Relato sobre a votação em 1º turno do PME de São Paulo

Precisava escrever um relato sobre o que eu vi ontem durante a votação em 1º turno do Plano Municipal de Educação, acabei chegando só na hora que já os oradores estavam falando no plenário, não consegui chegar antes por que precisava cuidar de umas questões pessoais. Para quem não sabe, além de militante feminista, do movimento negro e do PSOL também sou mãe de uma menina que está no 1º ano de uma Escola Municipal de Ensino Fundamental.

Ao chegar na Câmara de Vereadores era visível quem realmente investe dinheiro nesta disputa: os conservadores, todos pagos para lá estarem fazendo um coro pró violência. Além disso, enquanto o carro dos movimentos LGBT, juventude, feminista, negro e de educação nós víamos a diversidade, a pluralidade política, de identidade de gênero, orientação sexual e raça era algo que podíamos ver por toda parte. Do lado conservador apenas falavam pastores, padres, só no final uma vereadora falou, todas as outras intervenções foram de homens.

A primeira questão é que não apenas o debate sobre orientação sexual, identidade de gênero e gênero que foi limado do projeto. Ontem aprovaram junto uma série de coisas que entrega a educação infantil, principalmente as CEIs, nas mãos das igrejas ao ampliar o número de creches conveniadas além da retirada da parte que falava sobre repassar 30% do orçamento municipal para a educação. Destaco isso por que precisamos compreender que a retirada da questão de gênero e orientação sexual do PME vem em conjunto com um processo de desmonte cada vez mais profundo da educação pública em nossa cidade.

A segunda questão é que dos 55 vereadores, 44 votaram a matéria. 42 votaram de forma favorável ao PME com vistas a construir um substitutivo e 2 votaram contrários ao PME (Ricardo Young e Toninho Vespoli). Destaque para as falas hipócritas dos vereadores petistas que destacavam a importância do debate, mas votaram em conjunto com a direita machista, LGBTfóbica e racista o PME que não apenas rifa a questão de gênero, mas aprofunda o sucateamento da educação pública do nosso município.

Destaque para a postura arrogante de Paulo Fiorilo que ao votar com a direita começou a falar para nós que lá estávamos defendo todos os tipos de família, uma educação pública de qualidade e laica e o direito das crianças a viverem em ambientes que não perpetuem ciclos de violência (machista, LGBTfóbica e racistas) não tínhamos lido o PME como um todo. Tanto foi lido, quanto sabemos que ataca o direito de nossas crianças como um todo, entendeu chuchu?

Os argumentos da bancada conservadora eram de um naipe horroroso, como de costume, dentro de todas as bobagens que falavam ajudavam a ignorar que, por exemplo, a maioria das famílias brasileiras não são compostas por um homem, uma mulher e filhos. Na verdade, a maioria das famílias brasileiras são de mães pretas e solteiras, fora isso temos uma diversidade tão grande de composições familiares que a defesa feita pelos conservadores chega a ser uma piada.

Uma outra questão fundamental apontarmos é: a votação feita ontem ajuda a manter um ciclo de violência nas escolas que precisa ser rompido. Só lembrar de diversos casos de imagens privadas de meninas que vazam e elas são vítimas de chacotas, perseguição e afins na escola. Não vamos debater isso? Vamos efetivamente deixar nossas crianças e adolescentes sofrerem com violência psicológica até não aguentarem mais e se matarem? Belo cristianismo esse de vocês, viu? Que preferem ver as crianças sofrendo a realmente abrir um debate necessário para formar professores, equipe técnica e afins de CEIs, EMEIs e EMEFs.

Gostaria de dizer que a decisão ontem da bancada do PT e da bancada conservadora atua perversamente no boicote que deve ser o debate da sexualidade em um momento de retomada da epidemia de AIDS entre a juventude, limar este debate é fechar os olhos e lavar as mãos na questão de combate e conscientização dos adolescentes no que significa o HIV e a AIDS. Além disso essa é uma luta de todos nós, não apenas do movimento LGBT, pois assim como não debatemos a LGBTfobia nas escolas, também não debatemos a questão racial (e olha que isso é previsto na LDB e não é cumprido) e também não debatemos violência machista. Faz parte da formação das nossas crianças e da educação pública e onde se encontram a maioria da juventude negra de nossa cidade.

A defesa é a defesa de que as igrejas não lucrem mais com o processo de privatização terceirizada da educação pública, é a defesa de que nossos filhos, sobrinhos e primos não continuem expostos a um ciclo de violência cotidiana e de não sermos coniventes com violências que levam as crianças e adolescentes ao suicídio. É a defesa de direitos de todas as famílias brasileiras e da vida em sua plena diversidade.

Ontem 42 vereadores votaram contra as crianças, contra a educação pública e pela intolerância, foi isso que eles fizeram. Mas não deixaremos passar em brancas nuvens, até o dia 25 de agosto continuaremos a nos movimentar, apresentar o debate que envolve o PME em sua completude em todos os espaços da sociedade para demonstrar o quão hipócritas a maioria dos vereadores de SP são, pois para justificar dinheiro para as igrejas jogaram no lixo os direitos civis e a educação pública!

É POR TODAS AS FAMÍLIAS! CONTINUARÁ A SER POR TODAS AS FAMÍLIAS!

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Agenda Brasil: o ovo da serpente chocando

Política é uma vida louca, seja a dinâmica dos movimentos sociais, seja a institucional e no último período essa vida louca tem criado mais reviravoltas ainda. Um dos primeiros apontamentos dessas reviravoltas é o editorial d’O Globo em defesa do governo Dilma, começou então um processo de saída da crise política – por que a saída da crise econômica tá longe de aparecer – mediada com os setores da direita brasileira que há décadas continuam ditando as regras do jogo no Brasil. Ou seja, a saída para a crise política instalada pela “Operação Lava-Jato”, Eduardo Cunha e ajuste fiscal é a de repactuar a qualquer custo o projeto da conciliação de classes.

Vale pontuar uma questão essencial. Para a lógica especulativa do capital financeiro, é péssimo ter uma alteração no comando do país em meio a uma crise (ou melhor, a um conjunto de crises) tão intensa, especialmente na economia, na visão desse segmento. Isso poderia ampliar a tensão social, cujo rumo que poderia tomar é pouco previsível. Do mesmo modo, ao agronegócio também não interessa a mudança, já que é este projeto político que tem garantido as bases da expansão do setor – que teve orçamento ampliado, enquanto os cortes lineares atingiram áreas como Educação. Também a construção civil, mergulhada na crise, não tem força alguma para sustentar esse movimento. Para o capital, parece melhor permanecer pressionando e ocupando lugares absolutamente estratégicos no governo, como bem exemplificam Levy e Kátia Abreu. (O revelador editorial d’O Globo em defesa de Dilma)

A apresentação de uma saída para a crise econômica e política por meio do presidente do Senado, Renan Calheiros, no final desta segunda-feira (10/8) com a tal “Agenda Brasil”, já rubricada pelo governo federal via o ministro da fazenda, aponta um aprofundamento da política de que os trabalhadores e minorias sociais devem pagar pela crise e não os grandes empresários brasileiros. Dos pilares que armam a “Agenda Brasil” está rever a política de demarcação de terras indígenas, a regulamentação da terceirização (que vinha tramitando já como PL4330), aceleração da liberação de licenças ambientais em casos de grandes obras e a ampliação da idade mínima para aposentadoria. Ou seja, medidas que efetivamente atacam setores em grande vulnerabilidade social.

A tal “Agenda Brasil” não apenas afeta diretamente os caminhos de saída da crise econômica, mas também pode significar algumas mudanças no xadrez da “Operação Lava-Jato”. Sabe por que eu falo isso? Por que apesar do bonito discurso de poderes independentes é notório que a questão do combate a corrupção influência diretamente na crise política instaurada no congresso nacional e com o desenrolar dos processos de delação premiada é possível aparecer denuncias contra figuras importantes do PMDB que não apenas Eduardo Cunha, e isso ajudaria numa instabilidade política maior do governo por conta dessa saída conciliada e que rifa, como de costume, pautas caras aos movimentos sociais em geral.

Acabamos reféns no Congresso Nacional da governabilidade, a qual tinha na sua base partidos conservadores – incluindo aí o PSC que neste pleito foi compor o projeto que melhor representa o conservadorismo brasileiro: Aécio Neves. Vimos aí cair por pressão da base do governo no Congresso Nacional o kit anti-homofobia e a queda da portaria do Ministério da Saúde sobre casos de aborto legal já existentes no Brasil. De mãos atadas, é isso que podemos constatar. De mãos atadas por conta da tática adotada para conseguir chegar a presidência do país. (Eleições 2014, ou, o ovo da serpente)

A verdade é que mesmo a conjuntura estar turbulenta e não dar para falarmos sobre quais os desfechos esse processo de crise política e econômica irá dar. Não podemos fechar os olhos para o fato de que o ovo da serpente gestado nos últimos 12 anos de governo petista chocou e é preciso ter firmeza para combater esse recrudescimento conservador que eclode das articulações para manutenção da estabilidade do governo. É preciso construção de uma terceira via que não seja a direita clássica ou a conciliação de classes, mas para isso ocorrer não podemos negar o recrudescimento conservador brasileiro seja dentro ou fora do governo federal que só ajuda a aumentar o processo de retirada de direitos no Brasil.

É preciso ser contundente seja contra a agenda do ajuste fiscal adotada  pelo governo federal que coloca a conta da crise em cim da quem luta para sobreviver todos os dias e do conservadorismo tacanho que toma as ruas colocando a culpa do desemprego em imigrantes ou esfaqueia transsexuais.

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É hora do Brasil parar de ignorar a xenofobia

HAITI-2Nesta sexta-feira (7/8) começou a rolar no final da tarde a informação sobre ataque contra haitianos em frente a igreja do Glicério na capital paulistana. A violência aconteceu no sábado (1/8), um homem teria afirmado que haitianos “estão roubando empregos de brasileiros” e aberto fogo contra 6 haitianos, entre eles uma mulher. Em matéria d’O Globo uma testemunha informa que as vítimas foram à duas unidades de saúde e foram recusados, tendo voltado pra casa ainda com balas alojadas no corpo. Vale registrar que, da grande mídia, apenas O Globo e Extra publicaram matérias sobre o atentado.

Pois bem, o acontecido na baixada do Glicério no dia 1º de agosto é algo para muito preocupar não apenas o movimento negro e de direitos humanos, mas também o movimento social brasileiro de conjunto. Há pelo menos dois problemas que precisamos encarar: o ataque xenófobo que culminou com 6 vítimas e o racismo e xenofobia institucional que as 6 vítimas sofreram ao procurar assistência médica em duas unidades de saúde diferentes.

Pontuo isso, por que a perseguição contra imigrantes tende a aumentar em momentos de crise econômica, um bom exemplo disso são as milícias organizadas na Grécia por simpatizantes do “Aurora Dourada” para perseguir, espancar e matar imigrantes. Apesar da crise ajudar a recrudescer a xenofobia pelo mundo não podemos tratar da questão de forma naturalizada, até por que estamos falando de pessoas em profunda vulnerabilidade social.

Porque há demanda por empregos preenchida por esses migrantes, ao contrário dos discursos vazios de “roubo” de postos de trabalho usados pela extrema direita de muitos países.

Mas lá como aqui. Enquanto não aprovarmos uma nova lei de migrações, substituindo o Estatuto do Estrangeiro produzido na ditadura militar (que vê a imigração não como um direito humano mas como uma questão de segurança nacional), abrindo espaço para o amparo legal a esse grupos, continuaremos a criminalizar e a escravizar trabalhadores estrangeiros que vêm ajudar a construir o Brasil. (Imigrantes querem direitos? Calem a boca, sejam invisíveis e trabalhem!)

Segundo a organização não governamental Repórter Brasil pelo menos 22 mil haitianos chegaram ao Brasil entre 2010 e 2014, enfrentando situações precárias desde a demora de emissão de carteira de trabalho por parte do Ministério do Trabalho e Emprego, até a falta de estrutura nas cidades para acolhimento dessa população. A ocupação de postos de trabalho mais precarizados por parte dessa população mais fragilizada em momentos de aumento da taxa de desemprego e um arraigado racismo em nosso país, camuflado pelo mito da democracia racial, são elementos importantes para estourar processos xenofóbicos mais intensos.

migrationNo mundo existem mais de 200 milhões de imigrantes e esse debate no Brasil sempre foi muito marginal, a invisibilização do trabalho escravo realizado por bolivianos há bastante tempo em confecções brasileiras, agora a dramática situação dos haitianos demandam que os movimentos sociais brasileiros tomarem pra si a defesa destas pessoas. Ou seja, não podemos nem naturalizar o fato de que por conta do racismo e da xenofobia a perseguição de imigrantes em situação de vulnerabilidade é algo que vai acontecer e aí secundarizamos por completo o debate.

É necessária que a reação dos movimentos sociais e da esquerda brasileira frente o ajuste fiscal e o avanço conservador seja também uma alternativa para o combate a xenofobia, não podemos permitir que haja mais episódios como o que aconteceu na baixada do Glicério em São Paulo e não devemos cair no erro da naturalização da violência racista e xenofóbica ou da secundarização deste debate que é profundamente ligado ao debate das estruturas que solidificaram a sociedade brasileira de forma racista.

{+} A volta dos que não foram, Baby Doc retorna ao Haiti após 25 anos de Exílio na França

{+} Aumento da violência sexual, ou, apenas mais um capítulo na longa história política do Haiti

{+} Haitianos e dominicanos: A nefasta face da xenofobia e racismo na América Latina

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Técnicas de desempoderamento: um guia de resistência

O texto a seguir é da Christina Celeste Nielsen, militante do SAP, e foi traduzido pelo Rodrigo Cruz. Contribuições importantes para refletir as relações em movimentos sociais e organizações mistas.

 

MachismoTécnicas de desemponderamento podem florescer em todos os locais onde existem relações desiguais de poder, sejam elas baseadas em sexo, idade, gênero, raça, experiência ou qualquer outra variável que possa definir até que ponto você é considerado ok em relação às normas dominantes.

Técnicas de desemponderamento podem ser uma ferramenta muito eficiente para marginalizar pessoas ou grupos. Mas o uso de técnicas de desemponderamento nem sempre acontece de forma consciente. É sobre pessoas, comportamento, sinais, linguagem corporal e humor, questões altamente complexas e com diferentes possibilidades de interpretação.

Definir as técnicas de desemponderamento em sua totalidade pode ser uma tarefa árdua, mas a nível individual, podemos nos tornar mais conscientes sobre o que fazemos de nós mesmos. E, finalmente, começar a estabelecer nossos limites em relação ao comportamento dos outros.

Enquanto organização, também podemos fazer muito para reduzir a utilização de técnicas de desemponderamento em nossas fileiras e promover a igualdade em nossas atividades políticas. Isso significa somar experiências e obter um melhor aproveitamento de ideias e recursos entre os nossos quadros. Todos saem ganhando.

Técnicas de desemponderamento 

A seguir estão descritas algumas das técnicas de desemponderamento mais amplamente difundidas. Talvez você mulhernapoliticareconheça algumas dessas técnicas, seja porque você tem sido vítima, seja porque tem se utilizado de algumas delas.

1. Invisibilização

Quando ninguém se relaciona com você ou ignora as suas contribuições em um debate. Qual a vantagem de ter o direito de estar numa assembleia se ninguém te escuta e reage às suas intervenções?

2. Ridicularização e estereótipos

Marginalização através do “humor”. Um bom exemplo é o uso por (alguns) homens de piadas e estereótipos sobre mulheres. Também ocorre quando uma pessoa, em vez de se relacionar concretamente com você e com o que você diz, trata de relacionar a sua fala com a de outra pessoa, que a maioria na assembleia discorda ou acha ridícula.

3. Culpa: “Que merda que você fez isso / Que merda que você não fez isso”

Quando cada escolha que você faz é sistematicamente criticada. Por exemplo, quando os problemas estruturais são reduzidos a uma questão individual. Ou quando mães e pais são criticados por não comparecer às reuniões da organização, mas também enfrentam críticas por trazer seus filhos às reuniões.

4. Paternalismo

Quando alguém fala com você como se você fosse uma criança ou um ignorante. Por exemplo, quando as pessoas insistem que você não entendeu a pergunta, quando na verdade discordam da resposta e se negam a aceitar que você entendeu perfeitamente a questão.

5. Retenção de informações

Quando a produção e circulação de informações, bem como as decisões reais estão sendo tomadas fora das estruturas formais da organização.

Isso pode acontecer durante uma cerveja no bar à noite, após o término da reunião de instância. Isso também acontece quando você recebe repetidamente artigos e mensagens importantes no último minuto, apenas para que você não tenha a chance de se apropriar dos conteúdos antes do debate.

6. Resistência passiva

Quando as pessoas da direção dizem sim e amém a todas as críticas e demandas por mudança, mas simplesmente não colocam em prática nada daquilo que foi demandado.

7. Comportamento ameaçador / Ameaça de violência

Quando alguém levanta a voz ou fica muito perto de você ao falar. Mesmo que não haja necessariamente um contato físico, essa atitude pode significar que as consequências podem ser nada agradáveis se você “não se colocar no seu devido lugar”.

Técnicas de democratização

Aqui estão algumas ideias para lutar contra o uso de técnicas de desemponderamento, tanto em termos pessoais quanto no âmbito da organização.

Em termos pessoais:

1. Faça acordos com você mesmo

Se você nunca fala nas reuniões, você pode começar a fazer um acordo com você mesmo de que precisa dizer alguma coisa, pelo menos uma vez a cada reunião. Mais tarde, você pode aumentar o número de intervenções, de modo que você venha a intervir pelo menos uma vez a cada ponto de pauta. No final, fazer uma fala pode se tornar um hábito bastante animador. Em breve será necessário fazer um acordo com você mesmo para estabelecer o máximo de falas que devem ser feitas a cada ponto de pauta. Afinal, ninguém deve monopolizar o direito de fala.

2. Comente as contribuições das suas/seus camaradas

Contribua para que as reuniões sejam um espaço agradável. Relacione-se com o que os outros dizem, inclusive com o que é dito por companheiras e companheiros que não falam com tanta frequência. Você não necessariamente precisa concordar com tal contribuição, mas pode mostrar o seu respeito, respondendo às questões ou fazendo referência ao que foi dito.

3. Permita-se uma “cota de estupidez”

Todos nós temos medo de fazer papel de boba/bobo – e todos nós o fazemos, de vez em quando! Mas em vez de fazer sempre o que é seguro, permita-se uma “cota de estupidez”. Faça um acordo com você mesmo que admita a possibilidade de ser boba/bobo pelo menos três vezes durante uma reunião. Dessa forma, há espaço para 1) fazer uma pergunta que alguém já perguntou; 2) fazer uma intervenção na qual você simplesmente esquece o que pretendia dizer e 3) fazer uma piada daquelas que ninguém entende.

4. Faça discussões em fóruns abertos

Abuso de poder e manipulação não deve ser reduzido a uma questão pessoal. Se você sentir que você está sendo exposto a técnicas de desempoenderamento por parte de alguém, não hesite em revelar a identidade dessa pessoa. Faça as discussões de forma aberta e em fóruns públicos.

No âmbito da organização:

1. Direito à auto-organização

O direito à auto-organização dos grupos oprimidos é uma ferramenta importante na luta por mais igualdade dentro das organizações. Quando as mulheres, os jovens, as LGBT e outros grupos se reúnem e trocam experiências, fica claro que a opressão não é uma questão individual. Técnicas de desemponderamento (também) são problemas coletivos. E precisam de respostas coletivas.

2. Lista de inscrição

Estruturas democráticas devem promover a igualdade de regras e espaço para que todos possam se manifestar. O caos promove os indivíduos mais fortes. Nas reuniões, escolha um mediador e defina previamente as regras para o funcionamento do espaço. Algumas regras são básicas. Os inscritos de primeira viagem (aqueles que ainda não falaram) e os recém-chegados devem constar no topo da lista. As pessoas que estão falando pela primeira vez têm o direito de falar 5 minutos, enquanto os reinscritos se limitam a falar por 2 minutos.

3. Diferentes tipos de reuniões

As reuniões tradicionais começam com uma longa intervenção de um “expert”. Em geral, somente depois dessa exposição inicial as participantes podem perguntar e tecer comentários. Este tipo de reunião funciona bem para alguns propósitos, mas pode acabar beneficiando aqueles que estão acostumados a falar muito em espaços onde há muitas pessoas. Experimente outros formatos, como grupos de discussão menores e oficinas mais práticas.

4. Coletivização das tarefas

É importante que todas as pessoas tenham a chance de pegar tarefas que lhes desafiem e talvez até mesmo as deixem nervosas ou inseguras. Por exemplo, fazer apresentações orais em reuniões ou cursos, dar palestras em manifestações ou escrever artigos para publicações do partido. A organização deve assumir a responsabilidade coletiva para isso, estimulando processos de cooperação entre camaradas. Companheiras e companheiros mais experientes devem trabalhar em conjunto com as/os menos experientes para preparar a intervenção, discurso, artigo etc. Ambas as partes podem lucrar e aprender muito com este tipo de experiência!

5. Invista em atividades sociais

A área social é importante! Jogos podem ser um excelente entretenimento. Contudo, é importante encontrar diferentes atividades para evitar que uma mesma pessoa seja sempre posicionada como a mais inteligente, a mais engraçada e assim por diante.

6. Cumprir as regras quando se está sob pressão!

Quando a organização está em um período particularmente estressante, durante uma campanha eleitoral, por exemplo, é comum que se deixe para trás as rotinas e formas tradicionais de funcionamento. Consequentemente, há um grande risco de os militantes assumirem um tom retórico mais duro. Também pode acontecer de as decisões serem tomadas de forma mais rápida, sem maiores debates. Nessas situações, é particularmente importante estar ciente dos sinais de perigo. As regras presentes neste guia devem ser consideradas também nas situações de pressão. E quanto a você, estabeleça os seus limites. Avalie aberta e criticamente até que ponto a situação é saudável para você.

{+} Reflexões sobre a divisão sexual do trabalhos na militância cotidiana

{+} Violência contra mulher é também não garantir sua inclusão nos espaços políticos

{+} O feminismo como parte de um projeto político de totalidade

{+} Movimentos de esquerda: não devia ter um feminismo aqui?

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Laerte Bessa: racismo e machismo sustentam a redução da maioridade penal

Aborto X pena de morteNão demorou para que o racismo e o penalismo presente na defesa da redução da maioridade penal se encontrasse com o machismo nosso de cada dia. O deputado federal e relator da PL 171/93, Laerte Bessa (PR-DF), afirmou para o jornal londrino The Guardian que “um dia, chegaremos a um estágio em que será possível determinar se um bebê, ainda no útero, tem tendências à criminalidade, e se sim, a mãe não terá permissão para dar à luz”.

Recentemente, o parlamentar afirmou que o jornalista do Guardian haveria entendido o que ele falou de forma equivocada, inclusive afirmou sua posição contra a legalização do aborto. O jornalista Bruce Douglas publicou o áudio da entrevista para confirmar desmentindo a negação feita por Laerte Bessa.

A afirmação de Bessa feita em junho deste ano revela uma relação perversa e estrutural do racismo, punitivismo, higienismo social e machismo em nossa sociedade. Este processo acaba se tornando concreto quando percebemos seu resultado: o genocídio da população negra brasileira em geral.

A primeira coisa que é preciso localizar é que a afirmação feita por Laerte Bessa vai no cerne da questão do genocídio da população negra, higienismo social e da misoginia. Revela-se o quanto a mulher cis, principalmente as cis negras, é compreendida apenas como um objeto, um recipiente com o um fim muito bem designado: engravidar.

A posição de Laerte Bessa não é contraditória com a posição dele contra a legalização do aborto, simplesmente por que a perspectiva dele continua a ser a de negar a autonomia e decisão das mulheres. A afirmação do parlamentar revela o quanto a visão sobre as mulheres negras continua a de objetificação, pessoas que devem ter suas decisões monitoradas e chanceladas pelos homens. Nada muito diferente dos sinhozinhos que decidiam sobre a vida das escravas durante o Brasil império, ou até mesmo o processo de esterilização em massa de mulheres negras em nosso país nas décadas de 70 e 80.

Apresentação1Defender aborto compulsório em casos que se “identificar predisposição genética” para a criminalidade, só demonstra o quão profundo o pensamento genocida contra a população negra está organizado. O aborto compulsório e a defesa da redução da maioridade penal são duas faces do genocídio de nossa população no Brasil, negando a a situação social que há décadas é desfavorável aos negros, negando autonomia e direito de decisão às mulheres e legando a nossa juventude e mulheres um futuro de encarceramento em massa e revistas vexatórias.

A defesa da redução da maioridade penal, ou até mesmo a proposta de ampliação de internação prevista no ECA, apenas ajuda a reforçar esta visão caricatural representada hoje por Laerte Bessa. Uma visão profundamente racista e machista a qual localiza o nosso povo como aqueles que devem ser alvo de todo o tipo de controle compulsório e quem deve definir este controle são homens e brancos, pois são os que detém o controle do estado burguês.

A redução da maioridade, o impacto que isso tem em ampliação a revista vexatória caso for aprovada e a profunda relação com o genocídio da população negra – compreendendo que este genocídio é composto pela violência policial contra os nossos jovens, a defesa do aborto compulsório visando um “controle da criminalidade” e a defesa da criminalização do direito da mulher decidir sobre sua vida – demonstra muito bem o quanto a manutenção de privilégios raciais, orientação, gênero e identidade de gênero estão diretamente articuladas com a manutenção do status quo capitalista.

Sim, lutar contra a redução da maioridade penal não é apenas uma luta pelo direitos das crianças e adolescentes, ou uma luta antirracista. Esta luta é também uma luta feminista, pois atinge um conjunto de questões ligadas aos diretos das mulheres negras.

[+] Cabral e a legalização do aborto, ou para ele: Como coibibir a violência no Rio

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