Seria a #partidA uma alternativa política viável?

A discussão política no Brasil ganhou novas dimensões, o mesmo podemos falar do debate feminista que aos poucos ganha fôlego no último período em nosso país. A demanda por espaços para debater a política, a situação das mulheres, negres, LGBTs e juventude em nosso país existe e não é algo que deva ser ignorado. Pontuo a existência desta necessidade para entrar em um debate importante para o movimento feminista, mas que é espinhoso e delicado: a criação da #partidA feminista.
composicao-camaraPara não dar uma de impressionista fui ler as premissas e o que defende a principal porta-voz da iniciativa e algumas luzes vermelhas de questionamento me surgiram e não aqueles questionamentos mais cereja do bolo, mas sim questionamentos estratégicos seja pra dissolução do patriarcado e mudança estrutural profunda da sociedade. Por este motivo resolvi sentar e escrever em cima daquilo que li no último período, saliento que respeito diversas companheiras que estão no esforço de construção da #partidA e por isso abro esse debate fraterno para refletirmos sobre quais as tarefas colocadas para o movimento feminista brasileiro neste momento.

As mulheres brasileiras, principalmente as mulheres negras e indígenas, ainda precisam avançar muito na ocupação dos espaços políticos, seja em espaços do movimento social ou na política institucional. Porém não podemos apresentar o debate político dos desafios do movimento feminista brasileiro esquecendo do que nos trouxe até aqui, seja os árduos debates realizados nos dois congressos de mulheres que aconteceram em São Paulo ainda durante o período militar e que ajudaram a organizar a intervenção do movimento no processo de luta pela reabertura política do Brasil. Tão pouco podemos deixar de lado a campanha “Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher” e a organização da bancada do batom – a época constituída pelas poucas deputadas constituintes eleitas e muitas delas feministas e organizadas em partidos da esquerda.

Cito principalmente estes dois marcos por acreditar que também reverberam um processo de organização e discussão do feminismo em direta relação a mudança estrutural da sociedade que devemos reivindicar. Tarefa esta que se mantém atual, a construção de posições contundentes a cerca de temas da conjuntura política que afetam a vida das mulheres brasileiras é fundamental. Sem isso não há como ampliar o processo de desconstrução do patriarcado no Brasil e ajudar a avançar a luta também do ponto de vista internacional.

Angela: feminista, antivista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

Angela: feminista, ativista do movimento negro e 1ª mulher a ser candidata a vice-presidente nos EUA pelo PC estado-unidense

É um mérito da #partidA apresentar o debate do método do fazer político, porém apenas o debate do método de fazer política, sem que haja a construção de uma formulação programática que pense as estruturas entrelaçadas do patriarcado, racismo e capitalismo em nosso país e como isso se imbrica em diversas esferas da sociedade: da política institucional a organização dos movimentos sociais.

Se faz necessária cada vez mais a criação de espaços para estimular o debate político, não apenas o debate de método. Pois é na política que avança o recrudescimento conservador em cima de nossas vidas, ou seja, é preciso para além de falar de uma ferramenta ético-política feminista é necessário localizar ela em nossa conjuntura de modo que ajude a intensificar e aprofundar o processo de disputa ideológica e de poder que está colocado. Ora, do que nos adianta debater o método da política se não se debate a terceirização e seu significado para as mulheres? Ou o fato do financiamento privado de campanha beneficiar principalmente os homens brancos cis e heteros? A redução da maioridade penal que tem direta relação com a questão de revista vexatória de milhares de mulheres negras e indígenas? Os ataques pelo país contra os planos municipais e estaduais de educação por conta da questão de gênero, identidade de gênero e orientação sexual? O silêncio nestes temas apenas ajuda a uma coisa: a perpetuação de um status quo que necessita manter o patriarcado, o racismo e o capitalismo para se perpetuar e continuar o processo de exclusão social e opressão.

Para além da questão de um certo apagamento histórico que acabo vendo nos textos e entrevistas da Márcia Tiburi sobre a #partidA – isso me remete as piores tradições da história política mundial, pois ignorar a história não é base para qualquer projeto de radicalidade democrática – e a ausência de posicionamentos políticos sobre questões fundamentais para a vida das mulheres brasileiras que hoje estão em debate na sociedade, há também uma questão de estratégia e concepção partidária que é preciso se debater de forma fraterna, até por que normalmente a discussão estratégica e de concepção na política é um lugar de formulação masculina.

233_Constituinte_6070A que serve a ferramenta partidária (legalizada ou não)? Esse não é um debate novo de estratégia ou concepção, na verdade é bem antigo e nele me agarro na formulação apresentada pela Rosa Luxemburgo – uma das poucas mulheres dirigentes políticas do que viria a ser o Partido Comunista alemão no começo do século XX – de que a ferramenta partidária não pode ter um fim em si mesmo e também não olhar para reformas sociais como se apenas elas e o estar no governo pudessem resolver as contradições e conseguir modificar radicalmente a sociedade. Não podemos ser positivistas quando se trata da emancipação das mulheres, negres, LGBTs e trabalhadores em geral, o positivismo apenas ajuda na manutenção da estrutura social que aí está como se não houvesse disputa política e construção de forças sociais que fazem essa disputa.

O governar e a potência como estratégia não tem como nos servir nas tarefas gigantes impostas pela sociedade patriarcal, racista e capitalista que vivemos. Até por que o momento político atual de implementação do começo da austeridade em nosso país nos demonstram que o apenas governar sem romper com paradigmas que estruturam o patriarcado, racismo e capitalismo é equivocado.

Precisamos voltar a construir espaços de movimento que reúnam das feministas partidárias até as independentes, para formularmos um programa de intervenção mínima na política brasileira de um feminismo que olhe e dialogue profundamente com a luta antirracista e dos trabalhadores. Espaços que nos possibilitem conquistar mais espaços na sociedade e não nos releguem aos guetos onde falamos de nós pra nós mesmas e que, sobretudo, enfrentem de forma contundente o processo de fragmentação política que hoje enfrentamos no Brasil que só fortalece a burguesia e o conservadorismo. É na reconstrução contundente de um movimento feminista plural de organizações e posicionamentos políticos que precisamos investir, e não sair pelo caminho mais fácil negando o que foi construído historicamente até esse momento em um projeto que apenas tem uma capa bonita, mas com pouca sustância política e ideológica.

Outras posições no debate:

[+] A #partidA: uma aventura feminista na política nada tradicional

[+] partidA

 

 

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Reserva de vagas na Câmara dos Deputados é vitória, mas 10% é escárnio

Machismo

Atualização 18/6: A emenda acabou por não ser aprovada, porém isso não retira o fato de que Eduardo Cunha operou para que a luta das mulheres por mais espaço na política fosse dinamitada e a Bancada Feminina abaixou a cabeça quando apresentou a proposta de 10%.

A luta para ampliar o espaço político das mulheres não é recente, ao longo da história a dificuldade das mulheres em ocupar espaços políticos é notória. Tal dificuldade se reflete em diversas formas de ação política que o movimento de mulheres adotou para garantir o seu espaço na esfera pública de debate. Fosse com a criação de sindicatos femininos durante a revolução industrial para que nossas demandas trabalhistas fossem apresentadas ao invés de descartadas pelas direções dos sindicatos masculinos, fosse a garantia do direito ao voto e participação política de forma mais universal possível.

A conquista e a garantia de nossos direitos políticos ao longo dos anos é fatiada de acordo com o interesse patriarcal, racista e capitalista. A aprovação ontem de uma proposta recuada da necessária reserva de vagas na Câmara dos Deputados é uma boa expressão do quanto nossos direitos são garantidos nas migalhas, com uma dificuldade de construção de articulação com a complexidade do que é ser 52% da população brasileira.

A extensão do direito a todas as mulheres se deu dois anos depois, em 1934, porém seu exercício manteve-se facultativo até 1946. Aliás, quando dizemos “todas”, queremos dizer todas dentre a reduzida parcela letrada da população. Analfabetas e analfabetos somente conquistaram o direito ao voto em 1985 através de emenda constitucional, posteriormente assegurado pela constituição de 1988. (Entre o direito ao voto e a conquista do espaço público)

A votação realizada ontem que institui a reserva de vagas para parlamentares femininas na Câmara dos Deputados é uma demanda antiga do movimento feminista para o aumento da participação política das mulheres. A questão é que mais uma vez nossa vitória vem por migalhas. Em 2014 conquistamos na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal a vitória de ter 50% das vagas de parlamentares da Câmara dos Deputados para mulheres. A condição de disputa eleitoral entre mulheres e homens, negres e branques, heteros e homos, cis e trans são substancialmente diferentes, principalmente por conta da construção social que marginaliza todos aqueles que não se adequa ao padrão do macho branco hetero e cis que é necessário para ocupar os espaços de decisão política na sociedade.

mulheres-politicaA diferença de condições de disputa entre os setores marginalizados e setores que permanecem nos espaços de decisão política por décadas são abissais. Mulheres e negros tem menor acesso a financiamento na forma em que foi mantida pela Câmara dos Deputados na última semana, e esse fato é apontado por dados da Justiça Eleitoral com base no último pleito enfrentado em nosso país.

Apesar de termos aprovado um mecanismo que avança reconhecendo as diferenças entre mulheres e homens na disputa política, ao mesmo tempo ajuda a permanecer tudo como está. A aprovação de que a reserva de vagas para parlamentares femininos na próxima eleição seja de apenas 10%, ou seja, nenhum aumento real do que existe hoje. A realidade é que a Bancada Feminina recuou da posição que havia apresentado a Eduardo Cunha Underwood.

Somos mais de 52% da população, atualmente 10% da Câmara Federal e 17% do Senado Federal e consideramos que não haverá uma verdadeira reforma política sem a reserva de 30% das vagas nos Parlamentos para as mulheres. (Documento da Bancada Feminina do Congresso Nacional apresentado a Eduardo Cunha)

A imposição de Eduardo Cunha sobre a matéria e o imenso recuo da Bancada Feminina escarnece toda nossa trajetória de luta para ocupar os espaços da política, seja a articulação da Bancada do Batom e da campanha Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher até a conquista da cota de 30% nas legendas partidárias e a garantia da paridade de gênero em diversas organizações políticas e todo o debate que acumulamos sobre participação política das mulheres em Seminário realizado em 2011 no Senado Federal.

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A votação de um percentual que apenas mantém as coisas como elas estão na Câmara dos Deputados, sem ao menos debater também a representação feminina em outras casas legislativas, referenda o quanto a contra-reforma política apresentada por Eduardo Cunha não pretende modificar nada na política brasileira, é apenas uma maneira simpática de dizer que as coisas continuarão como devem ser: Com homens, ricos, brancos, heterossexuais e cisgêneros loteando e negociando nossos direitos como bem entendem.

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Spock pela diversidade em Star Trek

Nimoy_TakeiFazia muito tempo que não acessava o Democracy Now! E hoje quando fui ver o último programa me deparei com uma declaração bem bacana do George Takei – aos que não são geeks de plantão ele interpretou o Sulu em Star Trek por muitos anos – sobre a consciência que Leonard Nimoy – sim, o querido, o amado Sr. Spock que faleceu agora em fevereiro – tinha sobre inclusão e diversidade.

Quando Amy Goodman perguntou nesta sexta-feira (03/04) sobre a importância que Nimoy teve dentro do processo de Takei de inclusão no programa, o Sr. Sulu lembrou de quando começaram a produção da animação de Star Trek nos anos 70 Nimoy foi um dos primeiros a defender que a voz feminina que deveria dublar as mulheres da série de animação deveria ser a de Nichelle Nichols – a primeira Uhura – e George Takei.

Leonard foi uma pessoa extraordinária, além de ser ator brilhante e talentoso, ele era socialmente consciente. Por exemplo, quando “Star Trek” tornou-se uma série de animação, eles [os produtores] tinham um orçamento muito limitado. E assim, contrataram apenas Leonard, William Shatner, Jimmy Doohan, e Majel Barrett, para fazer as vozes de seus personagens e todas as outras vozes. Majel fez as vozes femininas, os outros fizeram as vozes masculinas. Mas, quando Leonard descobriu sobre isso, ele disse, este show é sobre diversidade. As duas pessoas que devem representar a diversidade são Nichelle Nichols que fez Uhura e George Takei que interpretou Sulu. E se eles não podem fazer parte deste show, então eu não estou interessado em fazê-lo. E ainda disse que se afastaria do show. Esse foi um ato muito raro, se afastar de um trabalho. Poucos atores fariam isso. Leonard fez isso. Ele era um bom amigo e solidário por toda parte. E nós tivemos um elenco diversificado. Ele nos abraçou e nós o abraçamos. Fomos gratos. Bem, eu o considerava um bom amigo. Veio para toda as peças de teatro que eu fiz, e foi aos bastidores para me dizer o que pensava. Ele era um grande cara. E representava o melhor de uma sociedade norte-americana inclusiva. (Star Trek’s George Takei on Leonard Nimoy: He Represented the Best of an Inclusive American Society)

O fato de alguém se solidarizar às minorias sociais de forma a largar um trabalho e indicar que não são brancos ou heteros dublando ou sendo protagonistas em filmes ou animações é algo raro. É efetivamente o lugar de aliado a luta na qual quem realmente é sujeito daquele embate seja protagonista e sem silenciamento.

Já gostava do Nimoy só por causa do Sr Spock, mas depois dessa história contata pelo George Takei fiquei feliz em ver que há gente no mundo do entretenimento que olha ao seu redor realmente.

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Como é ser mãe solteira?

Faz alguns dias que um amigo me fez essa pergunta. Não é uma indagação de hoje na minha vida, é uma pergunta cotidiana que me faço desde que descobri a pixote dentro da minha barriga e decidi por tê-la. Uma das primeiras coisas que me fez pensar é que ser mãe solteira nada mais é a concretização do que é ser mãe cotidianamente.

FloripaProcurei por dados mais oficiais sobre a realidade das mães solteiras em nosso país, porém não encontrei. Há levantamentos do IBGE em 2009, entre as famílias com filhos, apontam 26% tem como referência alguém do sexo feminino e sem cônjuge.  Além disso em 2012 o IBGE divulgou que 37,3% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres, levando em conta esses parcos dados é possível compreender por cima que para parte das mulheres brasileiras ser mãe é ser mãe solteira.

Digo que ser mãe solteira é a concretização do que é ser mãe cotidianamente para refletirmos o quanto os papéis da divisão sexual do trabalho estão cotidianamente colocados de todas as formas. Estou falando no geral, – é claro que existem exceções mas não se reflete sociedade apenas pensando exceções, né?- quem levanta toda noite para fazer o bebê parar de chorar? Quem perde um dia de trabalho para cuidar da pequena doente? Quem enlouquece pensando em como otimizar o cronograma da vida da criança e da própria vida quando trabalha?

As tarefas são as mesmas, mas colocada apenas sobre uma pessoa. E aí me vem a bancada da direita mais reacionária e pauta um “Estatuto da Família” em que se caracteriza como família apenas união entre um homem cis e uma mulher cis. Ora, eu e Rosa somos uma família. Uma família diferente, uma família de dois, uma família que se ama, mas por causa do machismo e da heteronormatividade é invisibilizada, marginalizada ao ponto de não existir nem na forma jurídica.

marcha das vadiasBoa parte das mães solteiras o são não por decisão. A tal da produção independente das mulheres é algo que pertence a uma minoria das mulheres, normalmente as que tem poder financeiro para bancar uma rede muito custosa de amparo que não é realidade concreta da maioria daquelas que chefiam famílias. Ser mãe solteira é constituir família sozinha e ignorar isso é ignorar a sociedade brasileira.

Não bastasse o ignorar jurídico e político existente, ainda há o estigma. Quantas vezes não se escuta que se relacionar com mãe solteira é uma cilada? É criar filho dos outro e tantas bobagens. Ora, encarar olhares desconfiados quando se chega sozinha nos aniversários ou nas reuniões de escola (ainda mais quando tu és jovem e negra, imagina só a zica) não é das tarefas mais agradáveis. O julgamento cotidiano do por que só você e a criança pra cá e pra lá, como se carregasse uma marca amaldiçoada é algo tão machista e tão arraigado que nem os mais próximos percebem o quanto estão nos deixando desconfortáveis e corroborando com toda uma forma torpe de lidar com a maternidade.

Posso listar aqui as noites em claro pensando em quais escolas minha filha estudaria, planejando férias ou até mesmo acordada por que a pequena pegou a virose do semestre. A sensação de que tudo pode descambar e não se dar conta das coisas da rotina é quase que perene, mas se dissipa com um sorriso e uma lembrança de que até aqui deu certo e eu não preciso da benção do Eduardo Cunha para me dizer que eu tenho uma família e ela é uma família feliz.

20150108_155408Sinceramente, nunca pensei em casar, tive pessoas legais na minha vida, mas nunca pensei em casar e ter a família comercial de margarina. Mas sempre pensei em ter filhos e talvez ter tido uma filha sozinha seja reflexo direto desse anseio de tanto tempo. Óbvio que é difícil, é acordar a noite quando se está com febre e passar a noite toda acordada, é ter que lidar com possíveis problemas na escola sem ter com quem conversar cotidianamente sobre.

Para finalizar, ser mãe solteira é igual a ser pai solteiro. Com a diferença de que quando vemos pais solteiros achamos isso lindo, um guerreiro e exemplo a ser seguido. Quando vemos uma mãe solteira nada pensamos, pois ela apenas cumpre o papel que é de destinado a ela e nada mais e nada menos.

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Dois passos a frente pela legalização do aborto

Legalização do aborto, células-tronco, casamento civil igualitário, legalização das drogas e outros temas que lidem com o debate moral reacionário são sempre embates de empreitadas duras, independente de uma conjuntura mais ou menos progressista no cenário da política institucional. Não é de hoje que se debate o quanto a autonomia das mulheres e homens trans são negadas pela sociedade machista e patriarcal, no Brasil vemos cada vez mais o conservadorismo achacar – para usar um termo da moda – nossos direitos e ganhar espaços com propostas de mudança legislativa que nestes últimos anos só tendem a nos colocar cada vez mais na marginalização e criminalização ao exercer a autonomia sobre os nossos corpos.

Fonte: Agência Pública

Fonte: Agência Pública

O fato de termos um Congresso Nacional mais conservador desde 1964 é algo que acaba por nos deixar mais ressabiados, a declaração de Eduardo Cunha – presidente da Câmara dos Deputados – há alguns meses afirmando que só se vota a questão da legalização do aborto por cima do cadáver dele. Engana-se Cunha quando acha que o aborto em nosso país não é descriminalizado, ele o é para mulheres cis brancas que possuem condição de pagar R$ 3 ou 4 mil reais em uma clínica de alto-nível. Essa não é a mesma realidade das 33 mulheres que foram presas em 2014 por chegarem em situação de abortamento em hospitais, muitas vezes tendo o sigilo médico-paciente desrespeitado – mais isso a direita não questiona, né? Curioso notar que estas 33 mulheres, se formos olhar atentamente, são todas não-brancas.

A necessidade de encampar esta luta sem medo de represálias da direita conservadora, desenvolvendo argumentos e formulações para disputar no seio da sociedade brasileira a importância da garantia do direito ao aborto para mulheres e homens trans tanto para garantia da nossa autonomia frente nossas decisões e também dar resposta uma questão de saúde pública do Brasil. Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto realizada pela Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero em 2010 uma a cada 5 mulheres brasileiras – aos 40 anos – havia realizado pelo menos um aborto durante sua vida.

Em entrevista concedida para Agência Pública em setembro de 2013, Jefferson Drezett, que há mais de 10 anos coordena um serviço de abortamento legal no país, aponta que no Brasil são realizado quase 1 milhão de abortos inseguros por ano e destes cerca de 250 mil resultam em internações nos hospitais brasileiros. Com a atual legislação o que resta para estas mulheres que recorrem a abortos inseguros e ilegais são os maus tratos nos postos de saúde e hospitais públicos. Em todo o mundo morrem cerca de 70 mil pessoas por ano em decorrência de abortos ilegais e inseguros.

95% dos abortos praticados [pelo mundo] em condições inseguras acontecem em países em desenvolvimento e por coicidência a maioria deles têm leis restritivas em relação ao abortamento. Isso falando de mortes de mulheres. Se falarmos em danos permanentes, sequelas, “não morreu mas quase”, esse número aumenta significativamente. (Lei é eficaz para matar mulheres, diz especialista)

A crua realidade do aborto criminalizado em nosso país é aprofundada ano após ano. Seja com a tentativa naufragada de se implementar a CPI do Aborto no Congresso Nacional, a tramitação de projetos de lei que tornam o aborto crime hediondo ou o famigerado “Estatuto do Nascituro” que além de ignorar a existência da mulher e do homens trans ainda implementa o que convencionamos chamar de bolsa-estupro.

Os ataques aos direitos sexuais e reprodutivos se acumulam, mas há processos que demonstram que o debate na sociedade não é como Eduardo Cunha aponta como “só uma minoria do Congresso”. A bandeira da legalização do aborto foi uma das principais tônicas do 8 de março deste ano em São Paulo, justamente pela necessidade desta pauta e o contraponto ferrenho a postura do presidente da Câmara dos Deputados. As feministas brasileiras iniciaram seu ano de luta deixando muito óbvio que não será dado nenhum passo atrás. Ao mesmo tempo os processos de resistência que se inauguram não caminham de forma conjunta, há avaliações diversas junto ao movimento sobre como dar esta batalha junto a sociedade.

Se a vida tem se endurecido do ponto de vista da política institucional, é verdade que cada vez mais o desespero de quem recorre a métodos inseguros e acaba morrendo, como vimos acontecer com Jandira e Elisângela no ano passado, coloca ao movimento feminista e LGBT a tarefa de se contrapor de forma firme e contundente ao conservadorismo cada vez maior dentro do Congresso Nacional, Assembleias Legislativas, Câmaras de Vereadores e dos governos federal, estaduais e municipais. Sair da defensiva e ter um instrumento que nos coloque no debate sobre direitos sexuais e reprodutivos de mulheres cis e homens trans na concretude e enfrente os homens cis, brancos e burgueses do Congresso Nacional é uma tática importantíssima.

Assim sendo, a iniciativa de se pautar o PL 882 que estabelece as políticas públicas no âmbito da saúde sexual e dos direitos reprodutivos e dá outras providências dentro do Congresso Nacional, dando assim um tom positivo ao debate da legalização do aborto nesta casa, prevendo a garantia de educação sexual junto às escolas brasileiras, garantindo o direito de decidir as mulheres cis e homens trans é algo importante nesse momento de tensão política. Primeiro por que nossos direitos não podem ser levados como cereja do bolo como normalmente os partidos, organizações políticas e movimentos sociais colocam. As mulheres são 52% da população brasileira, destas mais da metade são negras e são as que mais sofrem com o cenário de criminalização do aborto e isso não pode ser ignorado.

Fonte: Agência Pública

Fonte: Agência Pública

Não creio que com a configuração deste Congresso que temos atualmente haja disposição para a aprovação de pautas progressistas como o Casamento Civil Igualitário, Legalização das Drogas e Legalização do Aborto. Justamente pelo fato de serem temas que desorganizam a própria base de pensamento e estruturação da burguesia e do capitalismo, expõe a hipocrisia da elite que prefere ver os “diferentes” morrerem do que garantir-lhes os direitos para fazê-los cidadãos. Apresentar no mês de luta das mulheres uma PL que Legaliza o Aborto em nosso Brasil, nos coloca justamente na ofensiva para ter instrumentos mais quilificados de acolhimento das mulheres que hoje são criminalizadas.

O mais importante, tanto a contundência que tem se colocado a este tema nas movimentações de rua. Ter concretamente um instrumento que polarize com a direita naquele espaço está em consonância com a disputa ideológica colocada no Brasil no último período. Desde 2011 o movimento reagia muito mais as investidas reacionárias contra nossos direitos (Estatuto do Nascituro, recuo do PNDH-3, Acordo Brasil-Vaticano e o recuo do governo Dilma na regulamentação do aborto legal no SUS), com a conjuntura política colocada no Brasil é necessário sair da defensiva, não há espaço vago na política e quando não há na política institucional uma iniciativa positiva sobre a legalização do aborto o debate é tomado pelas inverdades apresentadas pela direita (seja a oposição, seja a que está na base do governo) e não devemos mais deixar os homens cis, brancos e conservadores ditar qual o tom deste debate tão caro para nós há décadas.

Realidade do aborto no mundo:  Azul - Aborto legal Verde - Ilegal, exceto em casos de risco à vida da mãe, problemas de saúde física ou mental, estupro/violação, defeitos no feto e/ou fatores socioeconômicos. Amarelo -  Ilegal, exceto em casos de risco à vida da mãe, problemas de saúde física ou mental, estupro/violação e/ou defeitos no feto. Ocre - Ilegal, exceto em casos de risco à vida da mãe, problemas de saúde física ou mental, e/ou estupro/violação. Laranja -  Ilegal, exceto em casos de risco à vida da mãe e/ou problemas de saúde física ou mental. Vermelho - Ilegal e sem exceções. Preto - Varia por região. Cinza - Não há informações. Fonte: Wikicommons

Realidade do aborto no mundo:
Azul – Aborto legal
Verde – Ilegal, exceto em casos de risco à vida da mãe, problemas de saúde física ou mental, estupro/violação, defeitos no feto e/ou fatores socioeconômicos.
Amarelo – Ilegal, exceto em casos de risco à vida da mãe, problemas de saúde física ou mental, estupro/violação e/ou defeitos no feto.
Ocre – Ilegal, exceto em casos de risco à vida da mãe, problemas de saúde física ou mental, e/ou estupro/violação.
Laranja – Ilegal, exceto em casos de risco à vida da mãe e/ou problemas de saúde física ou mental.
Vermelho – Ilegal e sem exceções.
Preto – Varia por região.
Cinza – Não há informações.
Fonte: Wikicommons

Se Cunha disse que só irá debater a Legalização do Aborto se passarem por cima do cadáver dele, então o 1 milhão de abortos feitos no Brasil por ano  irão passar por cima dele para não deixar mais mulheres e homens trans morrerem. A realidade de criminalização do aborto em nosso país em nada ajudou a diminuição da mortalidade materna, ao acolhimento das mulheres que abortam sejam de forma clandestina, seja de forma natural.

Para finalizar, é importante lembrar que o argumento dos reacionários sobre aumento de abortos em países que legalizaram a prática não ocorreram, na verdade houve inclusive queda na procura pelo procedimento quando há dentro do processo de legalização do aborto a inclusão de educação sexual que garanta a informação e não a perpetuação de contos da carochinha junto aos jovens brasileiros. O dia 15 de março demonstrou que é preciso levantar a cabeça para poder enfrentar a direita em nosso país mais do que nunca, isso também vale para o movimento feminista e LGBT, são nossas vidas se perdendo de dois em dois dias e não as vidas dos reacionários e é pelas nossas vidas e pela nossa autonomia que precisamos ousar e enfrentar o conservadorismo brasileiro.

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