Agenda Brasil: o ovo da serpente chocando

Política é uma vida louca, seja a dinâmica dos movimentos sociais, seja a institucional e no último período essa vida louca tem criado mais reviravoltas ainda. Um dos primeiros apontamentos dessas reviravoltas é o editorial d’O Globo em defesa do governo Dilma, começou então um processo de saída da crise política – por que a saída da crise econômica tá longe de aparecer – mediada com os setores da direita brasileira que há décadas continuam ditando as regras do jogo no Brasil. Ou seja, a saída para a crise política instalada pela “Operação Lava-Jato”, Eduardo Cunha e ajuste fiscal é a de repactuar a qualquer custo o projeto da conciliação de classes.

Vale pontuar uma questão essencial. Para a lógica especulativa do capital financeiro, é péssimo ter uma alteração no comando do país em meio a uma crise (ou melhor, a um conjunto de crises) tão intensa, especialmente na economia, na visão desse segmento. Isso poderia ampliar a tensão social, cujo rumo que poderia tomar é pouco previsível. Do mesmo modo, ao agronegócio também não interessa a mudança, já que é este projeto político que tem garantido as bases da expansão do setor – que teve orçamento ampliado, enquanto os cortes lineares atingiram áreas como Educação. Também a construção civil, mergulhada na crise, não tem força alguma para sustentar esse movimento. Para o capital, parece melhor permanecer pressionando e ocupando lugares absolutamente estratégicos no governo, como bem exemplificam Levy e Kátia Abreu. (O revelador editorial d’O Globo em defesa de Dilma)

A apresentação de uma saída para a crise econômica e política por meio do presidente do Senado, Renan Calheiros, no final desta segunda-feira (10/8) com a tal “Agenda Brasil”, já rubricada pelo governo federal via o ministro da fazenda, aponta um aprofundamento da política de que os trabalhadores e minorias sociais devem pagar pela crise e não os grandes empresários brasileiros. Dos pilares que armam a “Agenda Brasil” está rever a política de demarcação de terras indígenas, a regulamentação da terceirização (que vinha tramitando já como PL4330), aceleração da liberação de licenças ambientais em casos de grandes obras e a ampliação da idade mínima para aposentadoria. Ou seja, medidas que efetivamente atacam setores em grande vulnerabilidade social.

A tal “Agenda Brasil” não apenas afeta diretamente os caminhos de saída da crise econômica, mas também pode significar algumas mudanças no xadrez da “Operação Lava-Jato”. Sabe por que eu falo isso? Por que apesar do bonito discurso de poderes independentes é notório que a questão do combate a corrupção influência diretamente na crise política instaurada no congresso nacional e com o desenrolar dos processos de delação premiada é possível aparecer denuncias contra figuras importantes do PMDB que não apenas Eduardo Cunha, e isso ajudaria numa instabilidade política maior do governo por conta dessa saída conciliada e que rifa, como de costume, pautas caras aos movimentos sociais em geral.

Acabamos reféns no Congresso Nacional da governabilidade, a qual tinha na sua base partidos conservadores – incluindo aí o PSC que neste pleito foi compor o projeto que melhor representa o conservadorismo brasileiro: Aécio Neves. Vimos aí cair por pressão da base do governo no Congresso Nacional o kit anti-homofobia e a queda da portaria do Ministério da Saúde sobre casos de aborto legal já existentes no Brasil. De mãos atadas, é isso que podemos constatar. De mãos atadas por conta da tática adotada para conseguir chegar a presidência do país. (Eleições 2014, ou, o ovo da serpente)

A verdade é que mesmo a conjuntura estar turbulenta e não dar para falarmos sobre quais os desfechos esse processo de crise política e econômica irá dar. Não podemos fechar os olhos para o fato de que o ovo da serpente gestado nos últimos 12 anos de governo petista chocou e é preciso ter firmeza para combater esse recrudescimento conservador que eclode das articulações para manutenção da estabilidade do governo. É preciso construção de uma terceira via que não seja a direita clássica ou a conciliação de classes, mas para isso ocorrer não podemos negar o recrudescimento conservador brasileiro seja dentro ou fora do governo federal que só ajuda a aumentar o processo de retirada de direitos no Brasil.

É preciso ser contundente seja contra a agenda do ajuste fiscal adotada  pelo governo federal que coloca a conta da crise em cim da quem luta para sobreviver todos os dias e do conservadorismo tacanho que toma as ruas colocando a culpa do desemprego em imigrantes ou esfaqueia transsexuais.

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É hora do Brasil parar de ignorar a xenofobia

HAITI-2Nesta sexta-feira (7/8) começou a rolar no final da tarde a informação sobre ataque contra haitianos em frente a igreja do Glicério na capital paulistana. A violência aconteceu no sábado (1/8), um homem teria afirmado que haitianos “estão roubando empregos de brasileiros” e aberto fogo contra 6 haitianos, entre eles uma mulher. Em matéria d’O Globo uma testemunha informa que as vítimas foram à duas unidades de saúde e foram recusados, tendo voltado pra casa ainda com balas alojadas no corpo. Vale registrar que, da grande mídia, apenas O Globo e Extra publicaram matérias sobre o atentado.

Pois bem, o acontecido na baixada do Glicério no dia 1º de agosto é algo para muito preocupar não apenas o movimento negro e de direitos humanos, mas também o movimento social brasileiro de conjunto. Há pelo menos dois problemas que precisamos encarar: o ataque xenófobo que culminou com 6 vítimas e o racismo e xenofobia institucional que as 6 vítimas sofreram ao procurar assistência médica em duas unidades de saúde diferentes.

Pontuo isso, por que a perseguição contra imigrantes tende a aumentar em momentos de crise econômica, um bom exemplo disso são as milícias organizadas na Grécia por simpatizantes do “Aurora Dourada” para perseguir, espancar e matar imigrantes. Apesar da crise ajudar a recrudescer a xenofobia pelo mundo não podemos tratar da questão de forma naturalizada, até por que estamos falando de pessoas em profunda vulnerabilidade social.

Porque há demanda por empregos preenchida por esses migrantes, ao contrário dos discursos vazios de “roubo” de postos de trabalho usados pela extrema direita de muitos países.

Mas lá como aqui. Enquanto não aprovarmos uma nova lei de migrações, substituindo o Estatuto do Estrangeiro produzido na ditadura militar (que vê a imigração não como um direito humano mas como uma questão de segurança nacional), abrindo espaço para o amparo legal a esse grupos, continuaremos a criminalizar e a escravizar trabalhadores estrangeiros que vêm ajudar a construir o Brasil. (Imigrantes querem direitos? Calem a boca, sejam invisíveis e trabalhem!)

Segundo a organização não governamental Repórter Brasil pelo menos 22 mil haitianos chegaram ao Brasil entre 2010 e 2014, enfrentando situações precárias desde a demora de emissão de carteira de trabalho por parte do Ministério do Trabalho e Emprego, até a falta de estrutura nas cidades para acolhimento dessa população. A ocupação de postos de trabalho mais precarizados por parte dessa população mais fragilizada em momentos de aumento da taxa de desemprego e um arraigado racismo em nosso país, camuflado pelo mito da democracia racial, são elementos importantes para estourar processos xenofóbicos mais intensos.

migrationNo mundo existem mais de 200 milhões de imigrantes e esse debate no Brasil sempre foi muito marginal, a invisibilização do trabalho escravo realizado por bolivianos há bastante tempo em confecções brasileiras, agora a dramática situação dos haitianos demandam que os movimentos sociais brasileiros tomarem pra si a defesa destas pessoas. Ou seja, não podemos nem naturalizar o fato de que por conta do racismo e da xenofobia a perseguição de imigrantes em situação de vulnerabilidade é algo que vai acontecer e aí secundarizamos por completo o debate.

É necessária que a reação dos movimentos sociais e da esquerda brasileira frente o ajuste fiscal e o avanço conservador seja também uma alternativa para o combate a xenofobia, não podemos permitir que haja mais episódios como o que aconteceu na baixada do Glicério em São Paulo e não devemos cair no erro da naturalização da violência racista e xenofóbica ou da secundarização deste debate que é profundamente ligado ao debate das estruturas que solidificaram a sociedade brasileira de forma racista.

{+} A volta dos que não foram, Baby Doc retorna ao Haiti após 25 anos de Exílio na França

{+} Aumento da violência sexual, ou, apenas mais um capítulo na longa história política do Haiti

{+} Haitianos e dominicanos: A nefasta face da xenofobia e racismo na América Latina

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Mulheres negras com HIV morrem 2 vezes mais que brancas

Em julho de 2014 a Unaids – braço da ONU que lida com a questão HIV/AIDS no mundo – lançou o The Gap Report, neste relatório é apontado um aumento de 11% de novos casos de infecção no Brasil entre 2005 e 2013, algo em torno de 42 mil pessoas. Quando falamos de mortes decorridas da infecção o dado apresentado pela Unaids chegava a quase 15 mil óbitos.

Aclamado internacionalmente por ter criado um programa de prevenção e tratamento considerado progressista e inclusivo, o Brasil vive um momento delicado no que se refere à prevenção de novos casos. Segundo o Boletim Epidemiológico em HIV/Aids de 2013 divulgado pelo Ministério da Saúde, entre 2003 e 2012 a incidência de casos de Aids no Norte brasileiro apresentou um aumento de 92,7%; no Nordeste, foi de 62,6%. Por outro lado, as regiões Sul e Sudeste, que concentram a maior parte dos casos diagnosticados, apresentaram um recuo de 0,3% e 18,6%, respectivamente. (HIV/Aids no Brasil: especialistas pedem políticas de prevenção mais específicas)

É importante lembrar que nos anos 80 se localizou a população mais exposta ao HIV, era o dito 5 h (Homossexuais, Hemofílicos, Haitianos, Heroinômanos (usuários de heroína injetável), Hookers – profissionais do sexo em inglês), o desconhecimento do que era o HIV e a AIDS gerou um processo de segregação e aprofundamento do racismo e homofobia perigoso no mundo.

logo_mulheresPois bem, o programa de DST/AIDS da Prefeitura de São Paulo tem apresentado dados alarmantes do aumento de detecção de HIV na cidade e nesta quinta-feira (6/8) apresentou em conjunto com a SMPIR (Secretaria Municipal da  Promoção da Igualdade Racial) dados referentes a detecção de HIV nas mulheres negras. Segundo o apresentado pelo programa de DST/AIDS, o grosso das novas detecções são de jovens  a partir dos 15 anos, porém o dado apresentado sobre as mulheres negras é muito preocupante.

O programa DST/AIDS constatou que o número de mulheres negras recentemente

Fonte: Programa DTS/AIDS de São Paulo

Fonte: Programa DTS/AIDS de São Paulo

detectadas com HIV é três vezes maior do que o das mulheres brancas. Ou seja, diferente das mulheres brancas que tem a sua maioria de detecções entre idosas, as mulheres negras estão contraindo o HIV em idade reprodutiva e isso revela profundamente a relação entre o racismo e o machismo não apenas em São Paulo, mas também no Brasil. Além de hoje serem mais atingidas pelo vírus HIV do que as mulheres brancas é importante apontar que estamos morrendo duas vezes mais que as brancas por conta da contaminação.

A situação de maior vulnerabilidade das mulheres negras, extensamente desenvolvida no “Dossiê Mulheres Negras retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil“, o fato de sermos a carne mais barata do mercado e termos uma ausência de garantias civis profundas respalda o dado apresentado neste mês pela DST/AIDS de São Paulo. Essa situação de maior vulnerabilidade social reflete também na manutenção de esteriótipos, o que vem diretamente às nossas cabeças quando pensamos em HIV/AIDS e mulheres negras?  Não seria estranho que a maioria das respostas falassem: profissionais do sexo. Não há como não refletir que a relação direta entre as duas coisas tem como base o machismo e o racismo.

Quando se fala em imagem da mulher negra, nunca se pensa em alguém que se pareça conosco e isso não ocorre só na televisão. Está no imaginário coletivo a associação de mulher com uma pessoa nórdica. Esse quadro exemplifica a vulnerabilidade da mulher negra na epidemia HIV/Aids. Outra consideração da cooperação entre racismo e sexismo é quadro inverso de privilégio produzido: os homens estão numa posição privilegiada. Esse privilégio também se dá em relação ao homem negro. Essa condição significa que desde o início do século XX cabem a eles certos níveis de voz ativa nas relações interpessoais com poder decisório que se aplica também no uso ou não da camisinha. (O racismo como fator de vulnerabilidade da população negra)

Fonte: Programa DST/AIDS de São Paulo

Fonte: Programa DST/AIDS de São Paulo

É fato que as mulheres negras são hiperssexualizadas, exotizadas e objetificadas. Ou seja, o lugar social no qual somos colocadas socialmente por causa do machismo e do racismo ajuda a consolidar um processo real de vulnerabilidade. A construção moral em torno do HIV dificulta, inclusive, a diagnosticação e o início do tratamento entre este setor social. O mais grave ainda é constatação do programa de DST/AIDS da prefeitura de São Paulo de que a faixa etária mais atingida entre as mulheres negras em idade reprodutiva, ou seja, entre 20 e 40 anos. E desta informação é preocupante, pois são mulheres jovens que muitas vezes descobrem ser soropositivas tardiamente e isso dificulta o tratamento e resulta em óbitos.

Infelizmente a AIDS tem voltado para a nossa agenda e é importante que o movimento negro compreenda que esse processo onde a detecção de HIV é maior entre nossas mulheres e jovens faz  parte do processo mais global de genocídio do povo negro. Encarar essa pauta de maneira séria quer dizer encarar de forma séria que o genocídio da população negra integra profundamente a questão da saúde sexual e reprodutiva e da orientação sexual entre os negros e não podemos fingir que este é um problema apenas do movimento LGBT, mas também do movimento negro, feminista e de juventude.

{+} Mulheres negras e não negras vivendo com HIV/AIDS no estado de São Paulo – um estudo sobre suas vulnerabilidades

{+} HIV e Ebola: Capítulos do racismo institucional no mundo

Atualizações:

10/08 – Inclusão de imagens, mais alguns dados e alteração de título.

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Seria a #partidA uma alternativa política viável?

A discussão política no Brasil ganhou novas dimensões, o mesmo podemos falar do debate feminista que aos poucos ganha fôlego no último período em nosso país. A demanda por espaços para debater a política, a situação das mulheres, negres, LGBTs e juventude em nosso país existe e não é algo que deva ser ignorado. Pontuo a existência desta necessidade para entrar em um debate importante para o movimento feminista, mas que é espinhoso e delicado: a criação da #partidA feminista.
composicao-camaraPara não dar uma de impressionista fui ler as premissas e o que defende a principal porta-voz da iniciativa e algumas luzes vermelhas de questionamento me surgiram e não aqueles questionamentos mais cereja do bolo, mas sim questionamentos estratégicos seja pra dissolução do patriarcado e mudança estrutural profunda da sociedade. Por este motivo resolvi sentar e escrever em cima daquilo que li no último período, saliento que respeito diversas companheiras que estão no esforço de construção da #partidA e por isso abro esse debate fraterno para refletirmos sobre quais as tarefas colocadas para o movimento feminista brasileiro neste momento.

As mulheres brasileiras, principalmente as mulheres negras e indígenas, ainda precisam avançar muito na ocupação dos espaços políticos, seja em espaços do movimento social ou na política institucional. Porém não podemos apresentar o debate político dos desafios do movimento feminista brasileiro esquecendo do que nos trouxe até aqui, seja os árduos debates realizados nos dois congressos de mulheres que aconteceram em São Paulo ainda durante o período militar e que ajudaram a organizar a intervenção do movimento no processo de luta pela reabertura política do Brasil. Tão pouco podemos deixar de lado a campanha “Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher” e a organização da bancada do batom – a época constituída pelas poucas deputadas constituintes eleitas e muitas delas feministas e organizadas em partidos da esquerda.

Cito principalmente estes dois marcos por acreditar que também reverberam um processo de organização e discussão do feminismo em direta relação a mudança estrutural da sociedade que devemos reivindicar. Tarefa esta que se mantém atual, a construção de posições contundentes a cerca de temas da conjuntura política que afetam a vida das mulheres brasileiras é fundamental. Sem isso não há como ampliar o processo de desconstrução do patriarcado no Brasil e ajudar a avançar a luta também do ponto de vista internacional.

Angela: feminista, antivista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

Angela: feminista, ativista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

É um mérito da #partidA apresentar o debate do método do fazer político, porém apenas o debate do método de fazer política, sem que haja a construção de uma formulação programática que pense as estruturas entrelaçadas do patriarcado, racismo e capitalismo em nosso país e como isso se imbrica em diversas esferas da sociedade: da política institucional a organização dos movimentos sociais.

Se faz necessária cada vez mais a criação de espaços para estimular o debate político, não apenas o debate de método. Pois é na política que avança o recrudescimento conservador em cima de nossas vidas, ou seja, é preciso para além de falar de uma ferramenta ético-política feminista é necessário localizar ela em nossa conjuntura de modo que ajude a intensificar e aprofundar o processo de disputa ideológica e de poder que está colocado. Ora, do que nos adianta debater o método da política se não se debate a terceirização e seu significado para as mulheres? Ou o fato do financiamento privado de campanha beneficiar principalmente os homens brancos cis e heteros? A redução da maioridade penal que tem direta relação com a questão de revista vexatória de milhares de mulheres negras e indígenas? Os ataques pelo país contra os planos municipais e estaduais de educação por conta da questão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual? O silêncio nestes temas apenas ajuda a uma coisa: a perpetuação de um status quo que necessita manter o patriarcado, o racismo e o capitalismo para se perpetuar e continuar o processo de exclusão social e opressão.

Para além da questão de um certo apagamento histórico que acabo vendo nos textos e entrevistas da Márcia Tiburi sobre a #partidA – isso me remete as piores tradições da história política mundial, pois ignorar a história não é base para qualquer projeto de radicalidade democrática – e a ausência de posicionamentos políticos sobre questões fundamentais para a vida das mulheres brasileiras que hoje estão em debate na sociedade, há também uma questão de estratégia e concepção partidária que é preciso se debater de forma fraterna, até por que normalmente a discussão estratégica e de concepção na política é um lugar de formulação masculina.

233_Constituinte_6070A que serve a ferramenta partidária (legalizada ou não)? Esse não é um debate novo de estratégia ou concepção, na verdade é bem antigo e nele me agarro na formulação apresentada pela Rosa Luxemburgo – uma das poucas mulheres dirigentes políticas do que viria a ser o Partido Comunista alemão no começo do século XX – de que a ferramenta partidária não pode ter um fim em si mesmo e também não olhar para reformas sociais como se apenas elas e o estar no governo pudessem resolver as contradições e conseguir modificar radicalmente a sociedade. Não podemos ser positivistas quando se trata da emancipação das mulheres, negres, LGBTs e trabalhadores em geral, o positivismo apenas ajuda na manutenção da estrutura social que aí está como se não houvesse disputa política e construção de forças sociais que fazem essa disputa.

O governar e a potência como estratégia não tem como nos servir nas tarefas gigantes impostas pela sociedade patriarcal, racista e capitalista que vivemos. Até por que o momento político atual de implementação do começo da austeridade em nosso país nos demonstram que o apenas governar sem romper com paradigmas que estruturam o patriarcado, racismo e capitalismo é equivocado.

Precisamos voltar a construir espaços de movimento que reúnam das feministas partidárias até as independentes, para formularmos um programa de intervenção mínima na política brasileira de um feminismo que olhe e dialogue profundamente com a luta antirracista e dos trabalhadores. Espaços que nos possibilitem conquistar mais espaços na sociedade e não nos releguem aos guetos onde falamos de nós pra nós mesmas e que, sobretudo, enfrentem de forma contundente o processo de fragmentação política que hoje enfrentamos no Brasil que só fortalece a burguesia e o conservadorismo. É na reconstrução contundente de um movimento feminista plural de organizações e posicionamentos políticos que precisamos investir, e não sair pelo caminho mais fácil negando o que foi construído historicamente até esse momento em um projeto que apenas tem uma capa bonita, mas com pouca sustância política e ideológica.

Outras posições no debate:

[+] A #partidA: uma aventura feminista na política nada tradicional

[+] partidA

 

 

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Reserva de vagas na Câmara dos Deputados é vitória, mas 10% é escárnio

Machismo

Atualização 18/6: A emenda acabou por não ser aprovada, porém isso não retira o fato de que Eduardo Cunha operou para que a luta das mulheres por mais espaço na política fosse dinamitada e a Bancada Feminina abaixou a cabeça quando apresentou a proposta de 10%.

A luta para ampliar o espaço político das mulheres não é recente, ao longo da história a dificuldade das mulheres em ocupar espaços políticos é notória. Tal dificuldade se reflete em diversas formas de ação política que o movimento de mulheres adotou para garantir o seu espaço na esfera pública de debate. Fosse com a criação de sindicatos femininos durante a revolução industrial para que nossas demandas trabalhistas fossem apresentadas ao invés de descartadas pelas direções dos sindicatos masculinos, fosse a garantia do direito ao voto e participação política de forma mais universal possível.

A conquista e a garantia de nossos direitos políticos ao longo dos anos é fatiada de acordo com o interesse patriarcal, racista e capitalista. A aprovação ontem de uma proposta recuada da necessária reserva de vagas na Câmara dos Deputados é uma boa expressão do quanto nossos direitos são garantidos nas migalhas, com uma dificuldade de construção de articulação com a complexidade do que é ser 52% da população brasileira.

A extensão do direito a todas as mulheres se deu dois anos depois, em 1934, porém seu exercício manteve-se facultativo até 1946. Aliás, quando dizemos “todas”, queremos dizer todas dentre a reduzida parcela letrada da população. Analfabetas e analfabetos somente conquistaram o direito ao voto em 1985 através de emenda constitucional, posteriormente assegurado pela constituição de 1988. (Entre o direito ao voto e a conquista do espaço público)

A votação realizada ontem que institui a reserva de vagas para parlamentares femininas na Câmara dos Deputados é uma demanda antiga do movimento feminista para o aumento da participação política das mulheres. A questão é que mais uma vez nossa vitória vem por migalhas. Em 2014 conquistamos na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal a vitória de ter 50% das vagas de parlamentares da Câmara dos Deputados para mulheres. A condição de disputa eleitoral entre mulheres e homens, negres e branques, heteros e homos, cis e trans são substancialmente diferentes, principalmente por conta da construção social que marginaliza todos aqueles que não se adequa ao padrão do macho branco hetero e cis que é necessário para ocupar os espaços de decisão política na sociedade.

mulheres-politicaA diferença de condições de disputa entre os setores marginalizados e setores que permanecem nos espaços de decisão política por décadas são abissais. Mulheres e negros tem menor acesso a financiamento na forma em que foi mantida pela Câmara dos Deputados na última semana, e esse fato é apontado por dados da Justiça Eleitoral com base no último pleito enfrentado em nosso país.

Apesar de termos aprovado um mecanismo que avança reconhecendo as diferenças entre mulheres e homens na disputa política, ao mesmo tempo ajuda a permanecer tudo como está. A aprovação de que a reserva de vagas para parlamentares femininos na próxima eleição seja de apenas 10%, ou seja, nenhum aumento real do que existe hoje. A realidade é que a Bancada Feminina recuou da posição que havia apresentado a Eduardo Cunha Underwood.

Somos mais de 52% da população, atualmente 10% da Câmara Federal e 17% do Senado Federal e consideramos que não haverá uma verdadeira reforma política sem a reserva de 30% das vagas nos Parlamentos para as mulheres. (Documento da Bancada Feminina do Congresso Nacional apresentado a Eduardo Cunha)

A imposição de Eduardo Cunha sobre a matéria e o imenso recuo da Bancada Feminina escarnece toda nossa trajetória de luta para ocupar os espaços da política, seja a articulação da Bancada do Batom e da campanha Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher até a conquista da cota de 30% nas legendas partidárias e a garantia da paridade de gênero em diversas organizações políticas e todo o debate que acumulamos sobre participação política das mulheres em Seminário realizado em 2011 no Senado Federal.

composicao-camara

A votação de um percentual que apenas mantém as coisas como elas estão na Câmara dos Deputados, sem ao menos debater também a representação feminina em outras casas legislativas, referenda o quanto a contra-reforma política apresentada por Eduardo Cunha não pretende modificar nada na política brasileira, é apenas uma maneira simpática de dizer que as coisas continuarão como devem ser: Com homens, ricos, brancos, heterossexuais e cisgêneros loteando e negociando nossos direitos como bem entendem.

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