mesma semana em que Tulile foi morto uma bandeira haitiana foi queimada por dominicanos em Santigo, a segunda maior cidade do país. Nas ruas de Santo Domingo, capital do país, também pode se encontrar pichações pedindo para que os haitianos saiam da República Dominicana.

Dos 9 milhões de pessoas que moram na República Dominicana, 500 mil são consideradas haitianas ou dominicanas com ascendência haitiana. E não apenas da xenofobia espalhada pelo imaginário coletivo dominicano atinge os haitianos e dominicanos descendentes de hatianos. Na verdade, a própria República Dominicana vem aplicando desde 2006 um processo de racismo institucional contra haitianos e dominicanos descendentes de haitianos. A população haitiana no país muitas vezes tem negadas suas certidões de nascimento e outros documentos necessários para registrar a cidadania na República Dominicana. Para corroborar com o racismo institucional perpetrado pelo governo dominicano, em 2013, a Suprema Corte Dominicana definiu que todos os haitianos na República Dominicana que não possuem documentação são desterrados e “em trânsito”. Tal política institucional abre uma vasta via para toda violência que hoje o povo haitiano radicado em território dominicano tem sofrido.

Manifestantes denunciam o estado racista da República Dominicana. Fonte:AP Photo/Dieu Nalio Chery

Manifestantes denunciam o estado racista da República Dominicana. Fonte:AP Photo/Dieu Nalio Chery

A situação de haitianos na República Dominicana não se difere da relação estabelecida entre Europa e países africanos. Em ambos os casos os setores mais vitimizados são aqueles usados como mão-de-obra barata. Óbvio que quando a economia dominicana cresce de forma satisfatória garantindo bem-estar econômico para os dominicanos os haitianos são tolerados no país, porém com o cenário de crise que se desenha no mundo e vem atingindo a República Dominicana o “sentimento” anti-haitiano” cotidiano entre dominicanos ganha mais força, a violência se aprofunda, inclusive fazendo o governo avançar numa possível política de deportação em junho de 2015.

Fonte: Socialist Action

Fonte: Socialist Action

O cenário de violência sofrida pelo povo haitiano ao longo das décadas na República Dominicana é um reflexo complexo de como países que muitas vezes sofrem com as imposições de países como a Europa e EUA. Muitas das violências sofridas pelos haitianos na República Dominicana são os mesmos que imigrantes latinos e negros sofrem nos Estados Unidos, com o advento da crise econômica que vem obrigando ajustes fiscais e planos de austeridades em diversos países populações que historicamente ocupam os lugares de párias sociais onde for tendem a virar alvo de violências mais atrozes ainda. É sempre necessário um bode-expiatório para justificar cortes de direitos e arrojos que ajudam a beneficiar empresas, burguesia e afins. Normalmente estes bode-expiatórios são quem mais precisa de proteção social e não violência social.

 

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