Técnicas de desempoderamento: um guia de resistência

O texto a seguir é da Christina Celeste Nielsen, militante do SAP, e foi traduzido pelo Rodrigo Cruz. Contribuições importantes para refletir as relações em movimentos sociais e organizações mistas.

 

MachismoTécnicas de desemponderamento podem florescer em todos os locais onde existem relações desiguais de poder, sejam elas baseadas em sexo, idade, gênero, raça, experiência ou qualquer outra variável que possa definir até que ponto você é considerado ok em relação às normas dominantes.

Técnicas de desemponderamento podem ser uma ferramenta muito eficiente para marginalizar pessoas ou grupos. Mas o uso de técnicas de desemponderamento nem sempre acontece de forma consciente. É sobre pessoas, comportamento, sinais, linguagem corporal e humor, questões altamente complexas e com diferentes possibilidades de interpretação.

Definir as técnicas de desemponderamento em sua totalidade pode ser uma tarefa árdua, mas a nível individual, podemos nos tornar mais conscientes sobre o que fazemos de nós mesmos. E, finalmente, começar a estabelecer nossos limites em relação ao comportamento dos outros.

Enquanto organização, também podemos fazer muito para reduzir a utilização de técnicas de desemponderamento em nossas fileiras e promover a igualdade em nossas atividades políticas. Isso significa somar experiências e obter um melhor aproveitamento de ideias e recursos entre os nossos quadros. Todos saem ganhando.

Técnicas de desemponderamento 

A seguir estão descritas algumas das técnicas de desemponderamento mais amplamente difundidas. Talvez você mulhernapoliticareconheça algumas dessas técnicas, seja porque você tem sido vítima, seja porque tem se utilizado de algumas delas.

1. Invisibilização

Quando ninguém se relaciona com você ou ignora as suas contribuições em um debate. Qual a vantagem de ter o direito de estar numa assembleia se ninguém te escuta e reage às suas intervenções?

2. Ridicularização e estereótipos

Marginalização através do “humor”. Um bom exemplo é o uso por (alguns) homens de piadas e estereótipos sobre mulheres. Também ocorre quando uma pessoa, em vez de se relacionar concretamente com você e com o que você diz, trata de relacionar a sua fala com a de outra pessoa, que a maioria na assembleia discorda ou acha ridícula.

3. Culpa: “Que merda que você fez isso / Que merda que você não fez isso”

Quando cada escolha que você faz é sistematicamente criticada. Por exemplo, quando os problemas estruturais são reduzidos a uma questão individual. Ou quando mães e pais são criticados por não comparecer às reuniões da organização, mas também enfrentam críticas por trazer seus filhos às reuniões.

4. Paternalismo

Quando alguém fala com você como se você fosse uma criança ou um ignorante. Por exemplo, quando as pessoas insistem que você não entendeu a pergunta, quando na verdade discordam da resposta e se negam a aceitar que você entendeu perfeitamente a questão.

5. Retenção de informações

Quando a produção e circulação de informações, bem como as decisões reais estão sendo tomadas fora das estruturas formais da organização.

Isso pode acontecer durante uma cerveja no bar à noite, após o término da reunião de instância. Isso também acontece quando você recebe repetidamente artigos e mensagens importantes no último minuto, apenas para que você não tenha a chance de se apropriar dos conteúdos antes do debate.

6. Resistência passiva

Quando as pessoas da direção dizem sim e amém a todas as críticas e demandas por mudança, mas simplesmente não colocam em prática nada daquilo que foi demandado.

7. Comportamento ameaçador / Ameaça de violência

Quando alguém levanta a voz ou fica muito perto de você ao falar. Mesmo que não haja necessariamente um contato físico, essa atitude pode significar que as consequências podem ser nada agradáveis se você “não se colocar no seu devido lugar”.

Técnicas de democratização

Aqui estão algumas ideias para lutar contra o uso de técnicas de desemponderamento, tanto em termos pessoais quanto no âmbito da organização.

Em termos pessoais:

1. Faça acordos com você mesmo

Se você nunca fala nas reuniões, você pode começar a fazer um acordo com você mesmo de que precisa dizer alguma coisa, pelo menos uma vez a cada reunião. Mais tarde, você pode aumentar o número de intervenções, de modo que você venha a intervir pelo menos uma vez a cada ponto de pauta. No final, fazer uma fala pode se tornar um hábito bastante animador. Em breve será necessário fazer um acordo com você mesmo para estabelecer o máximo de falas que devem ser feitas a cada ponto de pauta. Afinal, ninguém deve monopolizar o direito de fala.

2. Comente as contribuições das suas/seus camaradas

Contribua para que as reuniões sejam um espaço agradável. Relacione-se com o que os outros dizem, inclusive com o que é dito por companheiras e companheiros que não falam com tanta frequência. Você não necessariamente precisa concordar com tal contribuição, mas pode mostrar o seu respeito, respondendo às questões ou fazendo referência ao que foi dito.

3. Permita-se uma “cota de estupidez”

Todos nós temos medo de fazer papel de boba/bobo – e todos nós o fazemos, de vez em quando! Mas em vez de fazer sempre o que é seguro, permita-se uma “cota de estupidez”. Faça um acordo com você mesmo que admita a possibilidade de ser boba/bobo pelo menos três vezes durante uma reunião. Dessa forma, há espaço para 1) fazer uma pergunta que alguém já perguntou; 2) fazer uma intervenção na qual você simplesmente esquece o que pretendia dizer e 3) fazer uma piada daquelas que ninguém entende.

4. Faça discussões em fóruns abertos

Abuso de poder e manipulação não deve ser reduzido a uma questão pessoal. Se você sentir que você está sendo exposto a técnicas de desempoenderamento por parte de alguém, não hesite em revelar a identidade dessa pessoa. Faça as discussões de forma aberta e em fóruns públicos.

No âmbito da organização:

1. Direito à auto-organização

O direito à auto-organização dos grupos oprimidos é uma ferramenta importante na luta por mais igualdade dentro das organizações. Quando as mulheres, os jovens, as LGBT e outros grupos se reúnem e trocam experiências, fica claro que a opressão não é uma questão individual. Técnicas de desemponderamento (também) são problemas coletivos. E precisam de respostas coletivas.

2. Lista de inscrição

Estruturas democráticas devem promover a igualdade de regras e espaço para que todos possam se manifestar. O caos promove os indivíduos mais fortes. Nas reuniões, escolha um mediador e defina previamente as regras para o funcionamento do espaço. Algumas regras são básicas. Os inscritos de primeira viagem (aqueles que ainda não falaram) e os recém-chegados devem constar no topo da lista. As pessoas que estão falando pela primeira vez têm o direito de falar 5 minutos, enquanto os reinscritos se limitam a falar por 2 minutos.

3. Diferentes tipos de reuniões

As reuniões tradicionais começam com uma longa intervenção de um “expert”. Em geral, somente depois dessa exposição inicial as participantes podem perguntar e tecer comentários. Este tipo de reunião funciona bem para alguns propósitos, mas pode acabar beneficiando aqueles que estão acostumados a falar muito em espaços onde há muitas pessoas. Experimente outros formatos, como grupos de discussão menores e oficinas mais práticas.

4. Coletivização das tarefas

É importante que todas as pessoas tenham a chance de pegar tarefas que lhes desafiem e talvez até mesmo as deixem nervosas ou inseguras. Por exemplo, fazer apresentações orais em reuniões ou cursos, dar palestras em manifestações ou escrever artigos para publicações do partido. A organização deve assumir a responsabilidade coletiva para isso, estimulando processos de cooperação entre camaradas. Companheiras e companheiros mais experientes devem trabalhar em conjunto com as/os menos experientes para preparar a intervenção, discurso, artigo etc. Ambas as partes podem lucrar e aprender muito com este tipo de experiência!

5. Invista em atividades sociais

A área social é importante! Jogos podem ser um excelente entretenimento. Contudo, é importante encontrar diferentes atividades para evitar que uma mesma pessoa seja sempre posicionada como a mais inteligente, a mais engraçada e assim por diante.

6. Cumprir as regras quando se está sob pressão!

Quando a organização está em um período particularmente estressante, durante uma campanha eleitoral, por exemplo, é comum que se deixe para trás as rotinas e formas tradicionais de funcionamento. Consequentemente, há um grande risco de os militantes assumirem um tom retórico mais duro. Também pode acontecer de as decisões serem tomadas de forma mais rápida, sem maiores debates. Nessas situações, é particularmente importante estar ciente dos sinais de perigo. As regras presentes neste guia devem ser consideradas também nas situações de pressão. E quanto a você, estabeleça os seus limites. Avalie aberta e criticamente até que ponto a situação é saudável para você.

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