Um tardio post sobre o Oscar 2015

O BiDê mudou de casa, além deste ser o primeiro post na casa nova (seja a virtual, seja a real) é também meu primeiro post em 2015. Estou bem feliz com estas duas mudanças. Mas agora vamos ao que interessa.

Desde o Oscar 2015 tenho pensado sobre liberalismo e feminismo. De como a apropriação dos movimentos, ideologias e afins por parte da sociedade capitalista é algo cotidiano, tornando fundamental a reafirmação de premissas ideológicas básicas.

O novo feminismo, para mim nada mais passa do que um feminismo liberal, onde o importante é ter mulheres em espaços de poder e pouco importa se elas oprimem e exploram outras mulheres para manter seu staff de glamour. O novo feminismo cheio de purpurina e que ocupa espaços da mídia burguesa com a máxima: cada uma pode ser o que quiser; não bebe mais e nada a mais no velho calvinismo ou do próprio luteranismo, nos quais cada um, se trabalhar e seguir seu destino, terá o sucesso devido. (O novo feminismo ou a boa e velha cooptação nossa de cada dia)

Algumas reflexões sobre a premiação do dia 22 de fevereiro poderiam nos ajudar a entender o que é palatável ou não para o status quo. A primeira delas é o fato de que “Selma” de todos os filmes ganhadores do Oscar foi um dos que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas menos ajudou a divulgar. Tanto que o filme foi indicado há apenas uma categoria do Oscar 2015, acredito ser sintomático.

Os EUA enfrentaram em 2014 uma série de mobilizações questionando a violência policial e o genocídio da juventude não-branca daquele país. E o discurso proferido por John Legend e Common aponta justamente isso: O fato de haver hoje mais negro encarcerados nos EUA do que na época da escravidão. O discurso ganhou força por conta da conjuntura que vivemos no mundo, não é apenas nos EUA que avança o processo de criminalização e genocídio da juventude negra. O racismo e a xenofobia tem avançado e recrudescido de forma internacional.

No dia 22 de fevereiro de 2015, durante a premiação do Oscar no Teatro Dolby, dois discursos importantes foram feitos. Um foi recebido com entusiasmo pela platéia ali presente, o outro recebido com um silêncio ensurdecedor. Patricia Arquette acertou ao reivindicar a equidade salarial entre os gêneros, porém o peso social e político do discurso de John Legend & Common em nada era palatável para uma platéia liberal-progressista como a do Oscar 2015. Quantas mulheres negras pelo mundo conseguem ter o privilégio de pisar no tapete vermelho do Oscar ou de qualquer outra premiação?

A localização social dos discursos, a construção da disputa de consciência junto a sociedade passa também por compreendermos a limitação de alguns discursos e essa limitação não significa que o debate seja inócuo ou desnecessário, apenas que se limita a um determinado setor da sociedade.

Temos um desafio muito grande, inclusive por que a direita tem ganhado espaço pelo mundo e espalha como rastro de pólvora o racismo, machismo, LGBTfobia, xenofobia e exploração de classe. O desafio é conseguir compreender qual setores sociais são os mais afetados pelas políticas de austeridade, segurança pública, etc. O desafio é conseguir disputar corações e mentes para que se compreenda quais privilégios as pessoas tem sobre as outras, mas também de apontar como o Estado burguês se beneficia profundamente com as nossas opressões e mazelas.

Não há como existir feminismo sem anti-racismo, sem LGBTfobia e sem socialismo. E nenhuma dessas coisas tem como existir sem o feminismo.

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