Seria a #partidA uma alternativa política viável?

A discussão política no Brasil ganhou novas dimensões, o mesmo podemos falar do debate feminista que aos poucos ganha fôlego no último período em nosso país. A demanda por espaços para debater a política, a situação das mulheres, negres, LGBTs e juventude em nosso país existe e não é algo que deva ser ignorado. Pontuo a existência desta necessidade para entrar em um debate importante para o movimento feminista, mas que é espinhoso e delicado: a criação da #partidA feminista.
composicao-camaraPara não dar uma de impressionista fui ler as premissas e o que defende a principal porta-voz da iniciativa e algumas luzes vermelhas de questionamento me surgiram e não aqueles questionamentos mais cereja do bolo, mas sim questionamentos estratégicos seja pra dissolução do patriarcado e mudança estrutural profunda da sociedade. Por este motivo resolvi sentar e escrever em cima daquilo que li no último período, saliento que respeito diversas companheiras que estão no esforço de construção da #partidA e por isso abro esse debate fraterno para refletirmos sobre quais as tarefas colocadas para o movimento feminista brasileiro neste momento.

As mulheres brasileiras, principalmente as mulheres negras e indígenas, ainda precisam avançar muito na ocupação dos espaços políticos, seja em espaços do movimento social ou na política institucional. Porém não podemos apresentar o debate político dos desafios do movimento feminista brasileiro esquecendo do que nos trouxe até aqui, seja os árduos debates realizados nos dois congressos de mulheres que aconteceram em São Paulo ainda durante o período militar e que ajudaram a organizar a intervenção do movimento no processo de luta pela reabertura política do Brasil. Tão pouco podemos deixar de lado a campanha “Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher” e a organização da bancada do batom – a época constituída pelas poucas deputadas constituintes eleitas e muitas delas feministas e organizadas em partidos da esquerda.

Cito principalmente estes dois marcos por acreditar que também reverberam um processo de organização e discussão do feminismo em direta relação a mudança estrutural da sociedade que devemos reivindicar. Tarefa esta que se mantém atual, a construção de posições contundentes a cerca de temas da conjuntura política que afetam a vida das mulheres brasileiras é fundamental. Sem isso não há como ampliar o processo de desconstrução do patriarcado no Brasil e ajudar a avançar a luta também do ponto de vista internacional.

Angela: feminista, antivista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

Angela: feminista, ativista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

É um mérito da #partidA apresentar o debate do método do fazer político, porém apenas o debate do método de fazer política, sem que haja a construção de uma formulação programática que pense as estruturas entrelaçadas do patriarcado, racismo e capitalismo em nosso país e como isso se imbrica em diversas esferas da sociedade: da política institucional a organização dos movimentos sociais.

Se faz necessária cada vez mais a criação de espaços para estimular o debate político, não apenas o debate de método. Pois é na política que avança o recrudescimento conservador em cima de nossas vidas, ou seja, é preciso para além de falar de uma ferramenta ético-política feminista é necessário localizar ela em nossa conjuntura de modo que ajude a intensificar e aprofundar o processo de disputa ideológica e de poder que está colocado. Ora, do que nos adianta debater o método da política se não se debate a terceirização e seu significado para as mulheres? Ou o fato do financiamento privado de campanha beneficiar principalmente os homens brancos cis e heteros? A redução da maioridade penal que tem direta relação com a questão de revista vexatória de milhares de mulheres negras e indígenas? Os ataques pelo país contra os planos municipais e estaduais de educação por conta da questão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual? O silêncio nestes temas apenas ajuda a uma coisa: a perpetuação de um status quo que necessita manter o patriarcado, o racismo e o capitalismo para se perpetuar e continuar o processo de exclusão social e opressão.

Para além da questão de um certo apagamento histórico que acabo vendo nos textos e entrevistas da Márcia Tiburi sobre a #partidA – isso me remete as piores tradições da história política mundial, pois ignorar a história não é base para qualquer projeto de radicalidade democrática – e a ausência de posicionamentos políticos sobre questões fundamentais para a vida das mulheres brasileiras que hoje estão em debate na sociedade, há também uma questão de estratégia e concepção partidária que é preciso se debater de forma fraterna, até por que normalmente a discussão estratégica e de concepção na política é um lugar de formulação masculina.

233_Constituinte_6070A que serve a ferramenta partidária (legalizada ou não)? Esse não é um debate novo de estratégia ou concepção, na verdade é bem antigo e nele me agarro na formulação apresentada pela Rosa Luxemburgo – uma das poucas mulheres dirigentes políticas do que viria a ser o Partido Comunista alemão no começo do século XX – de que a ferramenta partidária não pode ter um fim em si mesmo e também não olhar para reformas sociais como se apenas elas e o estar no governo pudessem resolver as contradições e conseguir modificar radicalmente a sociedade. Não podemos ser positivistas quando se trata da emancipação das mulheres, negres, LGBTs e trabalhadores em geral, o positivismo apenas ajuda na manutenção da estrutura social que aí está como se não houvesse disputa política e construção de forças sociais que fazem essa disputa.

O governar e a potência como estratégia não tem como nos servir nas tarefas gigantes impostas pela sociedade patriarcal, racista e capitalista que vivemos. Até por que o momento político atual de implementação do começo da austeridade em nosso país nos demonstram que o apenas governar sem romper com paradigmas que estruturam o patriarcado, racismo e capitalismo é equivocado.

Precisamos voltar a construir espaços de movimento que reúnam das feministas partidárias até as independentes, para formularmos um programa de intervenção mínima na política brasileira de um feminismo que olhe e dialogue profundamente com a luta antirracista e dos trabalhadores. Espaços que nos possibilitem conquistar mais espaços na sociedade e não nos releguem aos guetos onde falamos de nós pra nós mesmas e que, sobretudo, enfrentem de forma contundente o processo de fragmentação política que hoje enfrentamos no Brasil que só fortalece a burguesia e o conservadorismo. É na reconstrução contundente de um movimento feminista plural de organizações e posicionamentos políticos que precisamos investir, e não sair pelo caminho mais fácil negando o que foi construído historicamente até esse momento em um projeto que apenas tem uma capa bonita, mas com pouca sustância política e ideológica.

Outras posições no debate:

[+] A #partidA: uma aventura feminista na política nada tradicional

[+] partidA

 

 

Facebooktwittergoogle_plustumblrmailby feather

Reserva de vagas na Câmara dos Deputados é vitória, mas 10% é escárnio

Machismo

Atualização 18/6: A emenda acabou por não ser aprovada, porém isso não retira o fato de que Eduardo Cunha operou para que a luta das mulheres por mais espaço na política fosse dinamitada e a Bancada Feminina abaixou a cabeça quando apresentou a proposta de 10%.

A luta para ampliar o espaço político das mulheres não é recente, ao longo da história a dificuldade das mulheres em ocupar espaços políticos é notória. Tal dificuldade se reflete em diversas formas de ação política que o movimento de mulheres adotou para garantir o seu espaço na esfera pública de debate. Fosse com a criação de sindicatos femininos durante a revolução industrial para que nossas demandas trabalhistas fossem apresentadas ao invés de descartadas pelas direções dos sindicatos masculinos, fosse a garantia do direito ao voto e participação política de forma mais universal possível.

A conquista e a garantia de nossos direitos políticos ao longo dos anos é fatiada de acordo com o interesse patriarcal, racista e capitalista. A aprovação ontem de uma proposta recuada da necessária reserva de vagas na Câmara dos Deputados é uma boa expressão do quanto nossos direitos são garantidos nas migalhas, com uma dificuldade de construção de articulação com a complexidade do que é ser 52% da população brasileira.

A extensão do direito a todas as mulheres se deu dois anos depois, em 1934, porém seu exercício manteve-se facultativo até 1946. Aliás, quando dizemos “todas”, queremos dizer todas dentre a reduzida parcela letrada da população. Analfabetas e analfabetos somente conquistaram o direito ao voto em 1985 através de emenda constitucional, posteriormente assegurado pela constituição de 1988. (Entre o direito ao voto e a conquista do espaço público)

A votação realizada ontem que institui a reserva de vagas para parlamentares femininas na Câmara dos Deputados é uma demanda antiga do movimento feminista para o aumento da participação política das mulheres. A questão é que mais uma vez nossa vitória vem por migalhas. Em 2014 conquistamos na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal a vitória de ter 50% das vagas de parlamentares da Câmara dos Deputados para mulheres. A condição de disputa eleitoral entre mulheres e homens, negres e branques, heteros e homos, cis e trans são substancialmente diferentes, principalmente por conta da construção social que marginaliza todos aqueles que não se adequa ao padrão do macho branco hetero e cis que é necessário para ocupar os espaços de decisão política na sociedade.

mulheres-politicaA diferença de condições de disputa entre os setores marginalizados e setores que permanecem nos espaços de decisão política por décadas são abissais. Mulheres e negros tem menor acesso a financiamento na forma em que foi mantida pela Câmara dos Deputados na última semana, e esse fato é apontado por dados da Justiça Eleitoral com base no último pleito enfrentado em nosso país.

Apesar de termos aprovado um mecanismo que avança reconhecendo as diferenças entre mulheres e homens na disputa política, ao mesmo tempo ajuda a permanecer tudo como está. A aprovação de que a reserva de vagas para parlamentares femininos na próxima eleição seja de apenas 10%, ou seja, nenhum aumento real do que existe hoje. A realidade é que a Bancada Feminina recuou da posição que havia apresentado a Eduardo Cunha Underwood.

Somos mais de 52% da população, atualmente 10% da Câmara Federal e 17% do Senado Federal e consideramos que não haverá uma verdadeira reforma política sem a reserva de 30% das vagas nos Parlamentos para as mulheres. (Documento da Bancada Feminina do Congresso Nacional apresentado a Eduardo Cunha)

A imposição de Eduardo Cunha sobre a matéria e o imenso recuo da Bancada Feminina escarnece toda nossa trajetória de luta para ocupar os espaços da política, seja a articulação da Bancada do Batom e da campanha Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher até a conquista da cota de 30% nas legendas partidárias e a garantia da paridade de gênero em diversas organizações políticas e todo o debate que acumulamos sobre participação política das mulheres em Seminário realizado em 2011 no Senado Federal.

composicao-camara

A votação de um percentual que apenas mantém as coisas como elas estão na Câmara dos Deputados, sem ao menos debater também a representação feminina em outras casas legislativas, referenda o quanto a contra-reforma política apresentada por Eduardo Cunha não pretende modificar nada na política brasileira, é apenas uma maneira simpática de dizer que as coisas continuarão como devem ser: Com homens, ricos, brancos, heterossexuais e cisgêneros loteando e negociando nossos direitos como bem entendem.

Facebooktwittergoogle_plustumblrmailby feather

Haitianos e dominicanos: A nefasta face da xenofobia e racismo na América Latina

Infográfico do NYT

Infográfico do NYT

Impasse entre a República Dominicana e o Haiti não é algo novo na história da América Latina. Em 1937, o ditador dominicano Rafael Leonidas Trujillo Molina deu ordem para suas tropas matarem todos os haitianos que viviam na República Dominicana, o massacre matou no mínimo 12 mil haitianos radicados na República Dominicana. Porém, a xenofobia e o racismo contra os haitianos na República Dominicana tem voltado com força no último período.

Entre 02 de outubro e 08 de outubro, centenas de soldados dominicanos fizeram varredura de uma vasta região, e, com a ajuda de alcaides pedáneos (autoridades políticas submunicipais) e alguns reservas civis, arredondado para cima 15 mil haitianos foram abatidos com facão. Os mortos nesta operação – ainda frequentemente chamada de El Corte (o corte) pelos dominicanos e de kout kouto-a (o esfaqueamento) pelos haitianos – eram em sua maioria pequenos agricultores, muitos dos quais tinham nascido na República Dominicana (e, portanto, eram cidadãos dominicanos de acordo com a constituição do país) e alguns cujas famílias viviam na República Dominicana por gerações. Os haitianos foram mortos mesmo quando tentavam fugir para o Haiti atravessando o rio que divide os dois país, por conta disso o rio é conhecido como Massacre River. Depois dos primeiros dias do abate, o posto de controle oficial e ponte entre o Haiti ea República Dominicana foram fechados, impedindo a fuga dos haitianos. Nas semanas seguintes, os sacerdotes locais e funcionários no Haiti registraram testemunhos de refugiados e compilaram uma lista que, finalmente, enumerou 12.168 vítimas. Posteriormente, durante o primeiro semestre de 1938, mais milhares de haitianos foram deportados à força e centenas mortos na região de fronteira do sul. (A World Destroyed, A Nation Imposed: The 1937 Haitian Massacre in the Dominican Republic)

Essa semana foi divulgado vídeo em que uma mulher haitiana é atirada no chão e um outro rapaz haitiano tem seus dreads cortados. As cenas são violentas e demonstram o quanto a lembrança do “Massacre de 1937” é muito presente no imaginário de dominicanos e descentes de haitianos na República Dominicana, um dado que salta os olhos para quem está acostumado a pensar a ação de grupos nazifascistas (majoritariamente caucasianos) no Brasil e na Europa que oprimem, violentam e matam negres, nordestines, nortistas, árabes e afins é o fato dos dos agressores que aparecem no vídeo nem de longe serem brancos. Inclusive, 11% da população dominicana é considerada negra e a maioria destas pessoas é considerada de origem haitiana.

Para além do vídeo divulgado esta semana, em fevereiro deste ano um haitiano foi linchado na República Dominicana e na mesma semana em que Tulile foi morto uma bandeira haitiana foi queimada por dominicanos em Santigo, a segunda maior cidade do país. Nas ruas de Santo Domingo, capital do país, também pode se encontrar pichações pedindo para que os haitianos saiam da República Dominicana.

Dos 9 milhões de pessoas que moram na República Dominicana, 500 mil são consideradas haitianas ou dominicanas com ascendência haitiana. E não apenas da xenofobia espalhada pelo imaginário coletivo dominicano atinge os haitianos e dominicanos descendentes de hatianos. Na verdade, a própria República Dominicana vem aplicando desde 2006 um processo de racismo institucional contra haitianos e dominicanos descendentes de haitianos. A população haitiana no país muitas vezes tem negadas suas certidões de nascimento e outros documentos necessários para registrar a cidadania na República Dominicana. Para corroborar com o racismo institucional perpetrado pelo governo dominicano, em 2013, a Suprema Corte Dominicana definiu que todos os haitianos na República Dominicana que não possuem documentação são desterrados e “em trânsito”. Tal política institucional abre uma vasta via para toda violência que hoje o povo haitiano radicado em território dominicano tem sofrido.

Manifestantes denunciam o estado racista da República Dominicana. Fonte:AP Photo/Dieu Nalio Chery

Manifestantes denunciam o estado racista da República Dominicana. Fonte:AP Photo/Dieu Nalio Chery

A situação de haitianos na República Dominicana não se difere da relação estabelecida entre Europa e países africanos. Em ambos os casos os setores mais vitimizados são aqueles usados como mão-de-obra barata. Óbvio que quando a economia dominicana cresce de forma satisfatória garantindo bem-estar econômico para os dominicanos os haitianos são tolerados no país, porém com o cenário de crise que se desenha no mundo e vem atingindo a República Dominicana o “sentimento” anti-haitiano” cotidiano entre dominicanos ganha mais força, a violência se aprofunda, inclusive fazendo o governo avançar numa possível política de deportação em junho de 2015.

Fonte: Socialist Action

Fonte: Socialist Action

O cenário de violência sofrida pelo povo haitiano ao longo das décadas na República Dominicana é um reflexo complexo de como países que muitas vezes sofrem com as imposições de países como a Europa e EUA. Muitas das violências sofridas pelos haitianos na República Dominicana são os mesmos que imigrantes latinos e negros sofrem nos Estados Unidos, com o advento da crise econômica que vem obrigando ajustes fiscais e planos de austeridades em diversos países populações que historicamente ocupam os lugares de párias sociais onde for tendem a virar alvo de violências mais atrozes ainda. É sempre necessário um bode-expiatório para justificar cortes de direitos e arrojos que ajudam a beneficiar empresas, burguesia e afins. Normalmente estes bode-expiatórios são quem mais precisa de proteção social e não violência social.

 

Facebooktwittergoogle_plustumblrmailby feather

Paraná e Cracolândia: as duas faces da truculência policial e a indignação seletiva racista

A truculência policial para conter manifestações e organização de movimentos sociais não é algo novo no cenário político brasileiro. As cenas do ataque promovido pela PM-PR contra os professores que se manifestavam contra a modificação na ParanáPrevidência, dando assim direito ao governo de Beto Richa (PSDB) de mexer na previdência do funcionalismo público paranaense, demonstram o grau da barbárie que vivemos cotidianamente em nosso país. Os feridos, o sangue e a fumaça branca das bombas são elementos de uma cena que conhecemos bem e voltou a tomar conta do imaginário político brasileiro de forma massiva de 2013 pra cá.

A truculência policial comandada pela PM e pelo governo Richa contra os professores paranaenses deve ser denunciada de forma categórica, não podemos deixar que mais uma vez as imagens da violência e da barbárie caiam no esquecimento. Porém no mesmo momento em que os professores paranaenses faziam história também acontecia operação de reintegração de posse na Cracolândia, mais uma de várias que vem acontecendo no último período. Também houve tiro, porrada e bomba, mas o destaque para mais essa violação sistemática que os usuários da Cracolândia sofrem recebeu bem menos comoção e indignação.

No entanto, à medida em que as bombas, os cães, as balas de borracha e os cassetetes caíam sobre os manifestantes armados apenas com gritos e palavras de ordem, deputados preocupados com a onda de violência que se desenrolava na praça principal, em frente a Assembleia, batizada de Nossa Senhora da Salete (trágica ironia), chegaram a sair do prédio para pedir calma aos policiais. (Paraná em chamas)

A truculência policial contra os professores paranaenses e contra os usuários da Cracolândia partem da mesma raiz: a criminalização e marginalização daqueles que devem ficar quietos e aceitar de bom grado a violência estatal. Foram mais de 200 feridos no ataque truculento da PM-PR, 8 estão em estado grave, na Cracolândia 2 pessoas foram baleadas. Infelizmente o racismo estrutural ajuda na invisibilização do que aconteceu na Cracolândia, até por que o alvo em São Paulo eram pretos, pobres e usuários de crack, para estes a truculência policial é até compreensível.

Em ambos os casos a grande mídia fala em confronto. No Paraná o confronto era de bombas e balas de borracha de um lado e cartazes do outro, em São Paulo o confronto era entre balas de verdade e pedaços de madeira. No Paraná o algoz é o governo do estado, em São Paulo a operação tem a assinatura da prefeitura. Não há outro nome para a pouca repercussão do que aconteceu na Cracolândia em São Paulo: indignação seletiva e racista. A vida do usuário que morava nos barracos derrubados pela GCM e PM-SP vale menos aos nossos olhos do que a dos professores paranaenses.

A questão básica é que não dá para termos indignação seletiva neste momento de escalada da truculência policial apoiada profundamente pela direita brasileira. Como já dito, a raiz dos dois ataques é a mesma: Os invisíveis devem permanecer calados e aceitar o desmonte de suas vidas sem dar um pio. Essa premissa deve ser repudiada pelos movimentos sociais de conjunto, os governos e a polícia não tem o direito de aprofundar uma guerra contra a sua própria população, seja motivada pela guerra às drogas, seja motivada pela repressão política.

Os movimento sociais não podem ser coniventes com o racismo institucional, assim como não podem ser coniventes com o machismo e a repressão política. O dia 29 de abril de 2015 fica marcada pela urgência de se modificar profundamente o projeto de segurança pública que temos no Brasil, a Cracolândia e o Paraná são duas faces da mesma moeda. A moeda da guerra estabelecida contra a população brasileira, onde a bala, a bomba e a truculência são ferramentas aceitáveis para conter os indesejáveis, as mulheres, os pretos e os invisíveis.

É, a paciência é paulatinamente perdida em diversos cantos e de diversas formas diferentes em nosso país.

Facebooktwittergoogle_plustumblrmailby feather

Xuxa, combate ao racismo e 4 gerações de paquitas brancas

Xuxa

Fonte: Equipe X

Aí tu acordas, leva a filha na escola e dá uma olhada na TL do feice e te deparas com uma postagem da Winnie criticando a participação da Xuxa em uma campanha de combate ao racismo promovida pela prefeitura do Rio de Janeiro. A campanha, inicialmente, foi organizada pela Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual para promover o debate sobre a homolesbotransfobia na cidade e conta com imagens de diversas pessoas famosas usando a camiseta da campanha. Dá para ver as imagens da campanha aqui.

Fonte: Divulgação. A única paquita negra em algum programa da Xuxa foi Natasha Pearce nos EUA

Fonte: Divulgação. A única paquita negra em algum programa da Xuxa foi Natasha Pearce nos EUA

Poderia passar despercebido, se não fosse o fato de que, no Brasil, os programas da Xuxa nunca contaram com uma paquita negra, como bem lembrou a Winnie. O questionamento sobre não haver paquitas negras em diversos programas feitos pela “Rainha dos Baixinhos” não são novos.

Em março de 2014, durante uma conversa de 2 horas no YouTube com fãs, Xuxa saiu pela tangente quando perguntada pelo assunto: “É bom você perguntar pra diretora da época”. Em outra conversa realizada com fãs no Facebook em julho do mesmo ano a apresentadora se deteve a dizer que atualmente não existem mais paquitas em seu programa.

Fonte: Divulgação. 1ª geração de paquitas.

Fonte: Divulgação. 1ª geração de paquitas.

A questão básica é que Xuxa é o marco de toda uma geração. Uma geração que tinha como principal referência de padrão de beleza e sucesso as assistentes da Rainha dos Baixinhos: loiras, brancas e magras. É óbvio que a falta de referência estética em programas de TV não é a única causa do processo de detonação de autoestima de crianças negras, gordas e indígenas em nosso país durante os anos 80, 90 e começo dos anos 2000. Porém, é inegável o quanto a falta de referências ajuda também a esmigalhar a autoestima de toda uma população e a construção tradicional.

Esse processo, inclusive, se refletiu na escolha de paquitas de 1995. Michele Martins passou por diversas etapas da seleção de paquitas daquele ano e em entrevista ao Mauricio Stycer, na época repórter da Folha de São Paulo, disse

Fonte: Divulgação. 2ª geração de paquitas.

Fonte: Divulgação. 2ª geração de paquitas.

acreditar que só não havia uma paquita negra até aquele momento por falta de iniciativa das meninas negras brasileiras. Bom lembrar que Martins não estava na geração de paquitas de 1995 e esse processo de nós mesmas nos culparmos por algo que, infelizmente, não está em nossas mãos só aprofunda a perversidade do racismo para as mulheres e crianças. Passarmos pelo processo de nos culpar por não ter as “qualidades” necessárias só ajuda no processo de quebra da nossa auto-estima. Digo isso por que tal postura ignora toda uma construção histórica que se ignora as diferenças estéticas negras. Nossa representação ao longo das décadas é a do exotismo, da hiper-sexualização e desumanização.

No fim dos anos 90, teve uma seleção para escolher as novas Paquitas. Eu perguntei a minha mãe por que entre elas não havia nenhuma igual a mim. Ainda não entendia conceitos étnicos. Eu só sabia que nunca me enquadraria no padrão necessário. Aquele foi um dia realmente traumático. (Xuxa E As Paquitas: Quando Eu Descobri O Racismo!)

Fonte: Divulgação. 3ª geração de paquitas.

Fonte: Divulgação. 3ª geração de paquitas.

É hipocrisia da Xuxa em dizer que é aliada da luta contra o racismo quando passou décadas reforçando um padrão de beleza excludente para o grosso das meninas do Brasil. Essa é a premissa básica. Mas sempre vem aqueles que lembram dela ter namorado Pelé e que a Adriana Bombom era paquita. Primeiro é importante lembrar o papel de subserviência ao sistema racista que Pelé protagonizou ao longo de tantos anos, além do fato de que ter um relacionamento amoroso com uma pessoa negra, indígena ou árabe não livra o indivíduo do racismo estrutural que forma a sociedade e de perpetuá-lo cotidianamente.

Cores e Botas (Colors & Boots) de Preta Portê Filmes.

Sobre a Adriana Bombom. Primeiro que ela só apareceu quando Xuxa organizou o “Planeta Xuxa”. Até então já havia acontecido os programas: Xou da Xuxa, Xuxa Star, Paradão da Xuxa, Programa Xuxa, Xuxa Park e Xuxa Hits. Todos eles com a participação de assistentes de palco, todas as paquitas no mesmo padrão de beleza caucasiano que é usado para embranquecer ideologicamente o Brasil.

Fonte: Divulgação. 4ª geração de paquitas e Adriana Bombom com figurinos diferentes.

Fonte: Divulgação. 4ª geração de paquitas e Adriana Bombom com figurinos diferentes.

Outra coisa importante de lembrar é que Adriana Bombom nunca foi paquita. E suas aparições no “Planeta Xuxa” seguiam justamente a toada da hipersexualização e exotismo. Aquele espaço bem garantido às mulheres negras na mídia brasileira: o de ser o maior objeto a ser consumido.

Nas raras ocasiões em que a sociedade expressa algum desejo por mulheres negras, é quase sempre pela ideia de que a mulher negra é um “sabor diferente” e “mais apimentado” de mulher. O corpo feminino negro é hipersexualizado, considerado exótico e pecaminoso. Quem nunca ouviu falar que a mulher negra tem a “cor do pecado”? Essa é a brecha que sobrou para que o racismo continue a ser imposto às mulheres negras: a dicotomia do gostoso, exótico e diferente, mas que ao mesmo tempo é proibido, impensável, pecaminoso e não serve para o matrimônio ou monogamia. (A objetificação e hipersexualização da mulher negra)

Não há como se colocar como aliada em uma luta contra a opressão, levanto em conta que não há nenhuma declaração, nenhum vestígio de reconhecimento de que ao longo de 20 anos seus programas e a forma de escolha de suas assistentes de palco ajudaram a manter o círculo vicioso do racismo estrutural brasileiro – acredito que não só brasileiro, pois na Argentina não havia paquitas negras também. É o básico de quem se pretende aliado a uma luta contra opressão estrutural e específica, reconhecer suas limitações, reconhecer seus erros, principalmente, quando tratamos de pessoas tidas como referência de opinião pública e diretamente relacionadas a construção de um imaginário coletivo junto a toda uma geração de crianças que não eram retratadas no elenco de seus programas. É por estas questões que a Xuxa se colocar como aliada da luta contra o racismo é hipócrita.

Facebooktwittergoogle_plustumblrmailby feather
No more posts.