Relato sobre a votação em 1º turno do PME de São Paulo

Precisava escrever um relato sobre o que eu vi ontem durante a votação em 1º turno do Plano Municipal de Educação, acabei chegando só na hora que já os oradores estavam falando no plenário, não consegui chegar antes por que precisava cuidar de umas questões pessoais. Para quem não sabe, além de militante feminista, do movimento negro e do PSOL também sou mãe de uma menina que está no 1º ano de uma Escola Municipal de Ensino Fundamental.

Ao chegar na Câmara de Vereadores era visível quem realmente investe dinheiro nesta disputa: os conservadores, todos pagos para lá estarem fazendo um coro pró violência. Além disso, enquanto o carro dos movimentos LGBT, juventude, feminista, negro e de educação nós víamos a diversidade, a pluralidade política, de identidade de gênero, orientação sexual e raça era algo que podíamos ver por toda parte. Do lado conservador apenas falavam pastores, padres, só no final uma vereadora falou, todas as outras intervenções foram de homens.

A primeira questão é que não apenas o debate sobre orientação sexual, identidade de gênero e gênero que foi limado do projeto. Ontem aprovaram junto uma série de coisas que entrega a educação infantil, principalmente as CEIs, nas mãos das igrejas ao ampliar o número de creches conveniadas além da retirada da parte que falava sobre repassar 30% do orçamento municipal para a educação. Destaco isso por que precisamos compreender que a retirada da questão de gênero e orientação sexual do PME vem em conjunto com um processo de desmonte cada vez mais profundo da educação pública em nossa cidade.

A segunda questão é que dos 55 vereadores, 44 votaram a matéria. 42 votaram de forma favorável ao PME com vistas a construir um substitutivo e 2 votaram contrários ao PME (Ricardo Young e Toninho Vespoli). Destaque para as falas hipócritas dos vereadores petistas que destacavam a importância do debate, mas votaram em conjunto com a direita machista, LGBTfóbica e racista o PME que não apenas rifa a questão de gênero, mas aprofunda o sucateamento da educação pública do nosso município.

Destaque para a postura arrogante de Paulo Fiorilo que ao votar com a direita começou a falar para nós que lá estávamos defendo todos os tipos de família, uma educação pública de qualidade e laica e o direito das crianças a viverem em ambientes que não perpetuem ciclos de violência (machista, LGBTfóbica e racistas) não tínhamos lido o PME como um todo. Tanto foi lido, quanto sabemos que ataca o direito de nossas crianças como um todo, entendeu chuchu?

Os argumentos da bancada conservadora eram de um naipe horroroso, como de costume, dentro de todas as bobagens que falavam ajudavam a ignorar que, por exemplo, a maioria das famílias brasileiras não são compostas por um homem, uma mulher e filhos. Na verdade, a maioria das famílias brasileiras são de mães pretas e solteiras, fora isso temos uma diversidade tão grande de composições familiares que a defesa feita pelos conservadores chega a ser uma piada.

Uma outra questão fundamental apontarmos é: a votação feita ontem ajuda a manter um ciclo de violência nas escolas que precisa ser rompido. Só lembrar de diversos casos de imagens privadas de meninas que vazam e elas são vítimas de chacotas, perseguição e afins na escola. Não vamos debater isso? Vamos efetivamente deixar nossas crianças e adolescentes sofrerem com violência psicológica até não aguentarem mais e se matarem? Belo cristianismo esse de vocês, viu? Que preferem ver as crianças sofrendo a realmente abrir um debate necessário para formar professores, equipe técnica e afins de CEIs, EMEIs e EMEFs.

Gostaria de dizer que a decisão ontem da bancada do PT e da bancada conservadora atua perversamente no boicote que deve ser o debate da sexualidade em um momento de retomada da epidemia de AIDS entre a juventude, limar este debate é fechar os olhos e lavar as mãos na questão de combate e conscientização dos adolescentes no que significa o HIV e a AIDS. Além disso essa é uma luta de todos nós, não apenas do movimento LGBT, pois assim como não debatemos a LGBTfobia nas escolas, também não debatemos a questão racial (e olha que isso é previsto na LDB e não é cumprido) e também não debatemos violência machista. Faz parte da formação das nossas crianças e da educação pública e onde se encontram a maioria da juventude negra de nossa cidade.

A defesa é a defesa de que as igrejas não lucrem mais com o processo de privatização terceirizada da educação pública, é a defesa de que nossos filhos, sobrinhos e primos não continuem expostos a um ciclo de violência cotidiana e de não sermos coniventes com violências que levam as crianças e adolescentes ao suicídio. É a defesa de direitos de todas as famílias brasileiras e da vida em sua plena diversidade.

Ontem 42 vereadores votaram contra as crianças, contra a educação pública e pela intolerância, foi isso que eles fizeram. Mas não deixaremos passar em brancas nuvens, até o dia 25 de agosto continuaremos a nos movimentar, apresentar o debate que envolve o PME em sua completude em todos os espaços da sociedade para demonstrar o quão hipócritas a maioria dos vereadores de SP são, pois para justificar dinheiro para as igrejas jogaram no lixo os direitos civis e a educação pública!

É POR TODAS AS FAMÍLIAS! CONTINUARÁ A SER POR TODAS AS FAMÍLIAS!

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O machão e o machista: Duas faces da mesma moeda e o equívoco do socialismo moreno

Aí que eu chego em casa, vou fazer pipoca para a minha pequena e ao entrar no twitter um monte de gente está falando sobre este texto aqui da Cynara Menezes. Gosto de escrever sobre teoria política, debates programáticos, coisas diversas da política e para mim o feminismo se enquadra aí na disputa política, na estruturação de movimento social e normalmente não me meto em tretas de internet, mas hoje deu.

Esse texto aqui não pretende ficar dizendo se é de boa se interessar por pessoas x ou y. O desejo sexual entra em outra esfera do debate e pra mim esse não é o eixo organizador do que ali tá escrito, até por que há limites entre o livre exercer da sexualidade e relações abusivas. O intuito deste texto é localizar os debates programáticos feministas numa real perspectiva de esquerda, pois me causa espanto um blog chamado “Socialista Morena” não conseguir localizar os debates sobre opressão de gênero junto às pautas da esquerda socialista.

Digo isso por que ao abrir o site hoje para ler o post não conseguia conceber alguém que se reivindica de esquerda localizar tão mau um debate que, ao meu ver, é estratégico para a esquerda. Primeiro por que recai numa heteronormatividade tacanha e cissexista, ajuda em um processo de apagamento da população LGBT. Quero crer que foi apenas um deslize esquecer que as pessoas não se relacionam ou se sentem atraídas apenas por gente de gêneros diferentes. Ou seja, o texto publicado hoje pela jornalista e blogueira atenta a luta LGBT de forma rasteira e desinformada.

Além do mais, o texto parece ser retirado de algum blog da Veja. Sim, o conservadorismo político e a manutenção do machismo, racismo e LGBTfobia andam de mãos juntas. Pois é necessário ao capital estas relações de opressões permanecerem, é onde a exploração consegue se permear melhor é mantendo à margem as “minorias”. É esta estrutura conservadora e opressora que a posição ao se tentar dividir questões que não são divisíveis, pois o machismo, como já disse neste texto e em outros que circulam por aí, é estruturante do capitalismo. O machismo tem representação concreta nas relações abusivas entre os gêneros e também tem representação ideológica, não existe essa de dividir as coisas, por que não se divide categorias que formam a nossa atual sociedade.

Não é um maniqueísmo de que os homens cis são maus e o resto é bom. Não por que todas nós fazemos parte desta sociedade e as contradições dessa estrutura social aparece cotidianamente. Machismo é estrutural, assim como o racismo e a LGBTfobia e sendo estrutural dessa sociedade é preciso ser combatido de forma estratégica e não se utilizando de justificativas bobas, vazias para tentar provar o que não existe.

A lógica das mulheres serem propriedades dos homens é perpetuada ao longo dos séculos, é quando olhamos pra localização social do gênero que percebemos que o “proteger” que a Cynara ovaciona contra o “submeter” fazem parte de um mesmo enredo, nada mais do que isso. O “proteger” é o proteger algo que é seu, a sua propriedade privada, a sua propriedade mulher e não dá para a esquerda socialista achar isso de boa, um mal menor e afins.

Não é um debate sobre por quem tu te atraís ou não. Sexo, relacionamento, como vão se estruturar e os limites nós resolvemos no nosso cotidiano. A questão é o como um post de um blog que pretensamente se diz de esquerda consegue ajudar a manter uma série de preconceitos e estruturar um discurso de mal menor que foi construído pelo stalinismo e isso deve ser combatido cotidianamente.

No fundo esse texto só demonstra o quanto é preciso avançar no debate político para haver a compreensão de que as pautas feministas, anti-racistas, socialistas se dialogam dentro de um mesmo projeto de forma paritária e não proporcional. Não existe opressão menor ou maior, existe opressão e ela ajuda a manter um sistema de exploração que cotidianamente quer nos matar, nos aniquilar, pois somos os indesejáveis. Tá aí o problema do texto, ele simplesmente conserva o que a burguesia, os poderosos, os reacionários de plantão querem deixar quieto.

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Meninx para namorar e meninx para ficar, só que não

Resolvi fazer um post de auto-ajuda paras os garotos cis adolescentes prestarem atenção. Me baseei neste link para dar para vocês meninos cis dicas importantes sobre garotas cis pra ficar e garotas cis para namorar.

A primeira dica é: Se libertem! Por que sinceramente, há mais no mundo do que apenas namorar ou ficar com meninas cis. Vocês podem se apaixonar por outro garoto cis, podem se apaixonar por uma menina trans ou por um menino trans. O importante é se apaixonar, viver as experiências com gente que acolha e ajude a vocês crescerem. E não arranjar namoro só por que todo os moleques cis na sala de aula ficam te oprimindo para ficar com a fulana cis. Relacionamentos são diversos e a beleza deles é essa.

A segunda dica é: Não existe gente pra namorar e gente pra ficar. Isso é uma mentirada que inventaram só para manter as coisas como estão. Tu és jovem, és o futuro da nação, és burguês sem religião (opa! baixou o Legião Urbana agora), viver as diferentes formas de relacionamento é importante. Não to dizendo que é fácil, relacionamento nunca é fácil. Mas relacionamento não é só ficar ou namorar, tem tanta forma boa de se relacionar por aí e respeitar essa diversidade é melhor ainda.

A terceira dica é: Não ache que todas as meninas e meninos te querem. Forçar qualquer coisa com a pessoa que for pode ser considerado assédio, violência, opressão e estas coisas são crimes. Relações devem ser sempre consensuais e nunca uma relação de poder entre você e a pessoa que você gosta. Se tu gostas de submeter as pessoas aos teus quereres, isso quer dizer que gostas de uma relação de abuso e relações abusivas são crime.

A quarta dica é: Assim como tu gostas de sair de balada a menina ou o menino também pode gostar, ficar na nóia achando que só por que antes de vocês estarem juntos ela/ele ficavam com muitas pessoas na festa é bobo  demonstra total falta de confiança nos acordos firmados no relacionamento.

A quinta dica é: Seja feliz. Se liberte e pense diverso. Nada melhor.

PS: Uma pessoa cis é uma pessoa na qual o sexo designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de sexo + gênero designado ao nascer + sentimento interno/subjetivo de gênero, estão “alinhados”. (O que é cissexismo)

Atualizado às 18h40

A Capricho retirou o post do Márcio Picolly do ar. Mas não é a primeira vez que a revista faz post do gênero no seu site, em setembro de 2011 ela tinha produzido algo parecido.

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A necessidade da esquerda socialista compreender o direito ao corpo

Cada vez o domínio sobre o corpo das pessoas tem aumentado e isso tem reverberado diretamente em políticas para a classe trabalhadora, ou seja, o direito ao nosso corpo precisa ser encarado como um patamar importante da luta das mulheres da classe trabalhadora também, não na lógica da liberação sexual pela liberação sexual, isso é limitador, mas como a necessidade da busca de uma sociedade plenamente igualitária e emancipadora. Perder este pé e a noção de que hoje no mundo se reorganiza um pedaço do movimento feminista que precisa ser disputado é um tanto cego, pois a maioria das mulheres que mais precisa destas políticas são trabalhadoras e negras.

A legalização do aborto tem sido um dos temas mais nefrálgicos do programa feminista há muito tempo, ainda mais em países em que a laicidade do estado é uma lenda urbana muito mal contada. Semana passada mais um capítulo da luta pela legalização da prática no país foi escrita, o Ministério da Saúde acabou por divulgar que iria estudar medidas para reduzir os danos do aborto ilegal em nosso país. A notícia obviamente causou furor entre os conservadores de plantão que dizem esta política ser ilegal, confirmando que em nada se preocupam com a vida das mulheres. Pois mesmo uma política recuada do governo que primeiramente só pensa em estudar a possibilidade de uma política de redução de danos (ou só eu acho que a possibilidade da possibilidade é algo recuado?).

Segundo a proposta em discussão, os médicos passariam a orientar as mulheres decididas a tomar o remédio. Explicariam como usá-lo e qual é a dose ideal, de forma a reduzir o risco de complicações. É possível que o governo crie uma cartilha para orientar os profissionais sobre o que fazer quando atendem uma paciente antes ou depois do aborto clandestino. (SEGATTO, Cristiane. O Estado e a mulher que aborta)

Porém esta política necessita de um olhar sobre o que é a saúde pública brasileira hoje. Um país onde parte considerável do serviço público é vendido para OSs e OSCIPs, das quais a maioria é administrada por entidades religiosas e impõe dentro da sua administração seus dogmas. Muitas vezes se negando a atender mulheres em situação de abortamento. Lembrando que no caso das mulheres negras a situaçãod e sangramentos e risco de vida acaba sendo 6 vezes mais do que as mulheres brancas, pois normalmente somos nós que recorremos ao SUS privatizado e desmantelado.

O debate está aberto há tempos, é um embuste dizer que este movimento do Ministério da Saúde reabre o a discussão junto a sociedade, até por que foi este o debate que pautou as eleições de 2010, onde a atual presidenta capitulou de todas as formas aos tucanos e aos verdes, assim como tirou do papel a MP 557 (cadastro de gravidez) para viabilizar o seu Rede Cegonha e escanteou de vez o PNAISM (Plano Nacional de Atendimento Integral à Saúde da Mulher) e o PNHP (Plano Nacional de Humanização do Parto). Ambos de formulação da época do governo Lula  e que atendiam a diversidade de mulheres (negras, lésbicas…) existentes na classe trabalhadora hoje.

A política sobre direitos sexuais e reprodutivos acaba sendo tão controversa no país que é preciso sentar e observar atentamente as movimentações do poder público na área. Como já disse a política de privatização da saúde por parte do governo petista é uma realidade no país. São leitos do SUS terceirizados para planos de saúde, postos de saúde administrados por empresas privadas e não pelo poder público e tudo isso interfere diretamente na aplicação de uma política que leve em conta os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, ou seja, o direito sobre o corpo das mulheres tem relação direta com as políticas existentes hoje em nossa sociedade sobre saúde pública. E debate saúde pública e direitos sexuais e reprodutivos deve ser muito pequeno burguês mesmo para parte da esquerda brasileira não fazer esta ligação e não disputar nos espaços do movimento de saúde, feminista, sindical, estudantil e o escambau uma concepção de saúde que contemple a maioria da classe trabalhadora.

A política de privatização da saúde acaba por interferir diretamente no próprio debate de humanização do parto, pois a industria da cesárea no país e a desumanização do atendimento obstétrico, pois a maioria das cesarianas feitas em nosso país é no setor privado, que em alguns lugares chega a quase 80% das taxas de parto.

O Brasil é o país com maior índice de partos por cesariana no mundo.

Isso é uma grande preocupação para os governantes e para as famílias.

Para cada 1% que se cresce no índice de partos por cesariana, o custo operacional para o país e para a sociedade é aumentado em US$ 9,5 milhões. (*)

Uma em cada 1000 mulheres morre em partos por cesariana (**)

Na América Latina estima-se um número de 850.000 partos por cesariana desnecessários e o Brasil tem o índice de 32% bem acima dos Estados Unidos e todos os outros países latino americanos.(***). O Organização Mundial de Saúde desde 1985 recomenda que este número não ultrapasse 15%. (OLIVAS, Walter. Partos Normais x Partos por Cesariana)

Ora, se há um processo de privatização da saúde pública brasileira e os números mais alarmantes da industria da cesárea é na rede privada de saúde é só somar os dois dados para saber o que vai aprofundar nesta seara da saúde da mulher, ou não? Casas de Parto públicas com gerência direta ao governo são raríssimas, mesmo que saiam nos planos votados nas conferências de mulheres e de saúde. O que há na verdade é um descaso geral com os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, mas não apenas aquelas que nasceram com vagina e útero. Porém fomos acostumadas a não compreendê-las como parte também do mundo do gênero feminino.

Sim, as mulheres trans e travestis também sofrem diretamente com essa política aí colocada e que interfere na discussão do direito ao corpo.  Na última Parada Gay de São Paulo o governo tucano soltou nota pedindo para que as travestis e transsexuais se vestissem de maneira “comportada”, além disso a organização da para tirou estas mulheres do carro oficial da parada, onde o querido governador paulistano Chuchu estaria presente.

As travestis e transexuais iriam vestidas de professora, enfermeiras, advogadas. “Eles [os organizadores] pediram que nós não fossemos peladas ou de vestido curto. Mesmo a gente achando que no fundo tinha algum preconceito porque boy de sunga branca sem camisa iria ter aos montes, nós concordamos porque era uma maneira de dar visibilidade aos transgêneros.”

Toda esta situação escancara um certo desdém, mesmo que implícito, pelas vítimas mais visíveis da homofobia. “Com esta gestão não conseguimos diálogo algum, existe uma invisibilidade para as travestis e transgênros. A Parada Gay hoje é uma parada machista e misógina”, desabafa Janaína. (ANGELO, Vitor. Travestis e transexuais protestam contra Parada Gay: “É machista e misógina”)

Compreender o momento histórico onde o qeu há de mais conservador na sociedade acaba nos marginalizando, tirando direitos e justificando isso pela moral e bons costumes é fundamental. Pois o direito ao aborto legal e seguro, ao parto humanizado e a não marginalização dos LGBTs, em especial as TTs é importante. Pois as mulheres marginalizadas por realizarem abortos, por não serem biologicamente mulheres e que sofrem com cesáreas desnecessárias estão de um lado importante da classe trabalhadora, pois na maioria destes casos quem sofre a opressão é quem está na base da sociedade e por estar na base da sociedade é quem mais sofre com as retiradas de direitos e o descaso existente seja pelo governo, seja pela não compreensão de suas lutas por parte da esquerda sectária.

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Família, sociedade e a declaração mais política de Bento 16

As lideranças da igreja católica tem conseguido se superar neste começo do ano, primeiro a infeliz declaração do arcebispo de Granada sobre o fato das mulheres que praticaram aborto devessem ser estupradas e esta semana o papa Bento 16 declara que o casamento gay é uma ameaça para a humanidade. óbvio que a declaração causou furor tanto entre os mais religiosos mais dogmáticos, quanto entre militantes LGBTs, dos direitos humanos e feministas. Pois apesar de diversos indícios e o forte apego dogmático a necessidade da formação da família do final do século passado para o começo deste – pelo que eu me lembre, né? – os pontífices não faziam declarações tão claras do ponto de vista da moral, era algo muito mais velado.

Qual a diferença entre Bento 16 e Silas Malafaia? Com todo o respeito e sem medo de ser linchado, eu diria que, nesses casos, nenhuma. O polêmico líder da Igreja Vitória em Cristo é conhecido por declarações contundentes na defesa de uma visão conservadora e seus discursos, não raras vezes, confundem liberdade religiosa e de expressão com uma guerra contra a diversidade. Somos mais coniventes com o ex-cardeal Ratzinger por conta do tamanho da Igreja Católica e sua influência na formação da nossa sociedade ocidental, mas o conteúdo contra direitos dos homossexuais está presente nas falas de ambos.

De tempos em tempos, homossexuais são vítimas de preconceito nas ruas só porque ousaram andar de mãos dadas. Enquanto isso, seguidores de uma pretensa verdade divina taxam o comportamento alheio de pecado e condenam os diferentes a uma vida de inferno aqui na Terra. (SAKAMOTO, Leonardo. Qual a diferença entre Bento 16 e Silas Malafaia?)

Não é de se estranhar que em um momento onde há um notório recrudescimento o conservadorismo pelo mundo e em especial no Brasil haja espaço para tanto preconceito e para uma visão conservadora do que deve ser uma família, pois sabe como é: LGBTs só podem criar crianças LGBTs, e héteros só podem criar crianças héteros. Essa é a norma divina instuída, mas esperem! Quantas famílias LGBTs existiram até hoje no mundinho azul? Quantas héteros? Tenho certeza que até hoje a maioria das famílias que criaram pessoas LGBTs eram famílias héteros, algumas mais liberais, outras mais conservadoras; porém tudo família hétero em sua maioria.

Sendo assim, se o casamento LGBT é uma ameaça para a sociedade, então os héteros são bem mais, por que famílias héteros criaram pessoas LGBTs que hoje querem se casar e ter sua própria família. Até por que são héteros que começam guerras, aplicam política de austeridade na economia dos países etcetc.

Nessa hora me lembram do Kassab e da sua política genocida na cidade de São Paulo, aí eu só coloco uma ressalva: minha gente! Ele entregou a chave da cidade ao nazi papa, considerá-lo um aliado na luta LGBT é meio demais, né? Este debate não é apenas um debate liberal, mas também um debate de classe, compreender a quem se ataca quando se prega um modelo hermético de família, pois se fossemos seguir a risca o que é a família para a igreja e fossemos ver a realidade constataríamos que a declaração de Bento 16 se coloca frontalmente contra a toda constituição familiar que fuja da heteronormatividade, seja LGBT ou não.

Por fim, a declaração do pontífice também ataca as mulheres, pois se uma família serve para gerar descendentes, então a mulher é uma incubadora e apenas isso e o homem continua em seu belo status de herdeiro e chefe de família. A declaração de Bento 16 nada mais é do que um projeto societário, que a burguesia mais reacionária também defende e ao qual precisamos nos opor com outro projeto societário e para mim esse projeto é sim o socialismo.

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