Relato sobre a votação em 1º turno do PME de São Paulo

Precisava escrever um relato sobre o que eu vi ontem durante a votação em 1º turno do Plano Municipal de Educação, acabei chegando só na hora que já os oradores estavam falando no plenário, não consegui chegar antes por que precisava cuidar de umas questões pessoais. Para quem não sabe, além de militante feminista, do movimento negro e do PSOL também sou mãe de uma menina que está no 1º ano de uma Escola Municipal de Ensino Fundamental.

Ao chegar na Câmara de Vereadores era visível quem realmente investe dinheiro nesta disputa: os conservadores, todos pagos para lá estarem fazendo um coro pró violência. Além disso, enquanto o carro dos movimentos LGBT, juventude, feminista, negro e de educação nós víamos a diversidade, a pluralidade política, de identidade de gênero, orientação sexual e raça era algo que podíamos ver por toda parte. Do lado conservador apenas falavam pastores, padres, só no final uma vereadora falou, todas as outras intervenções foram de homens.

A primeira questão é que não apenas o debate sobre orientação sexual, identidade de gênero e gênero que foi limado do projeto. Ontem aprovaram junto uma série de coisas que entrega a educação infantil, principalmente as CEIs, nas mãos das igrejas ao ampliar o número de creches conveniadas além da retirada da parte que falava sobre repassar 30% do orçamento municipal para a educação. Destaco isso por que precisamos compreender que a retirada da questão de gênero e orientação sexual do PME vem em conjunto com um processo de desmonte cada vez mais profundo da educação pública em nossa cidade.

A segunda questão é que dos 55 vereadores, 44 votaram a matéria. 42 votaram de forma favorável ao PME com vistas a construir um substitutivo e 2 votaram contrários ao PME (Ricardo Young e Toninho Vespoli). Destaque para as falas hipócritas dos vereadores petistas que destacavam a importância do debate, mas votaram em conjunto com a direita machista, LGBTfóbica e racista o PME que não apenas rifa a questão de gênero, mas aprofunda o sucateamento da educação pública do nosso município.

Destaque para a postura arrogante de Paulo Fiorilo que ao votar com a direita começou a falar para nós que lá estávamos defendo todos os tipos de família, uma educação pública de qualidade e laica e o direito das crianças a viverem em ambientes que não perpetuem ciclos de violência (machista, LGBTfóbica e racistas) não tínhamos lido o PME como um todo. Tanto foi lido, quanto sabemos que ataca o direito de nossas crianças como um todo, entendeu chuchu?

Os argumentos da bancada conservadora eram de um naipe horroroso, como de costume, dentro de todas as bobagens que falavam ajudavam a ignorar que, por exemplo, a maioria das famílias brasileiras não são compostas por um homem, uma mulher e filhos. Na verdade, a maioria das famílias brasileiras são de mães pretas e solteiras, fora isso temos uma diversidade tão grande de composições familiares que a defesa feita pelos conservadores chega a ser uma piada.

Uma outra questão fundamental apontarmos é: a votação feita ontem ajuda a manter um ciclo de violência nas escolas que precisa ser rompido. Só lembrar de diversos casos de imagens privadas de meninas que vazam e elas são vítimas de chacotas, perseguição e afins na escola. Não vamos debater isso? Vamos efetivamente deixar nossas crianças e adolescentes sofrerem com violência psicológica até não aguentarem mais e se matarem? Belo cristianismo esse de vocês, viu? Que preferem ver as crianças sofrendo a realmente abrir um debate necessário para formar professores, equipe técnica e afins de CEIs, EMEIs e EMEFs.

Gostaria de dizer que a decisão ontem da bancada do PT e da bancada conservadora atua perversamente no boicote que deve ser o debate da sexualidade em um momento de retomada da epidemia de AIDS entre a juventude, limar este debate é fechar os olhos e lavar as mãos na questão de combate e conscientização dos adolescentes no que significa o HIV e a AIDS. Além disso essa é uma luta de todos nós, não apenas do movimento LGBT, pois assim como não debatemos a LGBTfobia nas escolas, também não debatemos a questão racial (e olha que isso é previsto na LDB e não é cumprido) e também não debatemos violência machista. Faz parte da formação das nossas crianças e da educação pública e onde se encontram a maioria da juventude negra de nossa cidade.

A defesa é a defesa de que as igrejas não lucrem mais com o processo de privatização terceirizada da educação pública, é a defesa de que nossos filhos, sobrinhos e primos não continuem expostos a um ciclo de violência cotidiana e de não sermos coniventes com violências que levam as crianças e adolescentes ao suicídio. É a defesa de direitos de todas as famílias brasileiras e da vida em sua plena diversidade.

Ontem 42 vereadores votaram contra as crianças, contra a educação pública e pela intolerância, foi isso que eles fizeram. Mas não deixaremos passar em brancas nuvens, até o dia 25 de agosto continuaremos a nos movimentar, apresentar o debate que envolve o PME em sua completude em todos os espaços da sociedade para demonstrar o quão hipócritas a maioria dos vereadores de SP são, pois para justificar dinheiro para as igrejas jogaram no lixo os direitos civis e a educação pública!

É POR TODAS AS FAMÍLIAS! CONTINUARÁ A SER POR TODAS AS FAMÍLIAS!

Facebooktwittergoogle_plustumblrmailby feather

Carta dos setoriais de negros e negras e de mulheres do PSOL sobre a manifestação de Jean Wyllys sobre o seriado “Sexo e as Negas”

A veiculação do programa “O sexo e as nega” tem alimentado diversos debates junto ao movimento de mulheres negras brasileiro desde o início de sua produção. O debate sobre a representação da mulher negra na grande mídia não é um debate novo para nós. A imagem historicamente construída e midiaticamente naturalizada, é baseada no papel social atribuído às mulheres negras, em que a subalternidade e precariedade de trabalho caminha ao lado da sensualidade erótica, sempre reforçando e naturalizando o papel de todas essas formas de exploração – de raça, gênero e classe.

E é durante o novembro negro, justamente na semana da Consciência Negra, que nos deparamos com a campanha #EuAmoSexoEAsNegaorganizada por alguns atores da TV Globo para defender o programa de autoria de Miguel Falabella. Uma das justificativas apresentadas para a defesa do programa seria o fato dxs negrxs terem muito pouco espaço de trabalho na teledramaturgia brasileira, que incorpora e reproduz um preceito liberal para o qual as mudanças podem ser fruto de paulatinas inserções e incorporações nos ambientes de poder, o que mudaria, por si só, um lugar socialmente e historicamente construído.

Ora, o que o próprio debate acerca do programa indica é que não.
Se de fato há essa inserção, ela tem se caracterizado por um reforço do estereotipo e do racismo institucional, erotizando e realimentando a subalternidade mascarada por uma “conquista”. A defesa do diretor do programa desvirtua o debate e reforça ainda mais essa visão individualista e meritocrática, visto que oculta a discussão de fundo e a coloca em seu lugar um falso reino de “oportunidades”.

É por compreender que a luta pela libertação das negras no Brasil passa também pela luta de libertação da mulher e contra a exploração do trabalho, que a Setorial de Negrxs e a Setorial de Mulheres do PSOL vem a público reafirmar a posição de que o programa #SexoEAsNega não é uma forma de “empoderar” e emancipar a imagem construída da mulher negra na teledramaturgia brasileira, na verdade apenas reproduz o imaginário coletivo de que nós somos o supra-sumo de um produto sexual a ser consumido, e trabalhadoras para as quais oportunidades são “concedidas”.

O povo negro e especialmente as mulheres negras nunca receberam concessões, mas conquistas. Conquistas de uma resistência histórica e brava, na qual raça, gênero e classe nunca estiveram dissociadas, pois todo o tipo de exploração sempre recaiu sobre nós.

Assim, aproveitamos para colocar que a defesa do programa feita pelo deputado Jean Wyllys não representa o debate desenvolvido por nossas companheiras feministas negras junto ao espaço do movimento negro e feminista. O parlamentar tem sido um aliado importante em diversas lutas de direitos humanos no árido cenário da Câmara de Deputados, porém neste episódio acabou contrariando a construção de um debate coletivo realizado não apenas por nossas companheiras feministas negras, mas também por todo um movimento social que desde o início vem travando uma disputa de consciência ferrenha sobre o que significa “O sexo e as nega” na construção da figura da mulher negra no imaginário coletivo do brasileiro.

Aproveitamos para deixar registrado que o debate entre todas as formas de opressão e identidade não devem ser compreendidos sem um recorte comum, o que fará deles um debate exclusivista e corporativo. É preciso avançar nessa interlocução de maneira urgente.

Sabemos o quão difícil é negrxs terem espaço na teledramaturgia brasileira, mas acreditamos que uma luta para ampliação e diversificação das personagens negras na produção brasileira seria muito mais frutífera do que a defesa de um formato que em sua origem já apresenta diversos vícios. É preciso lembrar que essa transformação da mulher negra no arauto da exotização brasileira é o que tem trazido o movimento de mulheres negras até hoje a questionar a nossa representação midática junto a sociedade brasileira, não somos um objeto que deva ser disponibilizado para o deleite dos homens, mas sim mulheres que exercem diversas funções desvalorizadas socialmente.

Por fim, nós da setorial de negros e negras do PSOL temos ciência de que a TV Globo utiliza uma concessão pública para veicular seus programas que reforçam o machismo, racismo, homolesbobitransfobia e tantas outras formas de opressão e exclusão social. Sabemos que não nascerá da benevolência de Miguel Falabella a modificação de como as mulheres negras são retratadas na teledramaturgia brasileira, mas sim de uma real democratização da comunicação em nosso país que é urgente!

É por conta dessas questões que o PSOL não ama “Sexo e as Negas”, o PSOL ama e defende toda forma de luta por emancipação das mulheres negras no país e não a manutenção de um programa que aprofunda a nossa objetificação.

O PSOL sabe que essa conquista passa pela luta das negras e de toda a sociedade contra o racismo, além da necessária e urgente democratização da comunicação no Brasil!

Setorial de negros e negras do PSOL.
Setorial de Mulheres do PSOL.

Facebooktwittergoogle_plustumblrmailby feather

Vange Leonel e Plinio de Arruda Sampaio faces da mesma lição

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando (MELLO, Thiago. Para os que virão)

Não sou dada as homenagens. Aprendi há quase 8 anos quando me despedi da pessoa que mais amei nessa vida antes da Rosa nascer. Porém ontem, ao pegar 3 ônibus para chegar ao velório da Vange – passando por pedir dinheiro no ponto de ônibus em Itapecerica da Serra para conseguir concretizar a minha necessidade de dizer mais um adeus doloroso na minha vida – percebi o quanto eu tinha a dizer sobre as minhas recentes perdas.

Essa última semana terminaram de ser escritos os livros de duas pessoas que me ensinaram a mesma lição. Para muitos parecerei herética em dizer que Vange Leonel e Plínio de Arruda Sampaio foram mestres em igual patamar, mas foda-se, o que importa é que pra mim foram e sempre serão.

Dividi e divido sonhos com estes dois camaradas, isso não quer dizer que tenha concordado sempre com as posições apresentadas por eles, mas essa foi a maior lição de vida que ambos me deram: O respeito a posição divergente. E essa forma de lidar com os diferentes pontos de vista, de aglutinar pessoas, da generosidade em se doar para as conversas políticas são características que vi se presentificar da maneira mais acolhedora possível na Vange e no Plinio.

Para alguns vai parecer um devaneio, mas com estas duas pessoas aprendi que sonhos sim são possíveis de virar realidade e que nada é impossível de mudar. E o mais importante, conseguiam olhar para as pessoas e as verem, não contar como mais um número desta ou daquela determinada posição política. Isso é algo tão raro, Vange e Plinio ao me encontrarem sempre faziam a mesma pergunta: E como vai a Rosa?

Durante a minha andança entre ônibus intermunicipais e mendicância na frente de uma loja de cervejas especiais (Vange adorava cervejas artesanais e minha primeira cerveja artesanla foi tomada junto com ela e a Cilmara no Tubaína Bar) fui resgatando as memórias sobre estes dois e cheguei a conclusão que um não existiria na minha vida sem o outro.

Conheci a Vange durante as eleições de 2010, foi no twitter que a minha arroba esbarrou na arroba dela. Ela fazia campanha para a Dilma e eu para o Plinio. Foi por conta do debate político e feminista que começamos a conversar mais e mais, foi por conta de ter aberto a conta de twitter do Plinio no finalzinho de 2009 que eu comecei a acompanhar de forma mais ávida o que acontecia nas redes sociais.

Mesmo conhecendo o Plinio há um tempo mais considerável do que conhecia a Vange, olhando toda essa minha trajetória um tanto nonsense pela internet, política e relações pessoais percebi que as conversas com a Vange também influenciaram em muito coisas que acabei apresentando para o programa de mulheres da campanha Plinio.

Além disso tudo, Vange e Plinio construiam relações com generosidade, não tinha dessas de um saber mais do que o outro. Não tinha dessas de carteirada geracional, tinha mais uma contação de histórias de tempos que não tive oportunidade de viver. Com detalhes diversos, ênfase em acontecimentos diversos e uma paciência gigantesca com as problematizações.

Lembro quando a Vange me contou que a sede do SOMOS era no mesmo lugar que hoje funciona o meu bar favorito e a minha empolgação de menina com a informação contando para todos os meus amigos.

Em São Paulo,  os julhos normalmente são cinzas, coisa da cidade. Mas este, em especial será marcado no meu livro como um julho mais cinza do que o normal. O julho onde perdi dois mestres.

Para mim estes dois estavam ligados. Tanto que ambos dialogavam com gerações diversas e agora na hora do capítulo final do livro destas duas pessoas incríveis era visível o quanto ambos tem qualidades muito parecidas.

A lição que eu tiro destes dois tchaus? É que viver uma vida plena,  sem fazer inimigos e defendendo aquilo que acreditamos vale a pena e eu pretendo levar essa lição linda dada por Vange e Plinio para o resto da história que estou escrevendo.

Eles morrem, e deixam vários os que virão e eu sou um deles.

Vange e Plinio, obrigada por tudo. Amo vocês, hoje é sempre: presente!

Facebooktwittergoogle_plustumblrmailby feather

É momento das feministas disputarem corações e mentes nas massas

A política voltou a ser debatida nos espaços para além das organizações políticas. Tem gente conversando sobre o país e seus problemas nos bares, nos almoços de família, nos locais de trabalho e até nas festinhas juninas das escolas infantis. O Brasil está discutindo o país e não se deve ter medo disso. A população foi para a rua, e o que esperar de uma população que já vinha demonstrando paulatinamente nestas últimas décadas o recrudescimento de um senso-comum conservador?

O susto de ver a população reverberar ações da direita conservadora como o ataque aos militantes partidários, cartazes pedindo a redução da maioridade penal e um discurso moralista sobre a corrupção é reflexo da desorganização do debate político na sociedade neste período de redemocratização do Brasil. Mas é bom lembrar que este recrudescimento conservador nunca foi motivo para os movimentos feminista, LGBT e negro baixarem suas cabeças e voltarem para casa. Quantas vezes fomos às ruas pela legalização do aborto e fomos chamadas de assassinas, mas ao mesmo tempo conseguíamos dialogar com outra parte da sociedade. Disputa de consciência é assim, e a omissão acaba dando espaço para quem está lá disputando o senso-comum dizendo que não tá disputando.

Outro tema: é um erro igualar hino nacional e bandeira nacional com direita. Outra coisa é que a direita pode se valer disso, mas o sentimento da massa é honesto, de resgate da nação contra quem ela considera que está usurpando e roubando o país, isto é e sempre foi a simbologia da massa em relação a bandeira e ao hino. Nos anos 80, com grande peso de massa da esquerda era muito comum os atos das diretas já e mesmo assembleias operárias de massa no ABC serem encerradas com o Hino Nacional. Nós temos que disputar essa consciência da massa para a esquerda, mas entendendo o valor do sentimento nacionalista anti-regime ou anti-corrupção no caso atual, no caso da minha geração era uma nacionalismo anti-ditadura do tipo dizer “o hino e a bandeira são nossos e não da ditadura”. Hoje tem isso de fundo “a bandeira, o hino, a nação são nossos e não dos corruptos”. Esquerda que não entender isso vai virar pó nesse movimento. (SILVA, Fernando. Uma rebelião popular progressiva e o início de uma crise institucional)

Esse processo de ascenso, ou seja, das pessoas saírem de seus trabalhos, das suas casas e locais de estudo para ocupar as ruas por temas diversos é positivo e devemos tomar este parâmetro como base. O povo na rua é bom. Agora, esperar que o povo na rua tenha o mesmo nível de consciência do que as pessoas que tem formulado política, ou organizado manifestações e atos sobre diversos motivos nos últimos anos.

Não se pode fetichizar, mas também não dá para entrar em uma de que: bora sumir de lá por que é só reaça e não dá para disputar. Ora, é o povo fora de sua rotina que abre espaço para podermos disputar sua consciência muito melhor do que quando estamos imbuídos em nosso cotidiano enfadonho.

As pautas que mais tem ecoado nestes espaços são pautas que se relacionam diretamente aos direitos das mulheres. As remoções feitas pelos governos federal e estaduais por conta da Copa e Olimpíadas, a mobilidade urbana, a permanência de Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos da Câmara são pautas nossas também.

Nossa responsabilidade política nesse exato momento é enorme. Até por que nunca vimos manifestações destas proporções em nossa vida política, só as vimos passar na TV ou em documentários e mesmo assim tinham características diferentes. É continuemos nas ruas até a tarifa baixar e durante esse processo que estejamos em unidade, por que disputar ideologicamente com o status quo conservador é tarefa hercúlea e todxs lutadorxs devem tomá-la para si. (FRANCA, Luka. Pílula sobre as mobilizações em São Paulo)

É preciso que as feministas estejam nos atos, em bloco ou não para combater a violência sexista que ali possa haver, para nesse processo de mobilização de massas possamos disputar homens e mulheres (cis ou trans) de que espaços de protesto social não é espaço para assédio contra as mulheres.

Há muitos depoimentos de mulheres agredidas ou violentadas nas manifestações ao redor do país. Testemunhas oculares, com direito a vídeos amadores postados no YouTube, não deixam mentir: as mulheres precisam temer não apenas a repressão policial, mas também a misoginia e a intolerância dos próprios manifestantes. São dezenas os relatos de abuso sexual, tanto por policiais armados quanto por manifestantes homens. Várias mulheres, por conta de qualquer suspeita de pertencer a algum partido político de esquerda, sofreram agressões físicas. Além da violência direta, os manifestantes portavam uma quantidade exorbitante de cartazes machistas, acompanhados de piadas e gritos hostilizando as mulheres. (ARRAES, Jarid. A misoginia marcha ao lado)

Para além de disputarmos que as mobilizações sociais não devem ser espaços da nossa opressão, é preciso que nós feministas estejamos lá para dizer: A Copa, a falta de mobilidade urbana e o conservadorismo de ter Marco Feliciano na CDH nos atingem frontalmente! A maioria das pessoas removidas pelas obras da Copa são mulheres, quem mais é atingida pela falta de mobilidade urbana nas cidades (seja por conta de violência sexual nos transportes públicos, seja por conta da questão econômica) são mulheres, a votação do Estatuto do Nascituro, o vilipendio dos direitos humanos no Brasil atingem primeiramente as mulheres negras.

Além destes temas norteadores, o espaço nos abre possibilidade de questionamento importante sobre a militarização da polícia no Brasil. Ora, qual o tratamento dado pela polícia militar às mulheres em situação de violência? Ou nos casos de estupro? O processo de militarização da nossa segurança pública também ajuda a manter o pilar do patriarcado no estado Capitalista, pois tem o poder de manter o status quo da culpabilização das vítimas de opressão e nossa tarefa como feministas é combater tudo que mantenha os pilares patriarcais.

Sim, nesse momento de grandes mobilizações sociais no país nós feministas temos tarefa importante, não é a hora de ficarmos com medo de gente na rua, esperamos por isso em diversos atos que já chamamos.

É hora de tirar do bolso as nossas camisetas lilás e dizer que nós vamos disputar ideologicamente as pessoas, por que apenas o anti-capitalismo sem a desconstrução do machismo, homofobia e racismo não nos contempla. É preciso nos organizarmos para chamar manifestações e disputar as já convocadas. É o momento que temos para ampliar a disputa ideológica que fazemos cotidianamente, e conseguir debater e pautar questões que em momentos de maré baixa são tabus gigantescos.

Não é hora de nos omitirmos, não existe espaço vago na política e não podemos deixar que a direita misógina ganhe uma batalha de disputa ideológica, é hora das feministas disputarem corações e mentes da forma aguerrida que sempre fizemos.

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva pela Democracia!

Facebooktwittergoogle_plustumblrmailby feather

O medo, a política e o momento de não se omitir

Os “partidos” podem se apresentar com os mais diversos nomes, incluindo o de anti-partido ou de ‘negação de partidos’. Na realidade, até os chamados ‘individualistas’ são homens de partido, apenas gostariam de ser ‘chefe de partido’ pela graça de Deus ou da imbelicidade de quem os segue. (GRAMSCI, Antônio)

Com tudo o que está acontecendo eu ainda estou confusa, acho que o momento é delicado, é inédito para a minha geração e carece de uma reflexão mais aprofundada. Porém apesar do momento ser confuso e necessitar reflexão profunda da esquerda como um todo é importante lembrar que não é momento de se omitir.

Qualquer caracterização apressada é equivocada. Porém uma coisa é real: O sentimento anti-partido que está disseminado na massa não é permeado nem de longe dialoga com o debate posto há anos entre socialistas e autônomos.  O debate que reverbera nas ruas contra partidos políticos é por conta da negação do que aí está e abre brecha para que a direita organizada se aproprie do discurso e legitime processos de linchamentos público como os que vimos ontem. É por isso que não podemos ser afobados.

Ontem eu estava na Av. Paulista. No bloco da esquerda unificada. Foi a primeira vez que fui as manifestações novamente como militante, até então ficava mais afastada cobrindo para o trabalho. Fui como militante por que na terça-feira eu me assustei, me assustei de como a massa assimilava com facilidade um discurso nacionalista, fascista e totalitário. Fui por que acredito na revolução e na destruição do estado, assim como muitos dos meus companheiros autônomos ou organizados em outros partidos políticos. Ontem eu temi perder um amigo, temi assim como temo perder meus companheiros nas mãos da PM.

Engana-se, porém, quem diz que essa era uma massa fascista uniforme. Havia, sim, um pessoal dodói da ultradireita, que enxerga comunismo em ovo e estava babando de raiva e louco para derrubar um governo. Que tem saudades de 1964 e fotos de velhos generais de cueca na parede do quarto. Essa ultradireita se utiliza da violência física e da intimidação como instrumentos de pressão e que, por menos numerosos que sejam, causam estrago. Estão entre os mais pobres (neonazistas, supremacia branca e outras bobagens), mas também os mais ricos – com acesso a recursos midiáticos e dinheiro. A saída deles do armário e o seu ataque a manifestantes ligados a partidos foi bastante consciente

Mas um grupo, principalmente de jovens, precariamente informado, desaguou subitamente nas manifestações de rua, sem nenhuma formação política, mas com muita raiva e indignação, abraçando a bandeira das manifestações. A revolta destes contra quem portava uma bandeira não foi necessariamente contra partidos, mas a instituições tradicionais que representam autoridade como um todo. Os repórteres da TV Globo, por exemplo, não estão conseguindo nem usar o prisma com a marca da emissora na cobertura – e não é só por conta de militantes da esquerda. Alckmin e Haddad, que demoraram demais para tomar a decisão de revogar e frear o caldo que entornava, ajudaram a agravar a situação de descontentamento com a classe política. “Que se vão todos”, pensam esses jovens. “Não precisamos de partidos para resolver nossos problemas”, dizem outros, que não conhecem a história recente do Brasil. “Políticos são um câncer”, que colocam todo mundo no mesmo balaio de gatos. (SAKAMOTO, Leonardo. E, em São Paulo, o Facebook e o Twitter foram às ruas. Literalmente)

Acredito haver espaço de disputa nestas mobilizações. Tenho dúvidas se elas permanecem massivas se não convocadas pela esquerda. Por que sim os atos que se massificaram foram atos organizados pela esquerda, seja autônoma ou organizada em partidos, e como normalmente são chamados com pauta específica tenho sérias dúvidas se continua a massificar. Caso continue, creio que há espaço de disputa ideológica, mas é preciso saber dialogar. E mais pra além da disputa ideológica necessária a ser feita é preciso refletir o que nos fez chegar até aqui. Por que nestes mais de 20 anos de redemocratização vemos eclodir no senso-comum posições que dialogam mais com a direita do que com a esquerda.

Se abriu um processo que está em disputa sim, mas não uma disputa fácil, não uma disputa com a qual estamos acostumados normalmente, pelo menos a minha geração não está. Estamos disputando com a direita e precisamos nos diferenciar da burocracia, não é simples, pois estamos lidando com um sentimento de insatisfação com as instituições muito pesado. Porém é preciso apontar que a esquerda socialista e autônoma tem um projeto de destruição do estado e não um melhorismo como tem sido apontado pelos governos Lula e Dilma.

O MPL é um movimento social apartidário, mas não antipartidário. Repudiamos os atos de violência direcionados a essas organizações durante a manifestação de hoje, da mesma maneira que repudiamos a violência policial. Desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos. (Nota no. 11: sobre o ato dessa 5a feira)

Para a disputa que se abre é necessário unidade da esquerda anti-capitalista, é necessário que aqueles que lutam contra a redução da maioridade penal, pela demarcação de terras indígenas, contra o genocídio da juventude negra, pela legalização do aborto, contra a homofobia, por uma cidade sem catracas, pelo transporte público e tantas outras pautas que temos construído mês após mês se unam para debater e apresentar saídas programáticas reais, sem capitular a burguesia e a direita.

O momento é difícil, apavora e é um erro não falarmos com todas as letras que dá medo. Dá medo de perder um companheiro, dá medo de perder um amigo, dá medo de perder a si próprio. Mas o medo não pode nos imobilizar, é ombro a ombro, é olhar nos olhos de quem é do PSOL, PSTU, autônomos e encontrar ali a segurança de que estamos na mesma luta, na mesma disputa ideológica e no mesmo confronto social. Nos reconhecermos e disputarmos com a direita o senso-comum presente nas manifestações.

É importante notar que a revolta apresentada na quinta-feira não foi apenas com os partidos, mas também com organizações civis do movimento sindical, do movimento negro, do movimento feminista e afins. Foi uma demonstração de que há um setor na sociedade que preza pela despolitização dos espaços e se aproveita para dar respostas e apontamentos fascistas para a massa. É preciso refletir, ou ninguém notou que entre as principais matérias da grande mídia sempre se destaca matérias ressaltando o apartidarismo, por que isso interessa aos poderosos? Alguém se perguntou isso?

Eu quero mudar o mundo, eu quero a revolução, eu quero a morte do capital e eu milito em um partido e em movimentos sociais e não quero mais ter medo de colocar as minhas camisas e levantar as minhas bandeiras!

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva pela Democracia!

Facebooktwittergoogle_plustumblrmailby feather
No more posts.