Seria a #partidA uma alternativa política viável?

A discussão política no Brasil ganhou novas dimensões, o mesmo podemos falar do debate feminista que aos poucos ganha fôlego no último período em nosso país. A demanda por espaços para debater a política, a situação das mulheres, negres, LGBTs e juventude em nosso país existe e não é algo que deva ser ignorado. Pontuo a existência desta necessidade para entrar em um debate importante para o movimento feminista, mas que é espinhoso e delicado: a criação da #partidA feminista.
composicao-camaraPara não dar uma de impressionista fui ler as premissas e o que defende a principal porta-voz da iniciativa e algumas luzes vermelhas de questionamento me surgiram e não aqueles questionamentos mais cereja do bolo, mas sim questionamentos estratégicos seja pra dissolução do patriarcado e mudança estrutural profunda da sociedade. Por este motivo resolvi sentar e escrever em cima daquilo que li no último período, saliento que respeito diversas companheiras que estão no esforço de construção da #partidA e por isso abro esse debate fraterno para refletirmos sobre quais as tarefas colocadas para o movimento feminista brasileiro neste momento.

As mulheres brasileiras, principalmente as mulheres negras e indígenas, ainda precisam avançar muito na ocupação dos espaços políticos, seja em espaços do movimento social ou na política institucional. Porém não podemos apresentar o debate político dos desafios do movimento feminista brasileiro esquecendo do que nos trouxe até aqui, seja os árduos debates realizados nos dois congressos de mulheres que aconteceram em São Paulo ainda durante o período militar e que ajudaram a organizar a intervenção do movimento no processo de luta pela reabertura política do Brasil. Tão pouco podemos deixar de lado a campanha “Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher” e a organização da bancada do batom – a época constituída pelas poucas deputadas constituintes eleitas e muitas delas feministas e organizadas em partidos da esquerda.

Cito principalmente estes dois marcos por acreditar que também reverberam um processo de organização e discussão do feminismo em direta relação a mudança estrutural da sociedade que devemos reivindicar. Tarefa esta que se mantém atual, a construção de posições contundentes a cerca de temas da conjuntura política que afetam a vida das mulheres brasileiras é fundamental. Sem isso não há como ampliar o processo de desconstrução do patriarcado no Brasil e ajudar a avançar a luta também do ponto de vista internacional.

Angela: feminista, antivista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

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É um mérito da #partidA apresentar o debate do método do fazer político, porém apenas o debate do método de fazer política, sem que haja a construção de uma formulação programática que pense as estruturas entrelaçadas do patriarcado, racismo e capitalismo em nosso país e como isso se imbrica em diversas esferas da sociedade: da política institucional a organização dos movimentos sociais.

Se faz necessária cada vez mais a criação de espaços para estimular o debate político, não apenas o debate de método. Pois é na política que avança o recrudescimento conservador em cima de nossas vidas, ou seja, é preciso para além de falar de uma ferramenta ético-política feminista é necessário localizar ela em nossa conjuntura de modo que ajude a intensificar e aprofundar o processo de disputa ideológica e de poder que está colocado. Ora, do que nos adianta debater o método da política se não se debate a terceirização e seu significado para as mulheres? Ou o fato do financiamento privado de campanha beneficiar principalmente os homens brancos cis e heteros? A redução da maioridade penal que tem direta relação com a questão de revista vexatória de milhares de mulheres negras e indígenas? Os ataques pelo país contra os planos municipais e estaduais de educação por conta da questão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual? O silêncio nestes temas apenas ajuda a uma coisa: a perpetuação de um status quo que necessita manter o patriarcado, o racismo e o capitalismo para se perpetuar e continuar o processo de exclusão social e opressão.

Para além da questão de um certo apagamento histórico que acabo vendo nos textos e entrevistas da Márcia Tiburi sobre a #partidA – isso me remete as piores tradições da história política mundial, pois ignorar a história não é base para qualquer projeto de radicalidade democrática – e a ausência de posicionamentos políticos sobre questões fundamentais para a vida das mulheres brasileiras que hoje estão em debate na sociedade, há também uma questão de estratégia e concepção partidária que é preciso se debater de forma fraterna, até por que normalmente a discussão estratégica e de concepção na política é um lugar de formulação masculina.

233_Constituinte_6070A que serve a ferramenta partidária (legalizada ou não)? Esse não é um debate novo de estratégia ou concepção, na verdade é bem antigo e nele me agarro na formulação apresentada pela Rosa Luxemburgo – uma das poucas mulheres dirigentes políticas do que viria a ser o Partido Comunista alemão no começo do século XX – de que a ferramenta partidária não pode ter um fim em si mesmo e também não olhar para reformas sociais como se apenas elas e o estar no governo pudessem resolver as contradições e conseguir modificar radicalmente a sociedade. Não podemos ser positivistas quando se trata da emancipação das mulheres, negres, LGBTs e trabalhadores em geral, o positivismo apenas ajuda na manutenção da estrutura social que aí está como se não houvesse disputa política e construção de forças sociais que fazem essa disputa.

O governar e a potência como estratégia não tem como nos servir nas tarefas gigantes impostas pela sociedade patriarcal, racista e capitalista que vivemos. Até por que o momento político atual de implementação do começo da austeridade em nosso país nos demonstram que o apenas governar sem romper com paradigmas que estruturam o patriarcado, racismo e capitalismo é equivocado.

Precisamos voltar a construir espaços de movimento que reúnam das feministas partidárias até as independentes, para formularmos um programa de intervenção mínima na política brasileira de um feminismo que olhe e dialogue profundamente com a luta antirracista e dos trabalhadores. Espaços que nos possibilitem conquistar mais espaços na sociedade e não nos releguem aos guetos onde falamos de nós pra nós mesmas e que, sobretudo, enfrentem de forma contundente o processo de fragmentação política que hoje enfrentamos no Brasil que só fortalece a burguesia e o conservadorismo. É na reconstrução contundente de um movimento feminista plural de organizações e posicionamentos políticos que precisamos investir, e não sair pelo caminho mais fácil negando o que foi construído historicamente até esse momento em um projeto que apenas tem uma capa bonita, mas com pouca sustância política e ideológica.

Outras posições no debate:

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