Agenda Brasil: o ovo da serpente chocando

Política é uma vida louca, seja a dinâmica dos movimentos sociais, seja a institucional e no último período essa vida louca tem criado mais reviravoltas ainda. Um dos primeiros apontamentos dessas reviravoltas é o editorial d’O Globo em defesa do governo Dilma, começou então um processo de saída da crise política – por que a saída da crise econômica tá longe de aparecer – mediada com os setores da direita brasileira que há décadas continuam ditando as regras do jogo no Brasil. Ou seja, a saída para a crise política instalada pela “Operação Lava-Jato”, Eduardo Cunha e ajuste fiscal é a de repactuar a qualquer custo o projeto da conciliação de classes.

Vale pontuar uma questão essencial. Para a lógica especulativa do capital financeiro, é péssimo ter uma alteração no comando do país em meio a uma crise (ou melhor, a um conjunto de crises) tão intensa, especialmente na economia, na visão desse segmento. Isso poderia ampliar a tensão social, cujo rumo que poderia tomar é pouco previsível. Do mesmo modo, ao agronegócio também não interessa a mudança, já que é este projeto político que tem garantido as bases da expansão do setor – que teve orçamento ampliado, enquanto os cortes lineares atingiram áreas como Educação. Também a construção civil, mergulhada na crise, não tem força alguma para sustentar esse movimento. Para o capital, parece melhor permanecer pressionando e ocupando lugares absolutamente estratégicos no governo, como bem exemplificam Levy e Kátia Abreu. (O revelador editorial d’O Globo em defesa de Dilma)

A apresentação de uma saída para a crise econômica e política por meio do presidente do Senado, Renan Calheiros, no final desta segunda-feira (10/8) com a tal “Agenda Brasil”, já rubricada pelo governo federal via o ministro da fazenda, aponta um aprofundamento da política de que os trabalhadores e minorias sociais devem pagar pela crise e não os grandes empresários brasileiros. Dos pilares que armam a “Agenda Brasil” está rever a política de demarcação de terras indígenas, a regulamentação da terceirização (que vinha tramitando já como PL4330), aceleração da liberação de licenças ambientais em casos de grandes obras e a ampliação da idade mínima para aposentadoria. Ou seja, medidas que efetivamente atacam setores em grande vulnerabilidade social.

A tal “Agenda Brasil” não apenas afeta diretamente os caminhos de saída da crise econômica, mas também pode significar algumas mudanças no xadrez da “Operação Lava-Jato”. Sabe por que eu falo isso? Por que apesar do bonito discurso de poderes independentes é notório que a questão do combate a corrupção influência diretamente na crise política instaurada no congresso nacional e com o desenrolar dos processos de delação premiada é possível aparecer denuncias contra figuras importantes do PMDB que não apenas Eduardo Cunha, e isso ajudaria numa instabilidade política maior do governo por conta dessa saída conciliada e que rifa, como de costume, pautas caras aos movimentos sociais em geral.

Acabamos reféns no Congresso Nacional da governabilidade, a qual tinha na sua base partidos conservadores – incluindo aí o PSC que neste pleito foi compor o projeto que melhor representa o conservadorismo brasileiro: Aécio Neves. Vimos aí cair por pressão da base do governo no Congresso Nacional o kit anti-homofobia e a queda da portaria do Ministério da Saúde sobre casos de aborto legal já existentes no Brasil. De mãos atadas, é isso que podemos constatar. De mãos atadas por conta da tática adotada para conseguir chegar a presidência do país. (Eleições 2014, ou, o ovo da serpente)

A verdade é que mesmo a conjuntura estar turbulenta e não dar para falarmos sobre quais os desfechos esse processo de crise política e econômica irá dar. Não podemos fechar os olhos para o fato de que o ovo da serpente gestado nos últimos 12 anos de governo petista chocou e é preciso ter firmeza para combater esse recrudescimento conservador que eclode das articulações para manutenção da estabilidade do governo. É preciso construção de uma terceira via que não seja a direita clássica ou a conciliação de classes, mas para isso ocorrer não podemos negar o recrudescimento conservador brasileiro seja dentro ou fora do governo federal que só ajuda a aumentar o processo de retirada de direitos no Brasil.

É preciso ser contundente seja contra a agenda do ajuste fiscal adotada  pelo governo federal que coloca a conta da crise em cim da quem luta para sobreviver todos os dias e do conservadorismo tacanho que toma as ruas colocando a culpa do desemprego em imigrantes ou esfaqueia transsexuais.

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